Tomie: a narrativa da monstruosidade feminina e a descentralização do homem

Tomie: a narrativa da monstruosidade feminina e a descentralização do homem

A série de mangás denominada Tomie foi o primeiro trabalho do mangaká Junji Ito, publicada no Japão entre os anos de 1987 a 2000. Em suma, são mais de 700 páginas de contos de terror variados que giram em torno da personagem principal, Tomie. Muitas vezes vista como uma “entidade maligna”, a princípio o mangá não deixa claro de onde ela vem ou qual o seu propósito, só se sabe que ela é imortal e todos os homens querem acabar com ela.

Mas o que significa essa violência que a mera presença da protagonista costuma provocar exclusivamente nos homens?

Já nos primeiros capítulos, após a primeira morte trágica – e gráfica – da personagem, vemos Tomie “ressuscitar” como uma força da natureza, indo atrás de vingança sob cada uma das pessoas envolvidas em seu brutal assassinato, como sua própria personificação do karma. Da forma como a história é narrada, é difícil não se compadecer pela adolescente, que, levada a ter um caso com seu próprio professor por meio de táticas de grooming¹, é morta por seu namorado em uma excursão da escola quando ele descobre a traição.

Tomie no mangá de Junji Ito
Tomie no mangá de Junji Ito | reprodução
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Visto apenas como um “acidente de amor”, a turma inteira faz um pacto de silêncio e, liderados pelo professor, cortam e escondem as partes do corpo de Tomie para acobertarem o colega. A grande maioria concorda sem pestanejar, com comentários do tipo “Ela merecia morrer. Garota cruel…”

Dessa forma, ao apelar para o lado obscuro da humanidade, o mangá de Junji Ito traz à luz uma problemática de gênero e transforma-se em um reflexo das raízes do machismo na sociedade.

Este não é um texto fácil, assim como viver constantemente à mercê desses tipos de agressões também não é. Mais do que uma história sobre fantasmas ou seres imortais, o mangá usa do choque e de metáforas hiperbólicas para falar e conscientizar sobre situações reais. Feminicídio, pedofilia, sexualização e relacionamentos abusivos são temas recorrentes, assim como Tomie não é apenas uma, mas a representação de várias mulheres. O sobrenatural pode até não ser real, mas o nível de obsessão retratado que leva a uma violência doméstica/de gênero, com certeza é.

“Não há nada mais forte do que uma mulher machucada que reconstruiu a si mesma”

A frase é da comediante Hannah Gadsby em seu especial Nanette, no qual compartilha suas dificuldades e história de vida como uma mulher lésbica desfeminilizada, mas que também cai bem aqui.

Tomie, ao chegar na escola após sua morte no dia anterior, a reação dos homens passa do susto para a imediata sexualização da personagem. “Para um fantasma, até que ela tem [boas] pernas”, diz um personagem secundário. Talvez essa história se assemelhe um pouco a outra, que veio anos depois, em 2018, pela Netflix, a série tailandesa “Garota de Fora”. Nesta, a agente do karma é a protagonista Nanno, que lembra Tomie não só na aparência, mas na personalidade.

Série tailandesa "Garota de Fora"
Cena da série tailandesa “Garota de Fora”, disponível na Netflix | reprodução

Ambas são vistas como causadoras do caos, mas, na verdade, apenas dão as ferramentas para que as pessoas possam realizar seus desejos internos sórdidos, expondo quem eles realmente são. Não se sabe se os criadores da série utilizaram de casos reais de exploração sexual e bullying para compor seus episódios, mas, assim como em Tomie, infelizmente é fácil encontrar histórias reais bem parecidas.

Se as histórias de Nanno e Tomie são sobre karma, vingança ou justiça, vai da interpretação de cada um, a única coisa certa é que em seus universos ninguém sai impune.

Tomie e a construção da monstruosidade feminina

A monstruosidade feminina é um tópico desde os tempos de Lilith, que foi expulsa do paraíso antes de Eva por se opor ao conjunto de regras divinas e o sistema no qual estavam inseridas, sendo vista por muitos hoje como uma espécie de “demônio”. Assim, em um contexto histórico, mulheres que pensam por si próprias ou que são seguras de sua sexualidade, ou seja, que esbocem o mínimo traço de independência são percebidas como desvirtuadas, mulheres-monstro.

