“Mãe!” e a loucura genderizada de acordo com Aronofsky

“Mãe!” e a loucura genderizada de acordo com Aronofsky

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O diretor Darren Aronofsky é daqueles cineastas monotemáticos, que gostam de abordar sempre as mesmas ideias em seus filmes. Ele costuma retratar personagens que tem alguma obsessão, seja pela perfeição na dança, a cura para a morte, a equação matemática perfeita, ou por seguir a mensagem do “Criador”. Temas religiosos também costumam dar as caras em seus filmes, de formas nada sutis. Noé é um filme inspirado, obviamente, na história bíblica. O mito de Adão e Eva aparece também em seus outros filmes que tratam sobre amor, e em Mãe! há claramente uma alusão a seitas religiosas, além de todas as metáforas super óbvias sobre a Bíblia. Tudo isso também é embalado por uma visão bastante pessimista, misantropa e moralista.

Em Mãe!, Aronofsky resolveu retratar a opressão feminina e fazer uma relação com o mau tratamento que humanos dispensam à natureza. Para tal, ele faz a clássica relação entre maternidade, natureza e feminilidade, que resulta no nosso tropo da “Mãe-Natureza”. Essa sempre foi uma associação muito confortável para o patriarcado.

A partir da Revolução da Agricultura, humanos passaram a ter essa relação de senhorio com a terra e o ambiente ao redor. Com a possibilidade de domesticar plantas e animais, nós nos tornamos os senhores, e a Natureza, a dominada. Nada mais coerente, portanto, que dispensar a mesma hierarquia a todos os outros seres que por um infortúnio tomaram a camada de baixo na estrutura de poder. 

É aí que essa clássica referência a “Mãe-Natureza” se torna problemática. A Natureza nunca deu nada de graça para ninguém. Antes de dominar a agricultura, humanos tinham que dar seu jeito tanto quanto os outros animais para encontrar abrigo e comida. Fome e toda sorte de perigos eram presenças comuns na vida pré-agrícola. Um acaso evolutivo deu vantagem cognitiva a uma espécie de humanos (homo sapiens) que virou o jogo, permitindo com que ela acabasse dominando estratégias mais eficientes de caça (que acabou levando à extinção de metade dos grandes mamíferos no planeta inteiro) e também levasse ao fim todas as outras espécies humanas (como nossos primos Neandertais). A dominação da Natureza foi algo aprendido, algo tomado à força, e não algo oferecido por ela.

Da mesma forma, gestação e reprodução não são algo oferecido pelas mulheres aos homens. Reprodução é um simples fato biológico. Algumas mulheres geram filhos, e com isso perpetuam a espécie humana, ponto. A função social da reprodução compulsória é um papel imposto pela dominação patriarcal, assentada por alguns milênios desde a Revolução da Agricultura. Na realidade, Natureza não tem gênero, e a feminilidade e a maternidade não estão naturalmente a serviço do gênero masculino.

Apesar disso, Aronofsky associa maternidade à Natureza, fazendo de sua protagonista (Jennifer Lawrence), uma dócil e submissa esposa, que está disposta a fazer de tudo por seu amado marido, 20 anos mais velho que ela (Javier Bardem). Aronofsky faz o paralelo entre a exploração masculina sobre as mulheres, que “tanto se dedicaram aos homens e nada tiveram em troca” e a exploração do meio ambiente, que está causando nosso atual desastre ecológico em escala global (mas que, como vimos, já vem acontecendo desde a Pré-História).

Os problemas apresentados em Mãe!

Aronofsky nunca sequer contempla o papel de “provedora” da mulher e da Natureza como imposto, algo tomado à força. Ele caracteriza mulher e Natureza como espontaneamente fornecedoras de vida, sustento e dedicação. Essa é, afinal, a narrativa dominante em nossa sociedade. O corpo da protagonista é comparado diversas vezes à casa em que o casal habita, com suas paredes pulsando como um coração (que aparece literalmente na tela, numa péssima aplicação de efeitos especiais). Da mesma forma, a destruição da casa é comparada à violação do corpo feminino.

Diversas vezes o filme apresenta essa disposição à submissão como algo que parte naturalmente das mulheres, e nunca como algo imposto por uma ordem social. Sendo assim, a narrativa condena os homens apenas pelo oportunismo, por utilizar desse carinho e serviço maternal sem lhes dar nada em troca, mas nunca os aponta como impositores dessa ordem social de dominação em primeiro lugar. A vontade de se submeter já parte da própria protagonista, por escolha dela mesma.

A protagonista, inclusive, não tem um nome. Ela é referenciada nos créditos apenas como “mãe”. Os outros personagens também não são nomeados, mas nenhum deles é definido por seu papel social, como ela é. O marido não é o “pai”. Ele aparece nos créditos como “ele”. Essa escolha de tornar a maternidade como característica definidora da protagonista, e torná-la o cerne do filme, ao entitular o mesmo como “Mãe!”, é redutora e patética, principalmente porque Aronofsky parece saber muito pouco sobre o assunto de que está falando.

Ele pega clichês do senso comum sobre o que é ser mãe e os coloca no filme: subserviência, instinto protetor, dedicação incondicional, e assim por diante. Ainda por cima, numa cena artificial e hilária, a anunciação da gravidez, magicamente, resolve todos os problemas do casal pelos vários meses seguintes. Ela é curada de sua melancolia, e ele, um escritor com bloqueio criativo, tem um surto instantâneo de inspiração e volta imediatamente a escrever. O mito do amor maternal cura tudo, pelo visto. Ou, pelo menos, por um tempo.

