[LIVROS] Machamba: Conheça a obra de Gisele Mirabai, que venceu o 1ª prêmio Kindle de Literatura
[LIVROS] Machamba: Conheça a obra de Gisele Mirabai, que venceu o 1ª prêmio Kindle de Literatura

[LIVROS] Machamba: Conheça a obra de Gisele Mirabai, que venceu o 1ª prêmio Kindle de Literatura

A história de uma mulher que sai em viagem pelo mundo como forma de conhecer a si mesma e curar alguma dor não é um tema necessariamente novo na Literatura – pelo contrário, ela é recorrente, uma vez que a jornada rumo ao “eu interior” é a base de muitas narrativas. O diferencial de Machamba, da escritora mineira Gisele Mirabai, que por esta obra ganhou o 1.º Prêmio Kindle de Literatura, no ano passado, é a forma pela qual esta história é contada – uma narrativa poética e construída com afinco, por meio de uma narradora de poucas palavras, por vezes indelicada e de pouco trato social, que simboliza a história de vida de inúmeras mulheres.

Machamba é uma mulher jovem, da qual não se sabe o verdadeiro nome nem a idade. No início da obra, logo no primeiro capítulo, a leitora é apresentada a expressões como o Tempo Pequeno, Tempo Grande, Dia do Antes, Dia do Depois e Elo Perdido, assim como toma, pela primeira vez, conhecimento de nomes como Daniel, Luís, João e Joana. Machamba oferece pequenos vislumbres de um lugar amado, a fazenda onde nasceu e que simboliza uma espécie de paraíso.

É logo aí que a autora começa a prender a atenção de quem lê, ao soltar aos poucos, como pequenos spoilers, informações que, ao final da obra, se encaixarão a dezenas de outras pequenas informações, formando o grande quebra-cabeças que é sua protagonista.

Machamba

No segundo capítulo, Machamba está em Londres, onde trabalha como garçonete. Vive uma vida que a sinopse da obra na Amazon descreve como “promíscua” e “inconsciente”, ao mesmo tempo em que evita qualquer proximidade, com homens ou mulheres, no sentido afetivo. Enquanto sua vida londrina se desenrola, a vida em Fiandeiras, a fazenda da família, retorna em flashbacks. Os capítulos sobre a vida no interior de Minas Gerais são os mais interessantes e memoráveis, até porque eles são a chave para se compreender quem é Machamba.

Descobre-se, então, que algo de muito grave ocorreu naquele passado idílico, e que representará uma ruptura cruel e dolorosa na vida de todos os envolvidos. Enquanto tais flashbacks são apresentados a quem lê, como se a leitora estivesse dentro da cabeça de Machamba, a relembrar aos poucos uma tragédia ainda sem nome, a protagonista embarca em uma viagem pelas Antigas Civilizações, um tema que a fascinava quando criança, época em que lia sobre aqueles lugares na companhia do pai.

A relação entre voltar para o início da História, da humanidade e da cultura, e voltar também para o início de sua própria história, é um recurso interessante usado por Mirabai. Ao andar pelas ruínas da Grécia, da Turquia, Israel, Egito e Índia, Machamba desconstrói a própria história e força um encontro com aquilo que também ruiu dentro de si. É inevitável a pergunta: o que ocorreu de tão grave? O que de tão doloroso foi trazido por essa desconstrução da memória? Ao mesmo tempo em que a leitora busca entender e avançar na leitura para descobrir o que houve, pode vislumbrar as ruas e monumentos visitados por Machamba, os quais guardam certa conexão com alguns elementos visuais de sua própria casa da infância.

“O Dia do Antes aconteceu um infinito antes do Dia do Depois. No Dia do Antes, havia a fazenda e a piscina escura do rio com o sapo amarelo, havia os girinos agitados na beira d’água e as pancadas das grandes chuvas. Havia os porcos e o gramadão lá embaixo para os animais trotarem para as visitas, havia os pés de laranja, a cerâmica portuguesa, as gengivas dos cavalos que apareciam de repente com nacos de feno nos dentes. Havia João e Joana, e havia Daniel. 

