Você não precisa procurar muito: basta digitar “mangá” ou “anime” no seu navegador. Em poucos segundos, encontrará inúmeros sites dedicados ao tema — alguns com uma aba reservada ao hentai, os famosos desenhos eróticos japoneses.
Caso digite a palavra hentai diretamente, prepare-se: uma enxurrada de conteúdo pornográfico vai surgir. Alguns títulos são genéricos, outros exploram os fetiches mais bizarros, misturando humor, ação e erotismo.
Pornografia e cultura: um problema antigo
A pornografia existe há séculos, muito antes de mim e de você. Criticar toda a indústria está fora do meu propósito aqui.
No entanto, ao pesquisar sobre como o Japão retrata suas mulheres nos mangás e animes, deparei-me com algo ainda mais grave do que corpos desproporcionais e personagens femininas vazias: a romantização do estupro.
Entre tentáculos alienígenas e meninas que mal atingiram a puberdade, há uma categoria inteira dedicada a ele.
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A contradição da censura japonesa
Apesar de o Japão ter censurado a exibição de órgãos sexuais em imagens e vídeos desde 1907, há milhares de produções disponíveis na internet. Em muitas, a “censura” se limita a uma tarja preta ou um mosaico embaçado — meros enfeites que não alteram em nada o conteúdo.
A indústria do hentai movimenta bilhões de dólares. E, como qualquer outro setor econômico, tem influência política.
Em 2014, o governo japonês aprovou uma lei que criminaliza a posse de pornografia infantil, mas excluiu os mangás e animes adultos da regulamentação — sob a justificativa de que não envolvem crianças reais. E até agora (2025) não há regulamentação.
O pedido ignorado da ONU e a questão da idade legal
Em 2015, a ONU pediu ao governo japonês que proibisse produções que sexualizem crianças. Mesmo assim, estima-se que cerca de 90% dos hentais retratem garotas em idade escolar (12 a 17 anos).
A maioridade sexual no Japão era de apenas 13 anos — um número que, para muitos, beira o absurdo. Mas foi anunciada uma elevação para 16 anos em 2023.Um homem pode ser preso por fotografar uma menina e divulgar as imagens, mas não por manter relações com ela. Contradições que desafiam qualquer lógica.
Em 2010, a Assembleia Metropolitana de Tóquio aprovou uma lei que restringe a venda de mangás, animes e games com conteúdo pornográfico, incestuoso ou violento para menores de 18 anos. No entanto, a regra se aplica apenas à capital — e não abrange o restante do país.
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Enquanto isso, o debate segue dividido entre dois extremos:
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Artistas e editoras defendem a liberdade de expressão;
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Críticos apontam a apologia à violência e ao abuso sexual.
É fato que a pornografia, em diferentes contextos, faz parte do processo de descoberta sexual de muitos jovens. Porém, o que acontece quando o conteúdo ensina que a violência é excitante?
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O perigo do “estupro consentido”
Nos fóruns, é comum ver fãs justificando o tema para o conceito de “estupro consentido” — onde a mulher diz não, mas “o corpo diz sim”. Essa ideia, além de absurda, reforça uma visão perigosa sobre o consentimento e o papel da mulher.
“Não” significa “não” — em qualquer idioma. Em português, em japonês ou em árabe.
O hentai já ultrapassou as fronteiras do Japão. Hoje, é consumido no mundo inteiro, especialmente por jovens que cresceram assistindo animes. O problema, portanto, não é apenas japonês — é global.
Mas até que ponto a liberdade artística pode justificar um conteúdo que naturaliza a violência sexual?
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O Japão é frequentemente visto como um país civilizado, moderno e exemplar. Mas como conciliar essa imagem com a produção em massa de conteúdo pornográfico que erotiza o estupro?
As estatísticas oficiais sobre violência sexual e doméstica são pouco divulgadas, o que dificulta compreender a real dimensão do problema. Ainda assim, é impossível ignorar que a arte, nesse caso, reflete — e alimenta — um sintoma social preocupante.
O papel do público e a responsabilidade coletiva
Se a indústria não se autorregula e o governo não impõe limites, resta aos consumidores questionar e repensar o que consomem. A internet democratizou o acesso a tudo — inclusive ao que há de mais perturbador.
Ignorar o problema não o fará desaparecer.
Adorar mangás e animes não é o problema. O problema está em fechar os olhos para o conteúdo que normaliza crimes e disfarça violência como fantasia. Enquanto houver lucro e demanda, o hentai continuará a explorar a dor e a violência como entretenimento.
Nenhum aspecto artístico ou cultural justifica o estupro — real ou desenhado. Retratar a violência como erotismo é perpetuar um ciclo de desumanização.
Que esse texto sirva, ao menos, como ponto de reflexão. Agora o que me resta é apagar o histórico perturbador da minha pesquisa e esperar.
Aviso: Texto atualizado em 11/11/2025




