Pânico (2022) – Um requel inteligente que traz novas camadas para a franquia

Pânico (2022) – Um requel inteligente que traz novas camadas para a franquia

O primeiro filme da franquia Pânico, lançado em 1996, é considerado por muitos um divisor de águas no gênero de horror. É praticamente impossível analisar Pânico, sem refletir a respeito das mudanças monumentais que o longa, dirigido por Wes Craven, causou na indústria cinematográfica.

Doze anos após trabalhar com sonhos sobrenaturais e um tal de Freddy Krueger em A Hora do Pesadelo (1984), Craven transforma a face do horror. Dedicando seu trabalho em cima do roteiro de Kevin Williamson, ele disseca seus próprios tropos, subverte regras e renova um gênero. A partir disso, os anos seguintes foram tomados de filmes que tentavam replicar a fórmula de Pânico.

A obra conta com quatro sequências. A mais recente delas foi lançada em janeiro e é a primeira que não conta com a direção de Wes Craven, que faleceu em 2015. Pânico (2022) – popularmente conhecido como Pânico 5 – é dirigido por Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillet (Casamento Sangrento). O mais novo filme da franquia só poderia ter como responsáveis pela direção cineastas que se formaram em um universo “pós-pânico”. A forma deles de contar histórias se ajusta não apenas aos novos preceitos que os filmes da franquia Pânico trouxeram, mas também à ideia de subverter preceitos.

Participação de Wes Craven em Pânico (1996)
Participação de Wes Craven em Pânico (1996) interpretando o zelador da escola vestido como Freddy Krueger. Imagem | Reprodução.

Um exemplo disso é a cena de abertura do novo filme. Ela segue o padrão de exibir uma pessoa recebendo um telefonema de um maníaco que faz a clássica pergunta “Qual seu filme de horror favorito?”. No caso de Pânico (2022), a vítima da vez é a adolescente Tara (Jenna Ortega).

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Enquanto Tara conversa com Ghostface, antes de ele começar os insultos e ameaças, a garota fala que seu filme de horror favorito é o longa australiano O Babadook (Jennifer Kent, 2014). E que ela também curte Corrente do Mal (David Robert Mitchell, 2014), Hereditário (Ari Aster, 2018) e A Bruxa (Robert Eggers, 2015). Tara retrata esses filmes como “horror elevado”. Com essa colocação, a garota lança os alicerces para um conflito cultural que vem sendo travado entre apreciadores do gênero do horror cinematográfico. E que no filme também será discutido entre seus personagens, mas através de perseguições, armas e facadas.

Os diretores que comandam o filme dão seu próprio toque ao trabalho iniciado e consagrado por Wes Craven. Tecnicamente falando, no novo filme é possível reparar que há alguns recursos cinematográficos com os quais Craven não trabalhava muito. No longa há muitos ângulos inclinados, por exemplo. Assim como há a utilização de dolly zoom. Efeito que parece prejudicar a percepção visual e que dá a sensação de vertigem, que foi classicamente utilizado na obra Um Corpo que Cai (Alfred Hichcock, 1958). O que é conveniente para um filme que faz tantas referências a outros filmes. E é dessa forma que Matt e Tyler vão inserindo sua assinatura na narrativa.

Tara (Jenna Ortega) lutando contra Ghostface
Tara (Jenna Ortega) lutando contra Ghostface. Imagem | Reprodução
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Pânico (2022) vem sendo considerado um dos mais violentos da franquia. E a trilha, assim como os efeitos sonoros são grandes responsáveis por isso. Brian Tyler é quem assume essa parte no lugar de Marco Beltrami, que pela primeira vez se afasta da franquia. Podemos dizer que o trabalho de Beltrami é de uma qualidade formidável nos outros quatro filmes. Coros flutuando sobre a outra instrumentação dando aquela sensação de vozes fantasmagóricas, atingem em cheio nossa angústia e nos deixam ainda mais tensas. E apesar de Tyler deixar um pouco isso de lado, que é algo que faz falta para quem já estava acostumado com a assinatura de Beltrame, ele se esforça para manter uma trilha que nos cause ansiedade e tensão. E funciona.

Através do roteiro de James Vanderbilt (Zodíaco) e Guy Busick (Casamento Sangrento), somos levadas novamente à cidade de Woodsboro. Onze anos após os eventos de Pânico 4, um assassino vestido de Ghostface (mas lembrem-se que também podem ser dois assassinos) começa a aterrorizar o local com novas perseguições e assassinatos. Contudo, dessa vez o alvo principal não é Sidney Prescott (Neve Campbell), mas sim Sam (Melissa Barrera), que assume o papel de protagonista.

