Sidney Prescott: a rebeldia que as final girls precisavam
Sidney Prescott: a rebeldia que as final girls precisavam

Sidney Prescott: a rebeldia que as final girls precisavam

A franquia Pânico é uma das mais aclamadas do cinema de horror, creditada como uma das salvadoras do slasher, trazendo um respiro e frescor ao subgênero depois que franquias como Halloween e Sexta-feira 13 deram uma enfraquecida com tantas continuações. Com a maioria dos filmes roteirizados por Kevin Williamson e todos dirigidos por Wes Craven, Pânico brinca com os tropos do cinema de horror e subverte suas regras, quebrando as expectativas de quem assiste. E é claro que para uma franquia tão revolucionária, precisaríamos de uma final girl igualmente subversiva e rebelde. 

Aviso: Esse texto contém spoilers dos filmes da franquia Pânico

Algumas mudanças trazidas por Sidney Prescott

Sidney Prescott (Neve Campbell) transpassa diversas ideias do tropo da final girl, a começar pelo sexo. Enquanto Laurie (Halloween) e Nancy (A Hora do Pesadelo) ainda não haviam se relacionado sexualmente, Sidney escolhe transar com seu namorado ao longo do filme, em uma cena que inclusive passa longe de ser sexualizada, mas você compreende que depois dali ela poderia ser morta, coisa que – spoiler – não acontece. 

No primeiro filme, de 1996, nos deparamos com uma Sidney que de início, mesmo que fragilizada pelas lembranças da morte violenta de sua mãe que voltam à tona com o assassinato de Casey (Drew Barrymore) e seu namorado, ainda tira um sarro da primeira ligação ameaçadora que recebe de Ghostface. Em uma cena cômica, com o telefone na mão, ela vai até a varanda para ver se o vilão está mesmo onde diz estar, e enquanto você leva o cobertor ao rosto achando que ela vai ser atacada, vê na verdade a mocinha com o dedo no nariz desafiando o assassino.

Sidney desafiando Ghostface em “Pânico” (1996) | Foto: reprodução

Nessa mesma cena, além de tirar sarro do vilão, Sidney também satiriza outras protagonistas de filmes de terror ao dizer que elas foram bobas ao subir as escadas durante as perseguições. O engraçado é que ela mesma faz isso quando se vê ameaçada, com a diferença de que o roteiro de Kevin traz uma armadilha perfeita no quarto de Sid: duas portas que quando se encontram se tornam uma poderosa trava.

Curiosidade: enquanto estavam procurando locações para o filme, a produção de Pânico não conseguiu achar nenhuma porta que fazia o que as do roteiro deveriam fazer, então construíram essas duas no set. Segundo Kevin, ele mesmo teria tido as portas quando criança e achou que seria uma boa escolha para o quarto da protagonista. 

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Ghostface preso na armadilha das portas de Sidney | Foto: reprodução

Outro comportamento de final girl quebrado por Sid diz respeito à sua proatividade. Dentro das características das sobreviventes temos um grande destaque para a inteligência, mas Prescott, além de inteligente, age e se defende muito bem. Ela não é salva por ninguém, ao contrário, é ela quem salva seu pai, sequestrado pelos assassinos, e ainda dá o tiro final (e fatal) em seu namorado (Skeet Ulrich) depois de matar Stu (Matthew Lillard). Em Pânico podemos ver que o cinema de horror ganhou uma protagonista digna das mudanças históricas dos anos 90, menos moralista e mais ativa e rebelde.

O que acontece com a final girl após o primeiro “Pânico”?

O segundo filme da franquia, lançado em 1997, traz uma outra inovação para os slashers: a mocinha continua viva! Geralmente, as final girls do primeiro filme morrem no começo do segundo, ou nem sequer aparecem, mas Sidney está viva e Pânico 2 aborda sua vida após o trauma.

No início do segundo filme, Sidney vai para a faculdade e leva uma vida aparentemente normal, mantendo amizades e relacionamento. No entanto, agora ela tem um identificador de chamadas para saber quem são os estúpidos que ligam pra ela fingindo ser o Ghostface. Parece que tudo anda bem até que o assassinato duplo durante a exibição de “Stab” (Facada em português, filme que conta a história dos acontecimentos de “Pânico” – sim, mais metalinguagem) é noticiado e os jornais a cercam. 

