Kindred – Laços de sangue: nem todas as viagens no tempo são iguais

Kindred – Laços de sangue: nem todas as viagens no tempo são iguais

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— “Se você pudesse voltar no tempo, para onde iria?”

A resposta a essa pergunta, que praticamente toda e qualquer pessoa já ouviu pelo menos uma vez na vida, não é tão simples assim quando tentamos nos colocar no lugar de Dana Franklin, a protagonista de Kindred  –  Laços de sangue, nada menos do que a grande obra-prima da escritora de ficção científica estadunidense Octavia Butler (1947–2006). A leitura de suas 448 páginas — uma leitura que, em português, demorou 38 anos para acontecer — nos desvenda por quê.

Explica-se: a viagem no tempo costuma ser retratada pela mídia (filmes, novelas, livros e músicas) como uma experiência fantástica que permite ao viajante encontrar um mundo diferente, exótico, cheio de aventuras e fantasias, e que, embora ofereça alguns riscos, em geral termina com um final feliz e um aprendizado para toda a vida.

Em termos mais realistas, porém, uma reflexão mais demorada nos faz perceber que viagens assim só são seguras para um grupo de pessoas bem específico: o homem branco e proprietário. Imagine voltar no tempo como uma mulher. Imagine, então, voltar no tempo como uma mulher negra, em uma situação de pobreza, desumanização e total privação de liberdade.

Edição de "Kindred - Laços de Sangue" publicada pela Morro Branco.
Edição de “Kindred – Laços de Sangue” publicada pela Morro Branco.

Dana é uma dessas mulheres. De repente, em 1976, no seu aniversário de 26 anos, ela, que mora na Califórnia, vê-se empurrada para uma dessas viagens no tempo, e acorda à beira de um rio, dentro dos limites de uma plantation (fazenda escravocrata) nos sul dos EUA, nos arredores de Maryland, em 1819, muito antes da Guerra da Secessão (1861–1865) que colocaria um fim à escravização. Logo no início, Dana nos introduz à situação em que ela se encontra: 

“- Perdi um braço na minha última volta para casa. Meu braço esquerdo”.

Octavia Butler não poupa, minimiza ou romantiza a situação. Pelo contrário: usa a ficção científica para falar de temas incômodos, confrontar privilégios e enfrentar o histórico de negação da população branca dos EUA a respeito dos efeitos da escravização sobre os corpos e vidas negros — uma negação que ainda se vê de forma nítida pelo encarceramento massivo e pelo genocídio da população negra, pela perseguição e criminalização de movimentos como o #BlackLivesMatter e pela violência específica que acomete as mulheres negras, na forma de maiores índices de feminicídio, estupro, violência doméstica e o próprio encarceramento.

Octavia Butler
Octavia Butler. Imagem: Reprodução

Ao longo da trama, Dana vê se descortinar diante de si um cenário que ela já conhecia dos livros, mas que também passa a incluí-la e a violentá-la e desumanizá-la. Como uma mulher de pele negra, não poderia ser outro o seu destino, de acordo com os proprietários escravocratas. Assim como seus ancestrais, ela também é chicoteada, obrigada a trabalhar sem qualquer soldo, dorme em locais insalubres e indignos, é alvo da violência da esposa de seu “senhor” e sofre com a possibilidade de ser estuprada e de ser vendida a qualquer momento.

A trama de Kindred nos faz refletir a todo momento: o motivo de Dana voltar no tempo — e ela volta várias vezes, em diferentes anos das primeiras décadas do século XIX — é salvar sempre a mesma pessoa e impedir que ela morra. A pessoa em questão é Rufus Weylin, que possui em torno de cinco anos quando Dana volta no tempo para salvá-lo da morte pela primeira vez. É filho do proprietário da fazenda e, como veremos ao longo da narrativa, um projeto de déspota.

