[LIVROS] O Casal Que Mora ao Lado: Maternidade, saúde mental e sobre ser mulher na sociedade (Resenha)

[LIVROS] O Casal Que Mora ao Lado: Maternidade, saúde mental e sobre ser mulher na sociedade (Resenha)

O casal que mora ao lado, primeiro livro escrito pela autora canadense Shari Lapena, foi publicado no Brasil em 2017 pela Editora Record e já alcançou o patamar de best-seller internacional. Antes de se tornar escritora, Lapena atuava como advogada e professora de inglês, o que com certeza contribuiu para sua escrita. Misturando elementos da realidade vista em casos jurídicos e somando com suas próprias ideias imaginárias.

Sinopse oficial de O casal que mora ao lado

É o aniversário de Graham, e sua mulher, Cynthia, convida os vizinhos, Anne e Marco Conti, para um jantar. Marco acha que isso será bom para a esposa; afinal, ela quase nunca sai de casa desde o nascimento de Cora, há seis meses, e a depressão pós-parto. Porém, no último minuto, a babá telefona avisando que não poderá ficar com a bebê. E Cynthia havia pedido que não levassem a filha. Nada pessoal; ela simplesmente não suporta crianças chorando.

Marco Garante que Cora vai ficar bem, dormindo no berço. Afinal, eles moram na casa ao lado. Podem levar a babá eletrônica e se revezar para dar uma olhada na filha a cada meia hora. Tudo vai dar certo. Anne acha que não é uma boa ideia e, quando vê Marco flertando com Cynthia a noite inteira, tem certeza de que não deveria ter deixado a filha sozinha.

Ao finalmente voltarem para casa, os dois se deparam com a porta aberta. Quando sobem as escadas, sabem que seu pior medo se tornou realidade: Cora desapareceu. E, ao enfrentarem a pressão da opinião pública e as suspeitas do detetive Rasbach, Anne e Marco se veem em uma teia de mentiras, que traz à tona segredos aterradores.

O Casal Que Mora ao Lado

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS LEVES QUE NÃO TIRAM O PRAZER DA LEITURA

Anne pretendia estabelecer um limite, mas perdeu o controle: não sabia de que outra forma poderia passar aquela noite. ” Imagine você ser convidada para um jantar na casa de sua vizinha e durante toda a noite ela dar em cima do seu marido? Pior, essa vizinha exigiu que sua filhinha bebê ficasse em casa, para que somente adultos fossem à sua festa. Pior ainda, sua filha fica sozinha em casa pois a babá cancela de última hora! E para tudo ficar ainda mais trágico, sua filha é sequestrada no meio da noite.

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Assim começa a história de O casal que mora ao lado. Desde o começo do livro podemos experimentar aquela sensação ao ler suspenses e thrillers. Nunca sabemos o que vai acontecer e temos receio do que pode vir a acontecer. No livro em questão, somos levadas a um thriller psicológico, onde todos os personagens se tornam uma nebulosa e suas intenções sempre são narradas de modo ambíguo. Mas além de ser um livro repleto de reviravoltas, surpresas e jogos mentais, o casal que mora ao lado consegue apresentar elementos de crítica e reflexão, que vão desde questões relacionadas a gênero até discussões sobre saúde mental e transtornos psicológicos.

Apesar de possuir uma história que gira em torno de um sequestro, com outros elementos presentes, o livro chama a atenção para assuntos importantes e atuais. Uma das grandes personagens no livro, se não a maior de todas, é Anne Conti, a mãe de Cora. Shari Lapena conseguiu traduzir problemáticas acerca da maternidade em uma linguagem clara e ao mesmo tempo envolvente.

A responsabilização dos cuidados sempre é da mãe

Sabemos como a mídia e os meios de comunicação conseguem facilmente atribuir culpa de qualquer situação às mulheres, e quando se é mulher e mãe, não ocorre diferente. Logo ao se espalharem as notícias sobre o sequestro de Cora, os jornais rapidamente começaram a responsabilizar os pais por terem deixado sua filha, bebê, sozinha em casa enquanto estavam em uma festa. Obviamente, a população possui mais facilidade em se revoltar socialmente quando enxerga uma violação de direitos com uma criança do que com outras idades.