Sidney cercada pela mídia sensacionalista em “Pânico 2”. | Foto: reprodução

Aqui é importante abrir um parênteses na trajetória de Sid para dois apontamentos: a cena de abertura de Pânico 2 traz um casal de pessoas negras em que o homem ganha os ingressos para o filme e a mulher critica o gênero, dizendo que é mais um filme sobre garotas brancas. Aliás, como Gabriela Larocca bem observa no episódio do podcast República do Medo sobre a franquia, essa parece ser uma tentativa de Craven de corrigir o fato de que o elenco do primeiro filme é todo branco, heterossexual e de classe média. Mas se trata de uma tentativa, porque o casal morre logo em seguida, ou seja, mesmo deixando a crítica, o filme segue com a marca de que os personagens negros foram rapidamente assassinados.

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Outro apontamento é sobre a crítica à mídia “pinga sangue”, como chamamos a mídia sensacionalista aqui no Brasil, representada no filme por Gale Weathers (Courteney Cox). Uma mídia que está atrás de notícias a qualquer custo, inclusive quer participar delas, como é o caso de Gale.

O que os próximos filmes da franquia (2, 3 e 4) nos mostram é que Sidney encontra modos para lidar com seus traumas e medos. Além de se proteger fisicamente com coletes à prova de balas, armas e maior conhecimento sobre defesa pessoal, Pânico 3 (2000) traz a opção da personagem de Neve Campbell por viver isolada e ser voluntária de uma organização de apoio para mulheres em situação de violência ou que passaram por alguma ocorrência traumática sob o nome de Laura.

Aparentemente, o contrato de Campbell só permitiu que ela ficasse 20 dias nas filmagens por estar trabalhando também em outro projeto. O tempo limitado da atriz fez com que o roteiro fosse praticamente reescrito e não teria ficado pronto antes das filmagens, mas tais pontos explicam porque Sidney tem menos tempo de tela no longa e menos proatividade, mas não menos importância.   

Sidney ao fim de “Pânico 3” | Foto: reprodução

Uma heroína que conta sua história

O terceiro filme infelizmente não refletiu bem nas bilheterias e foi mais criticado do que os anteriores, o que possivelmente fez com que o quarto lavasse 11 anos para ser lançado. Pânico 4 (2011) nos traz de volta à Woodsboro, com Sidney sendo uma escritora bem sucedida após decidir contar sua história sobre todos os fatos que viveu no livro “Out of Darkness” (Fora da Escuridão). 

O filme traz várias referências ao primeiro com algumas atualizações, como o uso dos celulares e uma dose maior de humor, mas a história ainda tem Sidney como elemento central. A importância desse longa na trajetória de Sidney se dá principalmente pelo fato dela ter optado por contar sua própria história, cansada da visão da mídia e dos filmes baseados em sua vida (na verdade, a partir do Facada 3, os filmes já deixam de ter um fundo verdadeiro para serem inventadas, pois Sidney ameaçou processar a produtora).

Sidney em “Pânico 4” | Foto: reprodução

Ao escrever sua biografia, a personagem assume as rédeas dos fatos e finalmente consegue ser ouvida. O fato de contar sua história remete ao termo herstory, “cunhado pelo feminismo para designar a teorização e a documentação da experiência, da vida e da linguagem das mulheres (Humm, 1989: 97). O uso paródico do termo «Herstory» em língua inglesa surge com a tomada de consciência do desajustamento entre a linguagem e a realidade a que esta se refere, nomeadamente a omissão do papel desempenhado pelas mulheres como agentes sociais na História. O termo ainda pretende chamar a atenção para a censura existente na própria linguagem patriarcal ao evidenciar o uso do masculino como genérico — «his-story».” (Macedo, p. 57) (Referência: Macedo, G. (2011). Género, cultura visual e performance: antologia crítica. (1a ed.). Editora Húmus: Famalicão.).

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De acordo com o trailer do quinto filme da franquia, com estreia prevista para 2022, é bem provável que a trama continue centrada em Sidney, que parece estar mais preparada do que nunca para enfrentar qualquer ameaça (uma possível influência do Halloween (2018) e a força da personagem de Jamie Lee Curtis). A presença de Campbell no filme agrada aos fãs e nos lembra que Sidney está viva e pretende continuar assim.

Uma das final girls mais marcantes do cinema merece destaque por sua inteligência, sagacidade, pró atividade e rebeldia. Sidney Prescott desafia seus inimigos e se salva, contando sua história e sendo a protagonista de sua vida. A personagem de Campbell é inspiração para todas as mulheres que sofreram ou sofrem algum tipo de violência e lutam por suas vidas e para serem ouvidas.

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Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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