Leia Mulheres: “A Amiga Genial”, de Elena Ferrante

Leia Mulheres: “A Amiga Genial”, de Elena Ferrante

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Para dar o pontapé inicial da nossa edição do Leia Mulheres ( #leiamulheres ) com a categoria “Livros que fazem parte de uma série”, não poderíamos ter escolhido uma autora melhor.

Elena Ferrante, a autora da Série napolitana (ou Tetralogia napolitana), é, atualmente, um dos maiores fenômenos literários internacionais: o número de vendas ao redor do mundo impressiona, novas traduções de seus livros não param de ser publicadas e até mesmo uma série de televisão baseada na coleção de livros será lançada pelas produtoras italianas Fandango e Wildside. O sucesso é tão impressionante que ganhou nome: Ferrante fever – que é título de um documentário que está sendo produzido pelo diretor Giacamo Durzi e procura entender, em parceria com escritores como Roberto Saviano, Jonathan Franzen e Elizabet Strout, esse irresistível fenômeno literário.

A esse sucesso todo, soma-se ainda um detalhe que tem provocado polêmica: Elena Ferrante é um pseudônimo. Ninguém, com exceção de sua editora italiana, sabe quem é a mulher por trás do nome. Desde o lançamento de seu primeiro romance, há mais de vinte anos, Ferrante decidiu se manter no anonimato. Em 2015, no entanto, um jornalista, que não devia ter nada mais interessante para investigar, decidiu que iria descobrir e revelar a verdadeira identidade da escritora. (Sabe aquela velha ideia machista de que quando uma mulher diz “não”, ela não está na verdade dizendo “não”, mas sim se fazendo de difícil? Pois é…)

Quando o sujeito publicou os resultados de sua “investigação”, ele acreditava que a repercussão seria positiva e que os leitores e leitoras ficariam gratos com a revelação… Felizmente, ele não podia estar mais enganado. Uma quantidade imensa de artigos, em jornais, revistas e sites especializados, criticou pesadamente os métodos invasivos de “investigação” utilizados pelo tal jornalista e defendeu a escolha da autora. A verdade é que não interessa saber quem é a mulher por trás da autora, mas sim que ela escreveu vários livros incríveis. O recado de Ferrante é que a obra deve ser mais importante do que autor – ela mesma afirma isso em algumas das poucas entrevistas que concedeu.

Agora que já nos atualizamos rapidamente sobre a polêmica toda, podemos passar ao livro, que é o que interessa. Vamos lá?

Leia Mulheres Elena Ferrante A Amiga Genial
Encontro de outubro de 2016 do Leia Mulheres Curitiba – Foto: Ivan Mendonça

A Série napolitana

A série é composta de quatro volumes: “A Amiga Genial”, publicado aqui no Brasil, em 2015; “A História do Novo Sobrenome” (2016) e “História de quem foge e de quem fica” (2016). A editora responsável é o selo Biblioteca Azul, da Globo e o quarto volume está previsto para ser lançado agora em 2017. Desde a publicação da série, outros romances da autora foram lançados por aqui: Dias de abandono, também pela Biblioteca Azul, e “A Filha Perdida”, pela Intrínseca, ambos excelentes.

Na Série napolitana nós conhecemos Elena Greco (Lenu) e Raffaella Cerullo (Lina ou Lila) e acompanhamos suas vidas desde a infância até a vida adulta. Em “A Amiga Genial” nós somos apresentadas às personagens ainda meninas, brincando de boneca, indo à escola, tentando compreender as famílias numerosas em quem haviam nascido e o bairro napolitano, violento e pobre, em que moravam. Esse primeiro volume acaba ainda na metade da adolescência das personagens em uma cena absolutamente chocante. A história toda é narrada em primeira pessoa, por Lenu, e é motivada por um acontecimento inesperado: Lenu recebe um telefonema do filho mais velho de Lina, dando conta de que a mãe havia desaparecido. E desaparecido intensamente!:

“Ele foi e se deu conta de que não havia nada lá, nenhuma das roupas da mãe, nem de verão nem de inverno, apenas velhos cabides. Depois o mandei procurar pela casa. Os sapatos tinham sumido. Sumiram os poucos livros. Sumiram todas as fotos, e também os filmes caseiros. Sumiram o computador e até os velhos disquetes que se usavam antigamente, tudo, cada detalhe de sua vida de bruxa eletrônica, que começara a exercitar-se com calculadoras já no fim dos anos 1960, na época das fichas perfuradas.”