Mostrando seu poder de repulsa ao “abandono materno/paterno”, diversas pessoas começam a escrever cartas e enviá-las para a casa da família Conti. Cartas de ódio. Cartas de ódio direcionadas à mãe da criança. “Como uma mãe deixa a própria filha sozinha? ” Mesmo que não tenha gerado Cora sozinha, ou que a deixou em casa porque o pai concordou (e sugeriu), as mensagens de desaprovação são direcionadas à figura de mãe, de mulher.  O que ocorre também no cenário atual,  mulheres sendo responsabilizadas por toda a parte de cuidado da criança.

“Ser mãe é nunca se sentir só”

A romantização sobre a maternidade não é algo novo. Diversas mulheres lidam com a pressão de se sentirem plenas e realizadas após darem à luz a uma criança. Muitas mulheres se sentem dessa maneira, mas não todas. A partir do momento em que uma mulher engravida, sua vida ao olhar do outro, deixa de ser sua e passa a ser do bebê. Ou, nas palavras de Anne Conti, ninguém mais queria sair com ela e quando a viam sempre perguntavam “e Cora?” Pouco é comentando de um fenômeno que atinge mulheres que se tornam mães, pouco é falado sobre depressão pós-parto.

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 A saúde mental é uma área que está alcançando ainda o seu espaço, e mesmo com toda a luta para campanhas de prevenção e promoção da saúde, a área mental é estigmatizada. “Só gente louca”. O casal que mora ao lado retrata bem a depressão pós-parto enfrentada por uma mãe, que está longe de ser uma luta fácil. Mães que adquirem esse transtorno são acometidas de uma tristeza constante, falta de interesse, sonolência, gula ou falta de apetite, sensação de culpa constante…. Os sintomas de uma depressão pós-parto são diversos e solitários. Solitários porque em grande parte das vezes a mulher perde o contato com amizades, pois um dos fatores da doença é o isolamento social. Ou então, como Cynthia (vizinha de Anne) se refere à sua amiga:

“Então ela engravidou e parecia que só pensava em bebês. Só queria comprar coisas de criança. Desculpe, mas fiquei um pouco entediada com isso depois de um tempo. Acho que Anne ficou magoada porque eu não demonstrava interesse pela gravidez dela. Já não tínhamos tanto em comum. Então, quando Cora nasceu, passou a consumir todo o tempo dela. Eu sei que ela estava cansada, mas Anne se tornou uma pessoa menos interessante, entende o que quero dizer? ”

Entendemos sim, Cynthia. Entendemos que faltou empatia da sua parte.

Saúde mental é um assunto importante que a literatura precisa explorar

Além de ter sido diagnosticada com depressão pós-parto, Anne Conti  também lidava com o diagnóstico de um transtorno dissociativo. Mais para a metade/final do livro o distúrbio começa a ser tratado e explicado. Sabemos que o debate sobre a saúde mental presente é uma necessidade, visto que é uma área responsável por afetar diversas pessoas e também por ser estigmatizada pela sociedade em geral. Dia 18 de maio comemorou-se o dia nacional da luta antimanicomial, que representa um marco no Brasil, comemorando a reforma psiquiátrica e o fim dos manicômios.

O casal que mora ao lado ganha pontos ao incluir o debate sobre os transtornos mentais em sua narrativa. Anne possuía uma perda de memória que não conseguia ser explicada. Fazia coisas das quais não se lembrava, ia parar lugares desconhecidos e por aí vai! O livro desenvolve o assunto de uma maneira que problematiza a saúde mental enquanto uma questão de saúde e não de loucura, enquanto uma doença a ser tratada.

O casal que mora ao lado

O casal que mora ao lado pode ser um daqueles livros repletos de suspense que você lê em dois dias, mas acaba deixando fatos importantes de lado. Como já falamos, a história é focada no desaparecimento de Cora e em como diversos segredos são soltos com esse sumiço da bebê. Apesar de não ser um livro focado na questão de gênero, podemos perceber, seja pela escrita ou pelos diversos capítulos que trazem essa abordagem, que a autora se preocupou em falar de maternidade, saúde mental e ser mulher dentro de uma sociedade.


O Casal que Mora ao Lado

Autora: Shari Lapena

Editora Record

294 páginas

Onde comprar: Amazon

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Escrito por:

27 textos

Feminista e estudante de serviço social. Ama Star Wars e é viciada em gatos. Adora conversar sobre gênero e brinca de ser gamer nas horas vagas. Nunca superou o fim de The Smiths.
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