Belas Maldições: a inefável adaptação do final dos tempos

Belas Maldições: a inefável adaptação do final dos tempos

Belas Maldições” (em inglês, Good Omens), série adaptada do livro de mesmo nome escrito por Neil Gaiman (“Sandman“, “Coraline”) e Terry Pratchett (“Discworld”, “Os Pequenos Homens Livre” e “Um Chapéu Cheio de Céu”), chegou ao serviço de streaming da Amazon Prime Video em 31 de maio. Na trama, acompanhamos a amizade um tanto peculiar entre o anjo Aziraphale (Michael Sheen) e o demônio Crowley (David Tennant), os quais precisarão unir forças para impedir que o apocalipse aconteça.

[SEM SPOILERS]

O sonho de Terry Pratchett era ver a obra que escreveu em parceria com o amigo, Neil Gaiman, adaptada para a televisão. Infelizmente, Pratchett faleceu, em 2015, em decorrência de complicações no seu quadro de Alzheimer. Gaiman diz, em uma entrevista, que Good Omens é inteira dedicada a Terry, série esta que já é considerada uma das melhores de 2019. O afeto que o autor, e também showrunner, e o diretor da série, Douglas Mackinnon, inseriram em cada cena dos seis episódios de “Belas Maldições” com certeza deixariam Terry orgulhoso, assim como nós, espectadoras, ficamos.

Terry Pratchett e Neil Gaiman interpretando Aziraphale e Crowley como publicidade do livro (década de 90), respectivamente (Imagem: reprodução)

O começo do fim

Aziraphale e Crowley existem, desde o início dos tempos, como dois camaradas que, apesar das diferenças e das recorrentes discussões acerca da natureza de ambos – afinal, a última coisa que se espera de um anjo e um demônio é que nutram um laço de amizade -, concordam em enxergar que o mundo é um lugar repleto de aspectos bons a serem desfrutados. Aziraphale, um leitor voraz, possui uma loja de livros raros e antigos no centro de Londres; já Crowley não dispensa longas viagens na direção de seu Bentley, embalado pelas melhores canções do Queen.

O destino da Terra e de seus habitantes começa a preocupá-los quando, após Crowley ter trazido o Anticristo ao mundo onze atrás e feito com que vivesse em um lar humano, percebem que o fim do mundo está próximo e depende de Adam (Sam Taylor Buck), uma criança inteligente e aventureira, para acontecer em um dia de sábado, pouco tempos após a hora do chá; tanto ele quanto Aziraphale precisam correr contra o tempo para que o mundo, como tanto amam, dure por mais tempo.

Crowley e Aziraphale (Imagem: reprodução)

A dinâmica entre Crowley e Aziraphale é maravilhosa; isto ocorre pelo fato dos dois atores, Michael Sheen (“Frost/Nixon” e “Anjos da Noite”) e David Tennant (“Doctor Who”, “Jessica Jones“), possuírem uma química incrível e interpretarem de forma fiel os protagonistas do livro. Passagens históricas importantes e o comportamento humano decorrente delas são relatados de forma leve e cômica, porém contendo críticas veladas muito bem colocadas, tanto no livro quanto na série.

“Pode ajudar na compreensão das questões humanas ter a noção clara de que a maioria dos grandes triunfos e tragédias da história é provocada não porque as pessoas são fundamentalmente boas ou más, mas porque são fundamentalmente pessoas.” (GAIMAN, Neil; PRATCHETT, Terry. Belas Maldições – As Justas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa. Bertrand Brasil. 14ª. ed. 2017, pág. 33)

Outro aspecto interessante que aparece na série, ainda mais que no livro, é a relação que ambos os personagens possuem com seus locais de origem: céu e inferno são locais distinguíveis apenas pelo lócus nos quais anjos e demônios habitam. Enquanto Aziraphale e Crowley prezam pela vida humana, seus superiores querem que a guerra entre os dois lados aconteça e apenas um lado seja o vencedor para limpar a bagunça.

Jon Hamm interpreta um anjo Gabriel burocrata e vigilante, que a todo momento retorna para assombrar Aziraphale por um erro do passado e a consequente jornada que, obrigatoriamente, o anjo precisará enfrentar em poucos dias. Esta dicotomia de personalidades, explícita em mais de um momento na série, é um entre tantos pontos positivos na obra; ninguém é essencialmente ruim ou bom, muito menos sustenta a bondade ou a maldade eternamente – e tudo bem ser assim.

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Uma história, também, sobre bruxas!