Logo passamos a saber por que cabe a Dana salvá-lo. E nisso reside toda a complexidade e também a sutileza e genialidade da obra de Butler. Dana e Rufus estão ligados de forma inexorável, e Dana sabe que não poderá alterar a narrativa do que se passou, mas, como vingança, tem o poder de contar o que de fato ocorreu, sem que o olhar branco altere, minimize ou desvirtue a sua história. E de tomar a decisão que gostaria de tomar quando finalmente termina a tarefa que lhe foi incumbida.

Ao longo das 448 páginas de Kindred, Butler denuncia o crime por trás da miscigenação— o estupro de mulheres escravizadas por seus “senhores” ; a negação da maternidade a essas mulheres, obrigadas a presenciar a venda de seus filhos a mercadores escravocratas; a violência cometida por mulheres brancas contra as mulheres escravizadas; a terrível situação em que se encontravam as pessoas escravizadas, obrigadas a fazer de tudo para sobreviverem e não sofrerem castigos físicos.

Quando Butler escreve e publica tudo isso, em 1979, é importante lembrar que o movimento negro nos EUA acabava de sofrer um grande revés, por meio da estigmatização, criminalização e desmoralização do Partido dos Panteras Negras pelo FBI. Era o início do reforço do movimento de Lei e Ordem que, nos anos 80, com Ronald Reagan, iniciaria um movimento de encarceramento em massa de jovens negros; o movimento feminista, assim como na época do movimento sufragista, excluía e marginalizava mulheres negras que insistiam na importância das intersecções entre gênero, classe e raça.

Usar a ficção científica para falar de um assunto que todos entendiam como alheio e estranho a esse gênero literário foi não apenas um ato de genialidade, mas também de afronta, de coragem e de comprometimento com seus próprios ideais e princípios.

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Kindred: literatura e poder

Sendo uma mulher negra e pobre, diagnosticada tardiamente com dislexia, Butler estava longe de ser o tipo de rosto que se via nas contracapas dos livros de ficção científica, ganhando rios de dinheiro ao vender os direitos autorais de seus livros para estúdios de cinema, ou figurando nos cânones da ficção científica masculinista, branca e avessa a discutir temas como machismo e escravização.

Octavia Butler durante a adolescência
Octavia Butler durante a adolescência. Imagem: reprodução

Celebrada como “A grande dama da Ficção Científica”, Butler afirmava que começou a escrever sobre poder porque poder era algo que ela tinha muito pouco. Filha de uma empregada doméstica e de um engraxate, Butler nasceu em 1947, na Califórnia, em um estado “integrado”, porém, em um período em que oficialmente ainda vigorava a segregação racial em vários estados dos Estados Unidos. Com sete anos, perdeu o pai, e passou a ser criada pela mãe e pela avó materna, fieis da Igreja Batista.

A história de vida de sua mãe, uma trabalhadora doméstica, foi a grande inspiração para a personagem de Dana, e permitiu a Butler criar uma poderosa metáfora a respeito de questões como injustiça, superação e resiliência. Em uma entrevista, Butler contou que, quando estava em idade pré-escolar, costumava acompanhar a mãe em seu trabalho, e naquelas circunstâncias presenciou inúmeras humilhações e momentos de indignidade sofridos pela mãe — tal qual Dana, que se viu colocada em uma situação de desumanização contra a sua vontade, assim como seus antepassados.

“Eu tive que vê-la [fingindo] não ouvir os insultos e tendo de entrar pela porta dos fundos [do serviço], e mesmo sendo uma criança pequena, eu percebia que isso era humilhante. Eu sabia que algo estava errado, que era algo desagradável, que era ruim. Eu me lembro de dizer a ela um pouco mais tarde, aos seis ou sete anos: ‘Eu nunca irei fazer o que você faz, o que você faz é terrível’. E ela apenas ficou com um olhar triste no rosto e não disse nada.

