A maternidade retratada em “Sex and the City”

A maternidade retratada em “Sex and the City”

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Foi preciso tirar Charlotte de Nova York, a fazer voar até o Oriente Médio e ingerir muito álcool para ela confessar que ser mãe a cansa, a deixa exausta, é difícil e lhe dá sempre o sentimento de quem está fracassando; um momento de alívio para as mães da vida real, para todas respirarem aliviadas graças à realidade da maternidade retratada em “Sex and the City“, da HBO.

O desabafo vem logo de Charlotte (Kristin Davis), a defensora de que seu conto de fadas só seria completo com filhos e que, ao descobrir que seu corpo só lhe dava 50% de chances de engravidar, tentou todas as dicas e tratamentos que lhe contaram, incluindo um doutor que tornava a gravidez possível até mesmo para mulheres de 58 anos, apenas inserindo agulhas em seus rostos e falando para as pacientes esquecerem todo barulho da cidade durante o procedimento que, obviamente, não deu a Charlotte um bebê.

Sex and the City
Charlotte em “Sex and the City” (Imagem: divulgação)

Após as diversas tentativas frustradas de engravidar, um casamento aborrecedor com um marido que não a satisfazia sexualmente e que a deu um bebê de papelão como piada pelo fato dela não conseguir engravidar, Charlotte finalmente conhece Harry Goldenblatt (Evan Handler), seu príncipe careca, baixinho, gordinho e muito encantado, que apresentou a adoção ao mundo de tentante de Charlotte, o que agraciou o casal com uma menina.

A mãe não materna

Miranda e sua família
Miranda e sua família em “Sex and the City” (Imagem: divulgação)

E se o casamento e uma família estruturada era o sonho da clássica Charlotte, ele passava longe da moderna Miranda (Cynthia Nixon), que sempre demonstrou mais amor por si e por sua carreira do que por qualquer homem com quem se relacionou ao longo da série e do filme. Por ironia do destino (ou só construção do roteiro mesmo), é a desapegada Miranda que se torna a primeira mãe do grupo de quatro amigas.

A personagem dela enquanto mãe é um retrato raro. Aversa a todo clichê da maternidade, Miranda sequer se sente animada quando a enfermeira conta a ela o sexo de seu filho durante o ultrassom. Ela também resiste até o último para fazer um chá de bebê, realizado pela alma materna e sonhadora de Charlotte – mas sem muita cara de um chá de bebê, conforme exigiu Miranda, que escolheu o convite com a arte de cegonhas fumando.

Ser mãe no mercado de trabalho

Sex and the City
Charlotte e Miranda em “Sex in the City”(Imagem: divulgação)

No decorrer dos episódios da 4ª temporada (na qual Miranda descobre a gravidez), fica claro que essa rejeição à gestação e aos clichês de ser mãe, de fato, fazem parte da personalidade da personagem, mas também são uma armadura. Em seu trabalho, ela mantém segredo até onde consegue sobre ser a nova futura mamãe, tudo pelo medo de ser uma advogada menos respeitada, de perder seus casos e de ser considerada incapaz por estar grávida.

Até que Brady nasce. O desempenho da advogada Hobbes realmente começa a cair. As noites de sono interrompidas por choros, para amamentação ou simplesmente para ver se seu filho estava bem, refletem em atrasos constantes, sonecas tiradas em cima de ofícios na sua mesa, demora para realizar entregas e puxões de orelha de homens (presença predominante no escritório) que jamais teriam a empatia de se colocar no lugar de Miranda e entender que sua vida havia passado por uma mudança drástica.

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Em uma das diversas falas que Miranda prova sua força, uma delas é referente à sua gravidez e seu trabalho. Ao confrontar seu chefe, ela diz com segurança e em tom de autoridade que estava abaixando sua carga horária pelo fato de seu filho não ser um problema que desapareceria em pouco tempo e finaliza “espero que lembre-se de que quando minha mãe morreu, eu estava no escritório trabalhando pela manhã do outro dia”.

Vamos falar sobre aborto… em 2001?

Sex and the City
Samantha e Carrie em “Sex and the City” (Imagem: divulgação)

Não podemos confundir o fato de Miranda ser uma mãe atípica – que não está sempre babando em cima de seu filho, que não larga o mundo para viver como mãe, como fez Charlotte – com o fato dela ser uma mãe que rejeita seu filho. Isso porque o aborto era uma opção para ela e chegou a ser cogitado assim que soube da gravidez – aliás, há um momento revolucionário de SATC, em que Samantha (Kim Cattrall) e Carrie (Sarah Jessica Parker) confortam a amiga dizendo que já haviam feito um aborto, então seria natural se ela fizesse também.

Carrie Bradshaw e sua escolha de não ser mãe

Carrie Bradshaw
Carrie Bradshaw (Imagem: divulgação)

A maternidade retratada em “Sex and the City” coloca em pauta também as personagens que não querem e não tem filhos: Carrie e Samantha. Antes mesmo da protagonista e referência em colunas de sexo casar-se com Mr. Big (Chris Noth) e optar por manter sua relação sem crianças, Carrie já era criticada por ser uma trintona sem filhos e vivendo uma vida de comprar sapatos de 400 dólares em vez de fraldas.

No episódio “Pelo direito de comprar sapatos”, Carrie vai para festa de uma colega com filhos que a obrigada a tirar seu par de Manolos na entrada (a justificativa era que os sapatos são sujos e as crianças brincam no chão). É então que Carrie tem seus sapatos roubados. Ao confrontar a amiga, Bradshaw escuta que sua reclamação é fútil e sua vida de gastos exuberantes não é real, como a vida dela de mãe. Carrie resiste e escreve um belo cartão à amiga mais tarde, exigindo o reembolso de seus Manolos e informando que, sim, não se casou e teve filhos, mas vive uma ótima relação com si mesma.

Samantha Jones e sua escolha de não ser mãe

Samantha Jones
Samantha Jones (Imagem: divulgação)

A livre, leve e solta Samantha recebe críticas por sua escolha por não ter filhos em um dos momentos mais sensíveis de sua história: durante o tratamento de câncer da personagem na última temporada. Na luta por um médico que pudesse atendê-la, a RP escuta de um doutor que seu câncer talvez seja o resultado da vida que ela escolheu levar: sem filhos. De fato, pesquisas provam que mulheres sem filhos têm mais chances de desenvolverem câncer de mama, mas o tom que lhe é dito culpabiliza e desestabiliza a personagem que, em um dos raros momentos, se encontra vulnerável e precisando de apoio.

A maternidade retratada em “Sex and the City” aborda diversas vertentes e perfis. As que sonham em ter filhos, as que são obcecadas e neuróticas com a criação de suas crianças, até as que têm força de assumir que não precisam ser mães corujas e superprotetoras para serem boas mães e as que optam por simplesmente não serem mães; juntas, todas essas personagens do seriado, que teve início lá em 1998 e encerrou com um filme em 2010, mostram que, independente da sua escolha de ser mãe ou não, a sociedade irá te julgar.

Autora convidada: Elizabet Letielas é uma jornalista que tenta levar a vida da Carrie Bradshaw, só que com roupas de brechó pechinchadas, suco natural ao invés de Cosmopolitan e sem a Vogue, Nova York e cigarros. E menos chatinha, ela jura.

Edição realizada por Gabriela Prado.


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