[CINEMA] “The Hunting Ground” e a massiva culpabilização da vítima

Compartilhe

The Hunting Ground

Imagine-se entrando na sua faculdade dos sonhos, que por vezes permeia a história da sua própria família. Seus pais, irmãos, e outros parentes próximos cursaram nesta instituição, e todos a tiveram como base para a construção da vida adulta. Imagine todos os amigos, festas e conhecimento que irá adquirir. É de deixar qualquer um feliz, correto? Sim. Mas infelizmente não foram só essas experiências boas que perpetuaram na vida de algumas garotas… 

The Hunting Ground é um daqueles documentários difíceis de ver. Concorrendo ao Oscar 2016 na categoria de “melhor canção original”, o filme traz para as telas nada menos que o problema dos estupros nas universidades americanas. 

Dirigido por Kirby Dick, a produção vai nos apresentando a depoimentos de alunas que sofreram abuso sexual em diferentes campus ao redor dos EUA. Porém, por incrível que pareça, este ainda não é maior problema. A ênfase do documentário se dá na displicência destas instituições sobre os casos relatados, o que é para muitas meninas, a pior parte do estupro.

Depois das denúncias, além de toda dor física e emocional decorrente do abuso, elas ainda tiveram que lidar com humilhação, ameaças virtuais, e aquelas perguntas cretinas que também ouvimos muito falar por aqui: “com que roupa você estava?”, “você não bebeu demais?”, “por que não reagiu?”, “estava claro que o que havia entre vocês era só amizade?”. Sem contar, é claro, do fato de encontrarem os seus abusadores diversas vezes, e conviverem com a sensação de que nada foi feito! 

Mas felizmente, uma hora o silêncio acabou. Cansadas de toda a injustiça que reinava sobre seus casos, duas alunas se uniram para cessar a grande epidemia de estupro. Procuraram formas judiciais que forçassem as universidades a tomarem providências, ligaram os pontos, e juntas formaram um suporte valioso para outras sobreviventes que por um longo tempo tiveram que aguentar suas dores sozinhas e caladas. O projeto tomou grande repercussão, e finalmente elas foram ouvidas.

Como a Isabelle me disse em uma conversa, é o tipo de filme que apesar de nos deixar bem para baixo, é necessário! Eu mentiria se dissesse que ficou tudo bem quando acabou. Dói. Dói saber que acontece, dói ver os dados de recorrência e injustiça, dói ver as vítimas sorrindo, tentando esconder o sofrimento. Mas fechar os olhos para o assunto não faz com que o crime cesse. Muito ainda precisa ser feito, e para isso, nada melhor que tomar conhecimento sobre o que realmente acontece!


Confiram também o texto do Nó de Oito, com o relato de uma brasileira que sofreu assédio na Inglaterra, e nos conta sobre como o tratamento a vítimas de assédio sexual deveria ser.


Compartilhe

Autora

36 Posts

“O senhor não imagina bem que eterna variação de gênio é aquela moça. Há dias em que se levanta meiga e alegre, outros em que toda ela é irritação e melancolia.” (Ressurreição, Machado de Assis). 20 anos, estudante de Engenharia e que prefere passar o dia vendo filmes do que com a maioria das pessoas.
Veja todos os textos
Follow Me :