Mulheres na Comédia: Ellen DeGeneres

Mulheres na Comédia: Ellen DeGeneres

Ellen DeGeneres é uma das mais populares comediantes da atualidade. Sua carreira deslanchou nas últimas décadas através da dublagem de Dory de “Procurando Nemo”, uma das personagens mais querida dos desenhos animado, e do seu talk show The Ellen DeGeneres Show. Além de apresentadora, ela também é atriz, escritora e produtora. Em 2019, seu patrimônio líquido foi estimado em $450 milhões. Mas nem sempre a indústria foi tão generosa assim com DeGeneres.

Por trás do sucesso e riqueza agora admirado por milhões de pessoas no mundo inteiro, existe uma trajetória de enfrentamento inspiradora. Nascida em Metairie, Louisiana, um subúrbio de Nova Orleans, Ellen é filha de Betty DeGeneres e Elliott Everett DeGeneres. Quando tinha dezesseis anos seus pais se divorciaram, e ela se mudou com sua mãe para Atlanta no Texas. A comediante lembra de usar a comédia para ajudar sua mãe a sair da depressão durante o período doloroso do divórcio.

“Minha mãe estava passando por momentos realmente difíceis e eu podia ver quando ela estava realmente caindo no chão, e eu começava a tirar sarro dela dançando“, DeGeneres lembra. “Então ela começava a rir e eu zombava do seu rindo. Ela ria tanto que começava a chorar, e então eu zombava disso. Então eu a tirava da depressão.” Ellen viveu em Atlanta até o término do ensino médio, quando decidiu retornar a Louisiana para estudar comunicação na Universidade de Nova Orleans.

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Os primeiros anos de Ellen DeGeneres na comédia

A entrada no ramo da comédia não foi tão rápida para Ellen como se poderia imaginar. Ela não tinha inclinação para a educação tradicional e largou a universidade após um semestre. Depois disso, trabalhou em diversos empregos. Foi garçonete, secretária, pintora de casas e até vendeu aspiradores de pó de porta em porta. Seu talento foi descoberto numa situação constrangedora; quando precisou falar em público em um evento e acabou utilizando humor para conseguir superar o medo do palco. Sua performance foi um sucesso e lhe rendeu convites para fazer stand-up.

Ellen DeGeneres em seu stand-up durante os anos 90
Ellen em seu stand-up durante os anos 90. (Imagem: reprodução)

Ellen começou se apresentando em pequenos clubes e cafeterias até se tornar mestre de cerimônias no Clyde’s Comedy Club, em 1981, o único clube de comédia de Nova Orleans na época. Iniciou um tour pelos estados norte-americanos, e conquistou admiradores com seu timing cômico e sua esperteza. Em 1982, submeteu sua rotina a uma competição organizada pelo canal de TV Showtime e ganhou o título de “Pessoa Mais Engraçada da América”, o que lhe trouxe mais oportunidades na TV.

Sua grande estreia na televisão aconteceu em 1986. Recomendada pelo também comediante Jay Leno, ela foi convidada a performar em um dos maiores programas de TV da época: The Tonight Show Starring Johnny Carson. Ellen foi a única mulher comediante a ser convidada a sentar no famoso “sofá” de Carson. Posteriormente, conseguiu papéis em shows curtos como Open House e Laurie Hill, até finalmente emplacar seu próprio show “Ellen” em 1994.

Ellen “sai do armário” e faz história

Em 1997, a comediante fez história ao fazer sua personagem do seriado de sucesso se assumir como lésbica e se tornar a primeira protagonista gay de uma sitcom na história da televisão norte-americana. Enquanto isso, na vida real, Ellen também assumia sua sexualidade perante o mundo. Ela foi capa da revista Time que trazia em grandes letras vermelhas os dizeres: “Sim, Eu Sou Gay”.

Infelizmente, após Ellen e sua personagem se assumirem, a audiência do seriado começou a cair e patrocinadores começaram a se retirar, fazendo com o que o show fosse cancelado na temporada seguinte.

time gay
Capa da revista Time, onde Ellen fala abertamente sobre sua sexualidade. (Imagem: reprodução)

Recentemente, em entrevista a David Letterman, Ellen relembrou do momento com orgulho. “Chegou o ponto em que finalmente percebi que era mais importante parar de me odiar, de sentir vergonha de quem eu era e arriscar tudo. E quando eu fiz, eu senti que mesmo tendo perdido tudo por um tempo, eu pensei: ‘essa foi a decisão certa”.

Sobre perder tudo, Ellen afirma que após se assumir, ninguém lhe contratou ou trabalhou com ela. Durante três anos, amargou o ostracismo apenas por assumir algo sobre si mesma, que a maioria das pessoas já suspeitavam mas preferiam ignorar. No entanto, sua sorte começou a mudar nos anos 2000, quando as oportunidades voltaram a aparecer.

O abuso sexual

Também na entrevista com Letterman, Ellen pela primeira vez entrou em detalhes sobre o caso do abuso de abuso sexual que sofreu quando tinha dezesseis anos. Ela contou que seu ex-padrasto, se aproveitou da situação de sua mãe, então acometida de câncer de mama para assediá-la.

Quando sua mãe estava fora da cidade, ele a atacou, alegando que precisava sentir seus seios para verificar se havia algum caroço. “Ele me convenceu de que precisava sentir meus seios, e depois tentou fazê-lo novamente, e outra vez. Depois, outra vez, ele tentou arrombar minha porta e eu chutei a janela e corri porque sabia que ele queria algo mais”.

Na ocasião, Ellen não contou o episódio a sua mãe com medo de chateá-la, decisão pela qual ela se arrepende. “Eu nunca deveria tê-la protegido“, desabafou. “Eu deveria ter protegido a mim mesma, não contei a ela por alguns anos e quando contei, ela não acreditou em mim e ficou com ele por mais 18 anos“. A apresentadora afirmou esperar que o relato da sua experiência possa ajudar outras garotas que passaram ou passam por situações similares ao redor do mundo.

Ellen DeGeneres e Barack Obama
Barack Obama condecora Ellen com Medalha da Liberdade. (Fotografia: Nicholas Kamm/reprodução)

Novamente, Ellen DeGeneres utilizou de sua posição privilegiada para jogar luz sobre um assunto inconveniente para a sociedade, sendo que poucos artistas com um alcance de público possui audácia para tomar atitudes que incomodam, mas repercutem positivamente na sociedade a longo prazo.

Em 2016, Ellen foi condecorada com a Medalha da Liberdade, maior prêmio de honra civil dos Estados Unidos, pelo então presidente Barack Obama. Obama confessou ficar emocionado durante a cerimônia e elogiou a coragem de Ellen cujo ato não apenas ajudou a comunidade LGBTQ+, mas contribuiu para empurrar os EUA em direção da justiça.


Edição realizada por Isabelle Simões.

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