Phoebe Waller-Bridge: one woman show

Phoebe Waller-Bridge: one woman show

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Difícil se manter imune ao burburinho causado desde que a escritora, produtora e atriz Phoebe Waller-Bridge surgiu no mainstream há pouco mais de três anos e que ainda promete protagonizar muitos momentos da próxima cerimônia dos Emmys com indicações importantes para suas duas séries “Fleabag” e “Killing Eve“. Além de tudo isso, ela interpretou o papel do épico robô L3-37 na saga “Star Warse foi chamada pelo próprio James Bond (Daniel Craig) para dar uma ajuda em um roteiro enrolado do próximo filme da franquia. Mas o que ela tem feito de tão diferente assim para atrair toda essa atenção?

Onde ficam as barreiras entre o drama e a comédia?

Aquela coisa de não saber se é para rir ou para chorar, parece ser o que há de mais acurado para as notícias que recebemos todos os dias, fora todos os dramas particulares de cada um. A vida é complexa, assim como as emoções, e esse paradoxo não é algo novo. A tragédia tem sido estudada desde os tempos mais remotos no classicismo grego de Sófocles, Eurípedes e Ésquilo. Segundo Aristóteles, os clássicos têm o poder de gerar catarse, porque os personagens são imitações que representam valores da nossa sociedade, o que há de melhor e pior nas pessoas. 

E então uma mulher jovem de família privilegiada de Londres resolve criar, praticamente ao mesmo tempo, uma série dramática e uma série de comédia – e ambas explodem -, sucesso provado pela quantidade de indicações aos próximos Emmys que vai acontecer no dia 22 de setembro, no Microsoft Theatre de Los Ángeles, na entrega de sua 71ª edição, além das vitórias já colhidas esse ano no BAFTA, o Oscar britânico. Fica cada vez mais difícil manter-se imune à Phoebe Waller-Bridge, nossa “one woman show”, que foi exatamente o tema de um conjunto de monólogos em que se inscreveu no Festival de Edimburgo em 2013 e que depois se tornaria a série “Fleabag“. 

Phoebe Waller-Bridge
Phoebe Waller-Bridge (Imagem: divulgação)

Uma amizade que tornou tudo possível

Por boa parte de seus 20 anos, Phoebe viveu como uma atriz fracassada. Formada na Royal Academy of Dramatic Art London, uma das faculdade de drama mais renomadas do mundo, Phoebe foi taxada como uma atriz medíocre por não ter aquele tipo de atuação visceral com lágrimas explodindo de seu rosto. Quando saiu de lá em busca de trabalho, recebeu todos os nãos possíveis até conhecer a diretora e escritora Vicky Jones e decidirem criar sua própria companhia de teatro, a Dry Write.

Em entrevista para o jornal The Guardian, em 2017, Vicky comentou como ela e Phoebe foram realmente inspiradas pela amizade que construíram, onde elas poderiam dizer qualquer coisa uma para outra. Ela não saberia dizer se foi realmente algo intencional, mas que era exatamente isso que as duas pretendiam criar para o teatro: mulheres que pudessem discutir qualquer coisa sem serem censuradas. Foi desse encontro que surgiu o monólogo de “Fleabag”, escrito por Phoebe e dirigido por Vicky. Desde então, as amigas e sócias seguem com parcerias desde a série homônima e “Killing Eve”, da BBC, lançada em 2018 e baseada no livro de Luke Jennings, “Killing Eve: no tomorrow”.

Phoebe Waller-Bridge e Vicky Jones
Phoebe e Vicky (Imagem: divulgação)

A comédia para ampliar a ideia do que é ser mulher

É importante enfatizar o peso que o humor tem na formação do nosso caráter como sociedade, revertendo dogmas e trazendo profundidade a discussões sobre as injustiças e ironias de nossa convivência. Quando a comédia é bem construída, ela pode balançar os enrijecidos pilares do status quo da nossa sociedade patriarcal e faz pouco tempo que esse papel engraçado feminino tem mudado; tivemos o comportamento transgressor da personagem Samantha (Kim Cattrall), de “Sex and the City”, no final dos anos 90, escritas ainda por Darren Star, um homem, mas que já rompiam um pouco com o que era ser uma “mulher engraçada”. 

No início dos anos 2000, chegaram como um presente divino outra dupla poderosa, Tina Fey e Amy Poehler, executivas de alto escalão na TV americana e também roteiristas e atrizes que souberam reverter esse humor masculino tão cansado. Logo veio a Amy Schumer, que é um pouco controversa no cenário feminista, assim como sua amiga Lena Dunham, de “Girls”. Todas elas vêm chacoalhando um pouco o que é entendido sobre “ser mulher”, como podemos apreciar na sketch “The Last fuckable day”, que foi ao ar no programa “Inside Amy Schumer” e contou com a participação da já citada Tina Fey, a também eterna Elaine de “Seinfeld”, Julia Louis-Dreyfus, e Patricia Arquette, mas ainda ousamos dizer que “Fleabag” e “Killing Eve” são ainda melhores que tudo que já foi feito até agora.