No Japão mesmo, onde a história se passa, há diversas lendas e mitos de mulheres consideradas “desequilibradas”, ciumentas ou sedutoras demais que foram transformadas em Youkais, criaturas sobrenaturais do folclore japonês que assumem formas fantasmagóricas para nós e podem interferir na vida das pessoas.

"Lilith e Eva", de Yuri Klapouh
Pintura “Lilith e Eva”, do Yuri Klapouh | reprodução

Exemplos disso são as Onryou, um Youkai agressivo normalmente representado por mulheres traídas que procuram vingança contra seus ex-amantes e suas novas famílias. Ou, ainda, as Jorogumo, aranhas gigantes que se transformam em mulheres sedutoras, para atrair homens na intenção de alimentar-se deles.

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Inclusive, em um capítulo do mangá, há uma referência ao Hyakki Yagyo, o “Desfile Noturno dos 100 Demônios”, festival que acontece anualmente na cidade de Kyoto, em uma rua na qual acredita-se ser a fronteira entre o mundo espiritual e humano, para impedir que os Yokais façam estragos pela cidade. Em Kyoto, os habitantes se vestem como Yokais e desfilam pela rua, no mangá, o desfile é protagonizado apenas por Tomie e suas centenas de versões de si mesma.

Para a pesquisadora Barbara Creed em seu livro “The Monstrous-feminine: Film, Feminism, Psychoanalysis”, a construção do monstruoso-feminino está obrigatoriamente relacionada a papéis de gênero, portanto, não podendo ser visto como uma simples inversão do tradicional monstro masculino.

Tomie, mangá de Junji Ito
Cena de “Tomie”, lançado no Brasil pela editora Pipoca e Nanquim | reprodução

Além do horror corporal, para a construção de Tomie, Junji Ito nunca revela muito sobre o passado da personagem, sobre o tempo em que estava viva, se é que um dia esteve. Ela também afirma que não possui interesse nenhum por garotos, e, apesar de não sabermos o quão confiável é a personagem como narradora de sua própria vida, as únicas pessoas que ela parece se aproximar mais e compartilhar detalhes de si mesma são outras mulheres.

Outros exemplos disso são as personagens Jennifer Check, de Garota Infernal e Jill Kessler, de Pânico 4, as quais deixam claro seu interesse em homens apenas para benefício próprio, até priorizando relações sáficas², como no caso de Jennifer. A mulher-monstro, subverte, assim, a tradição de submissão ao patriarcado e ressignifica a narrativa da mulher “doida”, ”desequilibrada”, buscando nesse desequilíbrio o seu poder para conduzir sua própria história – para o bem ou para o mal.

Jennifer Check em "Garota Infernal"
Jennifer Check em “Garota Infernal” | Imagem: divulgação
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A personagem, que é vista o mangá inteiro por homens como um objeto e percebida apenas por sua beleza, é finalmente vista por quem ela realmente é pelas lentes fotográficas de uma colega de classe, o que a assusta e intriga.

De suas relações com os homens não sabemos mais que o básico, elas nunca duram o suficiente e sempre acabam em tragédia. Esses personagens masculinos nunca são aprofundados, exceto em seus planos vis de acabar com a “maldição” de Tomie.

A narrativa do mangá de Junji Ito, descentralizada da figura masculina, torna a protagonista a mulher-monstro perfeita. O fato de eles não serem o centro do universo para Tomie provoca ódio e rancor. Parte do que faz a personagem etérea e de feições divinas para eles é o fato de que eles nunca a enxergam como humana, um deles até arquiteta um plano para deixá-la presa por décadas para que ela possa envelhecer e ficar “feia” como qualquer outra pessoa. Porque a velhice, etapa básica da vida, para uma mulher na sociedade das aparências, é ainda pior que a morte.

¹ = Grooming é quando um adulto constrói um relacionamento, estabelece confiança e conexão emocional com uma criança ou jovem para que possa manipulá-lo, explorá-lo e abusá-lo.

² = Termo guarda-chuva que engloba mulheres que se relacionam com outras mulheres, também é válido para pessoas não-binárias.

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Autora:

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Nordestina, jornalista, tradutora e graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal do Cariri (UFCA). Pesquisadora de gênero e horror no audiovisual. Colaboradora da revista Corte Seco. Gosta de falar sobre quadrinhos, sci-fi e representatividade lésbica na mídia.
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