Eu acho que eram o olhar e a memória das indignidades que ela suportou. Eu acabei de me lembrar disso e gostaria de dizer que pessoas que passaram por tudo isso não eram covardes, não eram pessoas que simplesmente eram patéticas demais para se protegerem, mas sim heroínas, porque elas estavam utilizando tudo o que elas tinham para ajudar seus filhos a ir um pouco mais longe”.

São muitas as denúncias feitas em Kindred, de forma ácida e sagaz, como quando é abordada a relação entre Dana e seu marido, o também escritor Kevin, que é branco e que, em determinado momento da narrativa, acaba viajando no tempo com ela. A forma pela qual Kevin analisa a situação por vezes é revoltante; seus comentários soam totalmente fora da realidade, algo típico de alguém que não se dá conta dos seus privilégios.

“ — Esta época poderia ser ótima de se viver, disse Kevin certa vez. — Fico pensando que seria uma grande experiência permanecermos nela… irmos para o Oeste para vermos a construção do país, ver o quanto da mitologia do Velho Oeste é verdade. 

 — No oeste, digo com amargura, é onde fazem com os indígenas o que fazem aqui com os negros!” Kindred — Laços de sangue, p. 157.

Kindred
Eu sou uma feminista negra. Isso significa que eu reconheço que o meu poder, assim como as minhas opressões primárias, surgem como o resultado da minha negritude assim como da minha “mulheridade”, e que, portanto, minhas lutas em ambos esses fronts são inseparáveis. (Audre Lorde)

Embora se passe no sul dos Estados Unidos, a história de Dana e Rufus tem muito o que dizer a nós. Assim como nos Estados Unidos, a população negra no Brasil sofre inúmeras violações de direitos, dos mais variados tipos. Assim como lá, aqui há uma insistente e violenta negação dos horrores da escravização e de seus impactos sobre a vida daqueles e daquelas que descendem dos homens e mulheres escravizados naquele período.

Além da violência policial, do encarceramento massivo, da violência urbana e dos grandes índices de homicídio por arma de fogo a oprimir os jovens negros, há também a violência específica a atingir as mulheres negras, como a grande mortalidade decorrente dos feminicídios — em 10 anos, de 2003 a 2013, o número de mulheres brancas assassinadas diminuiu 9.8% , enquanto que o de mulheres negras aumentou 54.2%, de acordo com o Mapa da Violência de 2015. Do total de mortes, 83,5% foram em contexto de violência doméstica e familiar.

O racismo ainda é recorrente no ambiente de trabalho e nos processos de contratação; há imensa violência institucional no atendimento na área de saúde e também na (ausência de) implementação da Lei n.º 10.639/03, que determina a inclusão, no currículo oficial da rede de ensino pública e privada, da obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira;

A representação negra na mídia (jornalismo e publicidade) é exígua, assim como o número de pessoas negras em cargos de chefia e direção em universidades, empresas e outros espaços; o racismo religioso mostra ter recrudescido no país, com perseguição de fieis das religiões de matriz africana, destruição de templos e tentativas de impedir a realização de seus rituais pela via administrativa e jurídica.

Ao final da leitura de Kindred, que se torna ainda mais interessante por conta da belíssima edição da Editora Morro Branco, o único sentimento ”negativo” que aflora é o de se lamentar pela demora de quase 40 anos para que Kindred fosse lido, celebrado e objeto de reflexão por aqui. O aspecto positivo é saber que há inúmeros outros livros escritos por ela a serem desvendados — mas que ainda precisam ser publicados no Brasil. Que não demorem tanto.

Sugestão de leitura complementar:

  • Mulheres, raça e classe, de Angela Davis
  • Plantation memories, de Grada Kilomba
  • Sister Outsider, de Audre Lorde
  • In search of our mother’s garden, de Alice Walker
  • Black feminist thought, de Patrícia Hill Collins

KindredKindred – Laços de sangue

Autora: Octavia Butler

Editora Morro Branco

448 páginas

Ano: 2017

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