Como dá para perceber, o enredo, no geral, parece simples: o crescimento e o amadurecimento dessas duas meninas e a sua relação de amizade. Porém, a amizade de Lenu e Lila tem muito mais nuances do que podemos imaginar. Além disso, a complexidade desse relacionamento é realçada também pelas inúmeras diferenças que separam as personagens e que só aumentam no decorrer dos livros: a aparência física, a personalidade, a forma de lidar com os acontecimentos e com as outras pessoas e a própria trajetória de cada uma.

Como o livro acompanha boa parte da infância e da adolescência das duas, é inevitável abordar aquele momento conturbado de transição, quando elas já não são mais meninas, mas ainda não se sentem mulheres. As metamorfoses no corpo das duas personagens e a descoberta do desejo sexual são temas tratados de uma forma muito franca e sensível pela autora.

É impossível não se lembrar daqueles dias difíceis do início da adolescência e daquela época que todas nós tivemos, nas quais o nosso corpo mais parecia uma casca pouco familiar e inadequada. Além das questões psicológicas, internas às personagens (lembre-se que nós só temos acesso a Lila por intermédio de Lenu), o meio social onde as personagens circulam também tem um peso importante na história. Se a desigualdade de tratamento entre meninos e meninas já era significativa durante a escolaridade das personagens, ela atinge momentos quase insuportáveis durante a adolescência – como podemos ter uma ideia no trecho abaixo:

Leia Mulheres Curitiba Elena Ferrante #leiamulheres

“O que estava acontecendo? Na rua, os homens com quem cruzávamos olhavam todas nós, as bonitas, as bonitinhas e as feias, e não tanto os rapazes, mas sobretudo os mais maduros. Era assim tanto no bairro quanto fora dele, e Ada, Carmela e eu – especialmente após o incidente com os Solara – tínhamos aprendido a manter os olhos baixos, a fingir que não ouvíamos as porcarias que nos diziam e seguir em frente.”

A força e o encanto desse livro – e de toda a série – está na forma, sensível e brutalmente franca, com que Elena Ferrante conduz a narrativa. É o tipo de livro que não te deixa largar a leitura, quando você pensa em dar aquela pausa, lá vem a autora com um “Mas isso era o que eu achava até então” que não te dá trégua. Sabe quando todo mundo fala que não conseguiu parar de ler o livro favorito? Acredite, ninguém sabe o que é isso até ler Elena Ferrante.

Além disso tudo, “A Amiga Genial” é um livro que mergulha profundamente nas questões femininas, sem medo de tocar em assuntos delicados e até mesmo dolorosos. A identificação, seja com Lenu, seja com Lila, seja com qualquer outra mulher criada por Ferrante, é inevitável.

“Meu pai me apertou a mão como se temesse que eu fugisse. De fato eu tinha vontade de deixá-lo, de correr, me mover, atravessar a rua, ser atingida pelas escamas cintilantes do mar. Naquele momento tão tremendo, cheio de luz e clamor, fingi-me sozinha dentro do novo da cidade, nova eu mesma com toda a vida pela frente, exposta à fúria movente das coisas, mas certamente vencedora: eu, eu e Lila, nós duas com aquela capacidade que juntas – somente juntas – tínhamos de captar a massa de cores, de sons, de coisas e pessoas, e depois narrá-las e dar-lhes força.”

Ps: As duas imagens do post são do encontro de outubro de 2016, do Leia Mulheres Curitiba, sobre os três primeiros livros da Série napolitana. A leitora atenta ali é a Emanuela Siqueira, mediadora do grupo. Que tal procurar o Leia Mulheres da sua cidade?


A Amiga Genial, Elena Ferrante

Editora Biblioteca Azul

Ano de publicação: 2015

Tradução: Maurício Santana Dias

331 páginas

Onde comprar: Amazon


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Autora

11 Posts

Professora, feminista, pesquisadora em literatura, engajada na missão de ler sempre mais mulheres. É viciada em livros & séries. Tem sempre um lugar especial no coração para Star Wars, filmes da Ghibli & gatos.
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