Sam é puxada de volta a Woodsboro após sua irmã Tara ter sido a primeira vítima da nova leva de ataques do assassino mascarado. Em busca de proteger a si e sua irmã, que consegue sobreviver ao atentado, Sam procura a ajuda de Dewey Riley (David Arquette). O agora ex-policial é o responsável por entrar em contato com Gale Weathers (Courtney Cox) e Sidney para avisá-las do ocorrido. E assim temos a inserção do trio veterano nessa nova construção narrativa.

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Sidney Prescott em Pânico (2022)

Alerta: o texto abaixo contém algumas informações que podem ser consideradas spoilers do filme (mas não revelamos quem é o assassino).

O universo nostálgico de Pânico

Você está familiarizado com o termo requel? Explicando de maneira resumida, requel é uma produção que serve como uma espécie de reboot. Pois, faz uso da premissa básica da obra original, mas busca fazer algo inédito dentro daquele universo, trazendo novos rostos e outros direcionamentos. Talvez este seja um dos motivos que fez com que o título do filme não recebesse o número 5, para dar essa ideia de um novo começo. Mas requel também funciona como uma sequência, tal qual vemos em Halloween (2018), que traz personagens que já conhecemos e temos carinho e dá novos rumos pare eles. As requel normalmente oferecem um ritmo nostálgico ao meio contemporâneo ao qual são lançadas.

Em uma cena Mindy (Jasmin Savoy Brown) fala que os fãs de cinema já não curtem mais tanto reboots e remakes de franquias fílmicas. Então, dessa forma, os estúdios buscam disfarçá-los como uma sequência que seja mais palatável para o gosto do público, os requel. E é justamente isso que Pânico (2022) é, fazendo piada consigo mesmo ele zomba dessa ideia de ficarem sempre criando novos filmes para alguma franquia famosa.

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E é dentro dessa requel que somos inseridas ao cenário familiar de um novo assassino mascarado. O ataque brutal a Tara faz com que sua irmã mais velha, Sam Carpenter, retorne a Woodsboro com seu namorado Richie (Jack Quaid). A partir disso, segredos de família que têm a ver com as motivações do novo Ghostface começam a vir à tona.

Richie (Jack Quaid) consolando Sam (Melissa Barrera) em Pânico (2022)
Richie (Jack Quaid) consolando Sam (Melissa Barrera). Imagem | Reprodução.

Enquanto Sam tenta descobrir quem é o assassino, todos que fazem parte do grupo de amigos de Tara são considerados suspeitos: Mindy, Liv (Sonia Bem Ammar), Amber (Mikey Madison), Wes (Dylan Minette) e Chad (Mason Gooding). Personagens majoritariamente simpáticos. Várias de suas falas fazem alguma referência ao universo do cinema de horror, como quando falam de Jordan Peele. Assim como dão dicas do que devem ou não fazer para se manterem vivos de acordo com os filmes do gênero que já assistiram. E os irmãos Mindy e Chad são sobrinhos de Randy Meeks (Jamie Kennedy). Meeks é o cinéfilo aficionado por filmes de horror que faz parte dos dois primeiros longas da franquia (e faz uma breve participação no terceiro filme através de um vídeo).

Temos ainda o personagem Wes, que recebeu esse nome como uma clara homenagem ao saudoso diretor, que dirigiu os filmes anteriores da franquia. Assim como temos as irmãs Sam e Tara Carpenter, que recebem tal sobrenome como referência a John Carpenter. Famoso diretor responsável por assumir a direção de filmes como Halloween – A Noite do Terror (1978) e Christine – O Carro Assassino (1983).

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Novo elenco de Panico (2022)
Parte do novo elenco: Vince (Kylle Galner), Chad (Manson Gooding), Mindy (Jasmin Savoy Brown), Liv (Sonia Bem Ammar) e Amber (Mikey Madison) . Imagem | Reprodução.

O elenco é competente e cativante, seus diálogos divertidos e inteligentes nos levam a dar várias risadas. Assistimos ao filme torcendo para que boa parte deles consiga sobreviver. Com exceção da protagonista, é difícil se importar com Sam. Um dos motivos talvez seja porque sua história é um tanto genérica: uma mulher traumatizada por um segredo que envolve sua família.

É claro que não há problema em trabalhar com clichês, mas é importante saber configurá-los. E não é bem por esse caminho que essa parte da história segue. A mãe de Sam e Tara nem aparece na história, mas descobrimos que ela tem um passado considerado libidinoso. Além disso, enganou o marido e as filhas durante muito tempo com um segredo. Como consequência da descoberta desse segredo o marido/pai abandona a família e a mãe passa a exagerar no consumo de álcool. E ainda se torna alguém ausente na vida das filhas.

