[LIVRO] #LeiaMulheres: As Pequenas Virtudes, de Natalia Ginzburg (resenha)

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Depois de já ter alguns de seus romances publicados no Brasil como “Caro Michele”, “Léxico Familiar”, somos agraciados com uma coletânea de ensaios de Natalia Ginzburg: “As Pequenas Virtudes”.

“As Pequenas Virtudes” é um livro de ensaios dividido em duas partes. A primeira parte, ela decorre em sua grande maioria sobre os deslocamentos e suas impressões, porém, em dois textos ela nos conta sobre duas relações pessoais. Na segunda parte, ela nos apresenta textos com um apelo mais pessoal, ao qual ela fala sobre a sua relação com a escrita e com as pessoas. É de se ater que os ensaios foram escritos esporadicamente entre 1944 e 1962.

No primeiro ensaio que se chama “Inverno de Abruzzo”, ela nos convida a conhecer um vilarejo ao qual ela, seus filhos e seu primeiro marido estavam se refugiando da guerra. Nos é contado que com o tempo acabou se tornando enfadonho viver em um pequeno vilarejo com tudo acontecendo distante, mas ao final ela nos confidencia:

“Meu marido morreu em Roma nas prisões de Regina Coeli, poucos meses depois de termos deixado o vilarejo. Diante do horror de sua morte solitária, diante das angustiantes vacilações que a antecederam, eu me pergunto se isso aconteceu a nós, a nós, que comprávamos as laranjas de Girò e íamos passear na neve. Na época eu tinha fé num futuro fácil e feliz, rico de desejos satisfeitos e de conquistas em comum. Mas aquele era o tempo melhor da minha vida, é só agora, que me escapou para sempre, só agora eu sei.”

Em seu tom melancólico vemos as marcas permanentes que a guerra deixou e é transportado com maestria e simplicidade todos os traços dessa ferida para o ensaio “O Filho do Homem”, ao qual ela nos conta do medo que ainda a ronda, o medo que ainda é alguém tão presente em sua vida.

“É inútil acreditar que podemos sair curados de vinte anos como aqueles que passamos. Os que foram perseguidos nunca mais reencontraram a paz.”

Assim nos é feito um retrato sobre uma época de medo, mas a escritora não deixa a guerra e suas tristezas permear todos os ensaios e assim ela também nos conta da sua relação com a escrita no ensaio “Meu Oficio”, de como a escrita acabou se tornando a seu ver uma inimiga a concorrer com o amor de seus filhos, como já não o achava tão importante ou não queria dar essa importância a ela, mas de noite chorava por ela.

“As crianças me pareciam muito importantes, para que eu me perdesse em história estúpidas”

Nos é mostrado a sensação da maioria das mulheres que largam um pouco de si, para viver somente pelos filhos. Nos perguntamos por que a maternidade é vista desse modo, mas no ensaio nos é esclarecido que devemos dominar o sentimento que temos pelos nossos filhos. A maternidade foi importante na vida dela como escritora e como mulher. Em uma parte de seu ensaio “Meu Oficio”, ela fala que já não deseja escrever como um homem, mas sim como uma mulher que mesmo não podendo usar a comida de seus filhos em seus livros, ainda assim de alguma forma é usada as particularidades de uma mãe na sua escrita.

“Agora já não desejava tanto escrever como um homem, porque tinha tido os meus meninos e tinha a sensação de saber muitas coisas sobre o molho de tomate, e ainda que não as colocasse no conto, sempre era bom que soubesse disso para meu ofício: de um modo misterioso e remoto, isso também servia ao meu ofício.”

Ginzburg com uma escrita refinada aprofunda em um mar de incertezas, de confidências ao pé do ouvido, da inocência de uma época, para a maturidade de outra. “As Pequenas Virtudes” condensa em suas páginas uma sabedoria passada de uma mãe para o seu filho. O tempo todo Natalia volta o olhar para o passado e nos traz um tom nostálgico e melancólico.

Obs: Como o livro é da editora Cosac Naify e recentemente recebemos a notícia do seu fechamento, são poucos locais que possuem disponibilidade. Portanto, em breve a obra deve se esgotar. Logo abaixo selecionamos algumas lojas que ainda estão vendendo.


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As Pequenas Virtudes

Editora Cosac & Naify

160 páginas 

Capa comum

Compre aqui: Amazon 

Natalia Ginzburg foi uma escritora italiana, de origem judaica. Foi casada com Leone Ginzburg e ambos foram perseguidos durante o regime fascista. Seu marido veio a falecer na prisão. Natalia também foi a primeira tradutora da obra de Proust em italiano. Participou do Partido Comunista Italiano e foi eleita deputada em 1963 e 1987. Defendeu causas humanitárias (defesa das crianças palestinas, assistência legal para vítimas de estupro, reforma das leis de adoção entre outras.) Desencantou-se com a política e acabou saindo do Partido. 

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Obras da escritora publicadas no Brasil:

  • “Família”, publicado pela José Olympio. 
  • “O Caminho que Leva a Cidade”, publicado pela editora Primeira Edição. 
  • “Foi Assim”, publicado pela Berlendis & Vertecchia.
  • “Todas as Nossas Lembranças”, publicado pela Art Editora.
  • “Léxico Familiar”, publicado pela Cosac Naify. 
  • “Caro Michele”, publicado pela Cosac Naify. 

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Leitora compulsiva. Apaixonada por animações. Jane Austen e Virginia Woolf são suas escritoras favoritas. Louca por séries. E uma escritora em progresso.
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