Phoebe Waller-Bridge em Fleabag
Cena da 2 temporada de “Fleabag”. (Imagem: divulgação)
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Gargalhadas que dão poder

Em “Mulheres que correm com lobos”, escrito pela Drª Clarissa Pinkola Estés, que é contadora de histórias, analista junguiana e viajou o mundo por 20 anos antes de terminar o livro, há um capítulo que aborda o conto da deusa grega “Baubo”. A deusa possui uma gargalhada que teria o poder de expulsar os demônios e trazer a coragem necessária para realizar feitos tidos como impossíveis. Nele, a Drª Clarissa traz o olhar do arquétipo feminino falando sobre a experiência de mulheres reunirem-se para falar “baixarias”, coisas que não são bem vistas para serem ditas, assuntos relacionados a sexo com linguagem vulgar. Esse riso solto que só as mulheres tiram uma das outras, segundo a autora, é uma forma muito poderosa de libertação do ego, um acesso à consciência selvagem que a civilização precisa manter contida e comportada, e segundo o que a própria Phoebe disse em uma entrevista pós Bafta, “a risada é o caminho mais rápido até o coração de uma pessoa“.

Phoebe Waller-Bridge
Phoebe Waller-Bridge (Imagem: divulgação)

Phoebe brinca com as barreiras que separam a comédia do drama, como quando constrói esses arcos e relações envolvidos em todo esse deboche, e é capaz de criar uma experiência dramática profunda, como um beat. Ela reverte o jogo do drama com doses de humor para trazer uma nova fórmula de comédia com doses de drama, como beats dramáticos, o que demonstra um talento e conhecimento social muito profundos. E dessa mente surgem “Killing Eve”, um drama muito engraçado, e “Fleabag”, uma comédia muito dramática.

Todos os prêmios passam por Phoebe Waller-Bridge no Emmy

A direção de elenco é crucial para chamar a atenção de premiações, mas nesse caso, os diálogos e cenas escritos por Phoebe são realmente generosos com seus personagens, pois “Fleabag” e “Killing Eve” são prova disso. Com indicações duplas para Melhores Atrizes de Série Dramática, temos o duo de “Killing Eve”, a própria Eve (Sandra Oh) e sua antagonista Villanelle (Jodie Comer).

Já na categoria Coadjuvantes em Série de Comédia, temos a irmã de Fleabag, Claire (Sian Clifford), e a madrasta má (Olivia Colman), fantástica e já ganhadora do Oscar por seu papel como a rainha Mary em “A Favorita”. Isso sem contar as indicações de Roteiro Dramático do episódio “Nice and Neat” para Emerald Fennel, Direção do Episódio de “Desperate times” para Lisa Brühlman – ambos de “Killing Eve” -, além da melhor Direção de Comédia em “Fleabag” para Harry Bradbeer e coroada com mais uma indicação de Roteiro para Comédia, além de Melhor Atriz para Phoebe Waller-Bridge.

Phoebe Waller-Bridge, Sandra Oh e Jodie Comer
Phoebe Waller-Bridge, Sandra Oh e Jodie Comer (Imagem: divulgação)

Contudo, a parceria de Phoebe Waller-Bridge e Vicky Jones está apenas começando a esquentar. Segundo o site Deadline, foi dado o sinal verde para a série “Run”, na HBO, que será estrelada por Merrit Weber (“Godless” e “Nurse Jackie”) e Domhnall Gleeson (“Black Mirror” e “Ex-Machina”), sobre uma mulher que vive uma vida monótona até receber uma mensagem de seu ex-namorado de muitos anos atrás para que comecem a cumprir uma promessa antiga de deixar tudo para trás e fugir.

No mesmo artigo do The Guardian, ao ser perguntada se toda a fama de Phoebe mudou a relação delas, Vicky Jones responde que realmente nada mudou e que desde a primeira vez que elas se conheceram ela já sabia que Phoebe seria uma estrela. Que venham mais empreendimentos dessa dupla talentosa e que sigam revertendo todos os padrões!


Edição realizada por Gabriela Prado.


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Jacu metropolitana com mente abstrata, salva da realidade pelas ficções. Formada em comunicação social, publicitária em atividade e estudante de Filosofia. Mais de trinta anos sem nunca deixar comida no prato.
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