Com o subtítulo “As Justas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa”, “Belas Maldições” nos apresenta brevemente a condição de milhares de mulheres durante a Inquisição e a recorrente perseguição por acusações de bruxaria. Na obra, Agnes Nutter (Josie Lawrence), de fato, fora uma bruxa que, no século 19, escrevera um livro de profecias para os séculos seguintes, incluindo a profecia sobre o fim do mundo. O livro caiu nas mãos de sua descendente, Anathema Device (Adria Arjona), que, ao longo da vida, fora preparada para decifrar cada uma das profecias e ajudar a impedir o apocalipse. Anathema é uma jovem muito inteligente e focada em seu propósito como ocultista e que, logo após se mudar para o chalé em que Agnes morava, faz amizade com Adam, seu vizinho, sem saber que ele é o Anticristo.

Anathema Device (Imagem: reprodução)

A série nos brinda com personagens femininas cujas construções são bem feitas, como as duas cavaleiras do apocalipse, Guerra (Mireille Enos) e Poluição (Lourdes Faberes), e a amiga de Adam, Pepper (Amma Ris), uma menina que questiona o sexismo presente no mundo e é dona de participações brilhantes ao longo dos episódios e também um convento de freiras satanistas (pois é!). Deus, aqui, na verdade é uma mulher, cuja voz é feita pela maravilhosa atriz Frances McDormand (“Três Anúncios Para Um Crime” e “Fargo”).

Apesar da importância das mulheres na série, infelizmente não as vemos interagindo e o tempo em cena de cada uma, se comparado ao dos homens, é pequeno.

As representatividades étnicas e LGBTQ+ em Belas Maldições

A começar pela representação de Adão (Anthony Kaye) e Eva (Schelaine Bennett) por um casal negro, “Belas Maldições” também apresenta cuidado ao escolher um cast diverso. Mais personagens de destaque negros aparecem ao longo da trama, assim como indianos e russos, uma grande importância dada por Neil Gaiman também em sua outra série, American Gods. Há a breve aparição de coadjuvantes LGBTQ+ em um certo momento e isto nos faz refletir sobre o relacionamento de Aziraphale e Crowley, algo que, com a aproximação da estreia da série, levantou discussões nas redes sociais. 

Belas Maldições
Cena de “Belas Maldições” (GIF: reprodução/Amazon Prime Video)

É notável, tanto ao longo do livro quanto da série, que os dois demonstram preocupação e carinho um pelo outro nos mínimos detalhes, e também, tanto no livro quanto na série, por mais de uma vez a relação dos dois é citada por outros personagens como sendo homoafetiva. Questionado no Twitter sobre o fato, Neil Gaiman não deixou explícito que os dois são um casal, mas disse achar válida esta leitura por parte dos fãs. Para tanto, deixemos que nossa imaginação flua e aproveite o que os dois têm de melhor: uma relação envolta por amor, cumplicidade e respeito.

A nostalgia e o primor das produções da BBC

Belas Maldições” e seu humor tipicamente britânico é indicada para os fãs de “Monty Python” e dos livros de Douglas Adams, por abordar assuntos pertinentes ao mundo contemporânea de forma muito inteligente e cômica. O livro foi fielmente adaptado e inclui muitos diálogos memoráveis escritos por Gaiman e Pratchett; a parte técnica da série, bem como a ambientação dada por muitos lugares da Inglaterra, nos remetem às outras grandes obras da BBC, como “Doctor Who” (inclusive, há momentos em que a série é relembrada através de falas de alguns personagens, bem como na presença do próprio Tennant, um dos mais queridos Doctors que a série possuiu) e “Sherlock“.

A fotografia e trilha sonora enchem os olhos de espectadoras e espectadores com uma qualidade sem igual. Graças aos cuidados da produção, a série também conta com um elenco grandioso, como Benedict Cumberbatch fazendo a voz de Satã, Bill Paterson como Tadfield Neighbourhood Watch, Brian Cox como a Morte e Michael McKean como Shadwell.

A belíssima trilha sonora ficou por conta de David Arnold. No Brasil, a Amazon Prime convidou o cantor e compositor Emicida para cantar sobre o Juízo Final e nossos problemas sociais na música “Final dos Tempos”:

Já Gaiman convidou a amiga Tori Amos para gravar um cover da canção “A Nightingale Sang In Berkeley Square”, originalmente interpretada pela artista Vera Lynn.

Desta forma, “Belas Maldições” precisa ser vista por novos ou antigos fãs de Gaiman e Pratchett ou por quem está em busca de um entretenimento leve e engraçado, apesar da premissa. Afinal, nas mãos dos dois autores, o apocalipse tem tudo para ser divertido (e é!).


Belas Maldições

Autores: Terry Pratchett e Neil Gaiman

364 páginas

Editora Bertrand / Editora Record

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Edição realizada por Gabriela Prado.

Escrito por:

86 Textos

É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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