Naquela época, o Cristo pregado na parede não fazia barulho. Estava de olhos baixos em meio aos quadros das africanas de turbantes coloridos, garimpados na feira hippie. Em silêncio. O Cristo parecia que não observava.

Mas as coisas iam acontecendo.

Ah, antes de mais nada: no Dia do Antes havia uma pota fechada e também uma menina batendo na porta do banheiro de azulejo laranja, gritando: eu sou virgem, pai!” – Machamba, página 8

Para quem gosta de uma narrativa não-linear, mas ainda assim sem muitas experimentações, “Machamba” não decepciona. Mesmo que a história se alterne entre passado e presente, tal divisão se dá em capítulos – um para a vida do agora, outro para a vida de antes, e assim por diante, delimitando com precisão os diferentes tempos narrativos. Embora seja uma narrativa que aposta em descrições – de cheiros, de paisagens, de sons-, os períodos curtos dão fluidez e não cansam.

Machamba

O livro de Mirabai, que é também roteirista de cinema e TV, atriz e pós-graduada em Literatura pela Universidade Federal Fluminense, despertou reações bem díspares entre leitores e leitoras. De fato, a obra alterna entre uma narrativa mais arrastada e não muito interessante – como o período em que Machamba está em Londres, principalmente quando há descrições das “aventuras sexuais” da protagonista, que parecem não dialogar com o resto de sua jornada nem com as memórias da infância, um tanto fora de contexto – e muitas cenas ricas em detalhes e sentimentos, que fazem a leitora ter um profunda conexão com a “anti-heroína”.

Os homens que passam pela vida de Machamba são desinteressantes, enfadonhos, presunçosos, o que por vezes nos faz querer que a leitura avance de uma vez, já que as cenas entre ela e seus pretendentes, embora cheias de descrições sexuais, se apresentam dispensáveis – talvez, a autora tenha construído tais personagens dessa forma de maneira proposital, como um meio de nos fazer refletir sobre como mulheres complexas estão muitas vezes rodeadas por homens sem brilho e totalmente esquecíveis.

Algumas situações vividas pela personagem também parecem um pouco insólitas e bastante inverossímeis (mesmo para uma pessoa com passaporte europeu, o que é o caso de Machamba, descendente de portugueses), como viajar pela Europa e Oriente Médio apenas com a roupa do corpo, um celular e um cartão de crédito. Por vezes, a imagem da moça como uma mulher moderna e desapegada de tudo, que passa grande parte do dia sem se comunicar com ninguém e independente ao extremo, parecem um tanto irreal para alguém que vive em grandes metrópoles, mas não chega a comprometer a qualidade do trabalho.

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Por outro lado, na maior parte do tempo, a narrativa se desenrola bem, gera curiosidade, é marcada por um trabalho delicado com as palavras e prende a atenção através de recursos como a repetição de sons, expressões e paisagens ao longo do texto que se amarram e geram um sentimento de empatia e de familiaridade em relação à protagonista e aos locais por onde ela passa, em especial, por sua casa de infância. A fazenda Fiandeiras, onde ela passa grande parte de sua infância e onde ocorre um episódio que irá destroçá-la, se torna um lugar acessível, íntimo de quem lê, com suas portas abertas para a piscina, seus sapos e cavalos.

O final, bem singelo e pouco retumbante, talvez deixe a desejar. A sensação é de que faltou algo, de que a história poderia se desenrolar um pouco mais. Dado o cuidado da autora com a trama e com a escolha das palavras, o final, muito repentino, gera uma sensação estranha de que algo se perdeu nos últimos instantes, de que o fôlego acabou um pouco antes. Ainda assim, vale a pena conferir o trabalho de Gisele Mirabai, uma autora premiada também por seus livros infanto-juvenis. E torcer para que aumente o número de mulheres finalistas e ganhadoras dos prêmios de literatura, aqui e no exterior.

Confira abaixo a entrevista com a autora:


MachambaMachamba

Autora: Gisele Mirabai

Editora Nova Fronteira

176 páginas

Ano: 2017

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