Mãe!
Imagem: Reprodução

Tecnicamente, o filme apresenta também vários problemas. Há algumas obras do Aronofsky que dividem totalmente a opinião do público e da crítica, e Mãe! é uma delas. Além dos efeitos computadorizados de qualidade duvidosa, as escolhas narrativas são bem ousadas (leia-se: são bem trash), com ritmo irregular, muitas cenas monótonas e arrastadas seguidas de um terceiro ato histérico e surreal, e com vários momentos grotescos que irão revirar o estômago dos mais desprevenidos.

Alguns espectadores entram realmente na onda e se veem imersos no mundo de loucura que Aronosfky apresenta, pois ele costuma criar atmosferas bem envolventes em seus filmes. Mas, para outra parte do público, a reação inevitável é o riso e o desdém. A câmera permanece o tempo todo presa ao rosto de Jennifer Lawrence, seja a seguindo de perto, seja mostrando o que ela vê. Isso seria um ótimo modo de nos colocar na pele da protagonista, não fosse sua caracterização genérica e má desenvolvida. Ela não tem personalidade própria para além da subserviência, dos sustos que leva, e da opressão que sofre. É difícil se conectar com uma caricatura.

Aronofsky sempre retrata personagens que sofrem por causa de suas obsessões. Mas a representação desse sofrimento é marcantemente diferenciada pelo gênero do protagonista. Quando é homem, ele sofre por causa de suas próprias ações destrutivas. Quando é mulher, ela sofre pelas ações dos outros sobre ela.

Nina, em Cisne Negro, é assediada sexualmente pelo professor e perseguida por sua mãe e sua rival. A pressão que ela sofre vem da imposição externa pela perfeição no ballet, que ela acaba internalizando. Mãe, em Mãe!, é negligenciada pelo marido e abusada de todas as formas possíveis pelas pessoas que adentram sua casa sem serem convidadas. Muito diferente do sofrimento de Tom, em Fonte da Vida, que é obcecado pela cura da morte por sua própria vontade. Não há ninguém o pressionando para que ele encontre logo a tal cura, muito pelo contrário. As pessoas ao seu redor o pedem para relaxar e parar de trabalhar tanto. Randy, em O Lutador, também decide mergulhar na luta livre porque é o que faz sentido para sua vida, apesar dos riscos que causa à sua saúde, e não por pressões externas.

O que poderia ser um comentário muito pertinente e inteligente por parte de Aronofsky em seus filmes, sobre as posições diferentes que homens e mulheres ocupam na sociedade atual, infelizmente não o é por uma aparente inabilidade do diretor em verdadeiramente enxergar esses temas. Claro que ele vai falar que Mãe! foi feito para representar a opressão feminina, mas ele constrói o filme do ponto de vista dele mesmo enquanto homem branco que não sabe nada sobre o assunto para além dos clichês do senso comum a que foi apresentado. Isso está evidente em toda a sua obra como cineasta, pelo modo como ele representa mulheres de formas machistas em todos os seus filmes, mesmo quando elas são as protagonistas.

Se Aronofsky pretensamente se preocupa tanto com os papeis sociais de gênero, por que nenhum de seus protagonistas homens sofre por questões definidas primariamente por sua masculinidade também? Provavelmente, porque ele consegue enxergar homens como pessoas completas. Enquanto mulheres, aparentemente, serão sempre vistas pelo seu gênero, antes de qualquer outra coisa.

Mãe!

A escalação de Jennifer Lawrence, no papel principal, também é mais uma questão a ser discutida. Ela é constantemente colocada em papeis inadequados para a sua idade, que deveriam ir para atrizes mais velhas, principalmente nos filmes de David O. Russell. Aqui isso parece se repetir. Lawrence é a única jovem num elenco todo bem mais velho que ela. O filme justifica essa escolha reconhecendo várias vezes a diferença de idade entre ela e seu marido, mas a discussão para por aí, na simples constatação do fato. É como se o filme quisesse fazer um mea culpa e justificar a presença de Lawrence, reconhecendo que existem problemas nela, mas sem ter que desenvolver essa questão, de fato, no desenrolar da narrativa.

A desculpa é de que se está falando sobre como mulheres jovens são usadas por homens mais velhos, mas o contexto, entretanto, faz parecer que Lawrence foi escolhida provavelmente porque é uma atriz jovem, de talento, que está muito em voga. Não é segredo o quanto Hollywood costuma emparelhar atrizes jovens com atores duas décadas mais velhos nos filmes. Este é apenas um filme mais esperto, que arrumou uma desculpa para fazer o mesmo.

É uma pena que homens brancos continuem ganhando tanto reconhecimento e prestígio falando de histórias de que pouco sabem. Claro que, num mundo ideal, todos poderiam falar sobre o que quisessem, sem problemas. Mas, enquanto isso não acontece, é triste perceber que, enquanto mulheres ainda precisam lutar tanto para vencer os obstáculos e conseguir fazer filmes sobre suas próprias visões de feminilidade e o que significa ser mulher nessa sociedade, homens brancos continuam sendo aplaudidos por se apropriarem dessas mesmas histórias.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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