Isso tudo nos remete muito à ideia moralista e patriarcal, bastante disseminada no cinema de horror, de que mulheres merecem ser punidas pelos seus desvios. Que é o que acontece com a mãe de Sam e depois com suas filhas, são mulheres castigadas pela vida. E nós, mulheres apreciadoras de filmes de horror, já estamos cansadas desse tipo de representação.

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Sam, Gale (Courtney Cox) e Sidney Prescott (Neve Campbell) em Pânico (2022)
Sam, Gale (Courtney Cox) e Sidney (Neve Campbell). Imagem | Reprodução.

O outro motivo é que Melissa Barrera não parece estar totalmente entregue ao papel, pois sua atuação fica um pouco forçada e limitada. A personagem central da trama não consegue nos convencer do que está sentindo. Não importa o que ela esteja fazendo. Pode estar sendo perseguida, lutando contra o Ghostface, se mostrando preocupada com a irmã, tentando convencer Dewey a ajudá-la, ela tem pouquíssimo ou nenhum carisma.

Já seguindo essa linha oposta temos a excelente atuação de Jenna Ortega, que nos faz torcer desesperadamente para que sua personagem sobreviva. Tara nos convence intensamente de seu sofrimento. Em uma cena no hospital, que faz referência a Halloween II – O Pesadelo Continua (Rick Rosenthal, 1981), ao passo que se recupera do ataque que ocorre na sequência inicial, Tara sofre mais um atentado. Enquanto ainda se encontra debilitada, ela bravamente luta por sua sobrevivência. Sofremos junto com cada esforço que ela faz, pois a dor dela é muito visível, nos convencendo e ganhando com todo seu desempenho.

Melissa Barrera como a protagonista Sam
Melissa Barrera como a protagonista Sam. Imagem | Reprodução.
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São personagens como Tara que ajudam a manter a qualidade do filme, porque infelizmente a protagonista não conseguiria segurá-lo sozinha. Sidney, Gale e Dewey também são presenças marcantes. Finalmente parece que Sidney conseguiu deixar seus traumas um pouco de lado. Ela está vivendo uma vida merecidamente tranquila ao lado da família que construiu. Segundo uma fala da personagem, entendemos que ela se casou com Mark (Patrick Dempsey), o detetive que investigou os assassinatos em Pânico 3. Já Gale e Dewey estão separados, mas ainda sofrem com isso. Para além da emoção nostálgica que é voltar a ver os três de volta a seus papeis, eles estão ótimos em cena.

David Arquette e Neve Campbell conseguem demonstrar muito bem o que estão sentindo seus personagens. É comovente quando ambos expõem alguns relatos de suas vidas. Por exemplo, quando Dewey se questiona o quão egoísta foi por deixar Gale sozinha em Nova York. Courtney Cox também está ótima em seu papel. Ela interpreta um momento da vida de Gale no qual a personagem se sente cansada e desgastada por conta de sua profissão. Assim, vemos ela se perguntar o que de fato valeu a pena. Tudo isso faz a gente querer mais desses três personagens. No entanto, é um pouco triste ver eles mais entre às margens do que ao centro da trama.

Dewey e Gale no novo Pânico
Dewey e Gale em uma cena de crime. Imagem | Reprodução.

Uma reprodução de si mesmo?

A partir do terceiro ato o longa se transforma um pouco mais em uma reprodução de si mesmo e do fandom que criou. Assim, ele acaba se mostrando um filme sobre o seu próprio legado e às vezes nos dá aquela sensação de que alguém vai olhar para a câmera e piscar para o público. Portanto, a gente fica se perguntando se a ideia era criar algo novo ou apenas honrar tal legado. Pois, quando finalmente o assassino se revela, não causa tanta surpresa para quem está assistindo. Visto que o foco do momento parece estar na ideia de o filme se mostrar como uma reinvenção de algo que já foi reinventado.

Contudo, esses apontamentos não chegam a tirar o brilho de Pânico (2022), mas são questões que valem a pena serem problematizadas. É uma obra que merece o tempo que você investe. Para quem é fã do subgênero slasher, vai se divertir enquanto tenta descobrir quem é o assassino (mesmo que pareça um tanto óbvio), ao mesmo tempo que vai poder apreciar uma obra bem dirigida. Muito provavelmente Wes Craven ficaria orgulhoso.

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Denise é bacharela em cinema e tem amor incondicional por tal arte. Pesquisa e escreve sobre feminismo e a representação das mulheres na área do audiovisual. É colecionadora de DVDs, fã da Audrey Hepburn, apaixonada por Rock n' Roll e cultura pop. Adora os agitos dos shows de rock, mas tem nas salas de cinema seu local de refúgio e aconchego.
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