Quadrinhos eróticos feitos por mulheres: erotismo para além dos homens

Quadrinhos eróticos feitos por mulheres: erotismo para além dos homens

Muito se fala sobre a cultura da pornografia e quais âmbitos ela percorre. Dados da Quantas Pesquisas e Estudos de Mercado, de 2018, mostram que 22 milhões de pessoas assumem consumir pornografia. A pesquisa também aponta que 76% dos consumidores são homens, contra  24% de mulheres

Os meios que viabilizam o consumo desse tipo de conteúdo são diversos: filmes, vídeos, revistas e livros. Mas pouco se fala do impacto que os quadrinhos criaram para a disseminação dessa cultura. Por anos, as HQs foram vistas como palco alternativo às revistas pornográficas. Por meio da ilustração, era possível criar personagens nos mais provocativos e surreais ângulos, corpos e ações. Isso somado ao fato da exposição em sequências longas, por meio de veículos de fácil acesso e distribuição. 

Autores como Milo Manara, Guido Crepax e Paolo Serpieri são alguns dos muitos que se envolveram com os quadrinhos eróticos no exterior e criaram histórias nas quais, na maior parte das vezes, o foco principal está na figura da mulher. 

Arte de Milo Manara, quadrinista europeu.

Em um mundo dominado pelo machismo, é difícil que o trabalho feminino seja disseminado. Na visão da quadrinista Germana Viana, autora e organizadora de “Gibi de Menininha  – Histórias de Terror de Putaria“, o grande problema desses quadrinhos eróticos vem da relação de poderes, e não do sexo:

“Se alguém como eu, que gosta material erótico e pornográfico, faço e mostro que dá para fazer erotismo sem usar o elemento (já batido, inclusive) do estupro ou da “cultura da novinha”, que nada mais é que pedofilia.

É como mostrar que dá para fazer putaria sem recorrer a ferramentas tão baixas e tão pouco ricas. Eu acredito que o problema não está no sexo, e sim nas relações erradas de poder”, comenta a autora.  

Quadrinhos eróticos no Brasil

quadrinhos eróticos no Brasil
A Vampira Mirza, de Eugenio Colonnesse.

Dois dos principais nomes dos quadrinhos eróticos na história das HQs brasileiras eram Carlos Zéfiro, criador dos “catecismos”— histórias curtas com teor pornográfico que eram vendidos nas bancas —, e Eugenio Colesse, responsável pela criação da sensual vampira Mirza

São muitas as críticas colecionadas a respeito desse tipo de arte. Não apenas pelo próprio tema abordado — que, por si só, já traz um enorme tabu —, mas também pela forma como é produzido. São muitas as obras que promovem a cultura do estupro, a erotização infantil, o machismo estrutural e patriarcal e a representação sexualizada de uma mulher branca, magra e heterossexual.

Um meio de saída a esse estereótipo está, ironicamente, nas próprias mulheres. Hoje, boa parte do mercado dos quadrinhos eróticos é produzido pelo gênero feminino e pela população LGBTQ+, que trazem ao público uma visão diferente do mainstream.  

“O olhar do erótico é diferente. Eu acho que só de ser mulher e fazer quadrinhos eróticos, isso representa um trabalho político. Eu estou colocando meu olhar como mulher nesses assuntos, que geralmente são tratados e representados por homens.

Então, tudo acaba sendo diferente do que estamos habituados a ver na indústria pornográfica mainstream”.

A fala é de Carol Ito, jornalista e criadora do blog de quadrinhos autorais Salsicha em Conserva. Para a autora, a inclusão de personagens de corpos e sexualidades diversas também é um dos destaques de seu trabalho como quadrinista. 

“O que vemos no erótico são corpos reais, que não se encaixam num padrão de beleza heteronormativo — me preocupo muito em colocar isso nos desenhos. É um olhar mais sensível para a sexualidade e não pornográfico.

Eu acho que fazer quadrinho erótico é uma forma de humanizar nossas relações, desejos, vontades. Desejo sexual é sempre associado a um universo masculino e construído por homens. Fazer quadrinhos é normalizar isso”.

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Comunidade LGBTQ+ e a visão de promiscuidade nos quadrinhos eróticos

Gibi de Menininha, arte de Germana Viana - quadrinhos eróticos
Gibi de Menininha – Arte por Germana Viana

Mas não é apenas o universo heteronormativo faz o uso de estereótipos. A retratação de casais homoafetivos nos quadrinhos eróticos mais tradicionais (que, diga-se de passagem, também eram produzidos por pessoas heterossexuais) também se guia por outra linha de pensamento. Para Germana Viana, é importante ter cuidado na hora de retratá-los para evitar o estigma de que a homossexualidade é imprópria.

“Sempre que eu coloco casais homoafetivos, eu coloco casais e ponto. Eu desenho casais fazendo o que casais fazem, desde ir até o supermercado juntos a trocar uma ideia sobre o vizinho.

O que eu faço é isso, eu coloco todos os aspectos de um relacionamento quando eu estou trabalhando com o erótico. Eu desenho pessoas”, destaca a artista. 

Ela conta, ainda, que durante a produção de um de seus quadrinhos, recebeu comentários positivos de homens heterossexuais, que viam o sexo de outra maneira.

“Quando eu fiz o primeiro Gibi de Menininha, achei que teria um backlash muito grande, porque os caras que compraram esperavam pela cultura da mulher em pose de ‘frango-assado’. E o que eu fiz foi erotismo para mulheres heterossexuais e bissexuais e para homens bissexuais e gays.

Então, achei que daria problema com os caras héteros que compraram o quadrinho. E foi uma grande surpresa: os caras vieram falar, em mensagens privadas, que adoraram e aprenderam coisas novas”.

De acordo com a artista, ao criar um quadrinho erótico que é também um lugar seguro, até mesmo um homem mais conservador passa a expor seus sentimentos e reconhece seus erros. “Ninguém me mandou foto do pênis. Um cara até mesmo me disse que viu que fazia coisas erradas e não sabia, porque tinha aprendido daquela forma”.

E a masturbação?

Arte por Carol Ito - quadrinhos eróticos
Arte por Carol Ito.

Há quem veja os quadrinhos eróticos como uma cultura de masturbação masculina, por expor o sexo de maneira fantasiosa. Na visão de Carol Ito, essa é uma atitude que reflete solidão: 

“Quando eu comecei a fazer os primeiros desenhos eróticos, fiquei pensando ‘nossa, será que isso vai ser um motivo para motivar a masturbação masculina?’. Eu não sei.

Mas acho que esses caras, que historicamente usam desenhos, quadrinhos e hentais para se masturbar, é algo muito solitário. São pessoas que deixam de viver o mundo real para projetar seus desejos num desenho. É um pouco triste, na verdade”.

Ela destaca ainda que a masturbação ainda é um tema polêmico para a sociedade e que precisa ter seus momentos de desconstrução:

“A masturbação é um tabu que precisa ser desmistificado, afinal todos gostamos disso. Mulher tem desejos, tem tesão, faz suruba, se masturba e isso não pode ser jogado como uma promiscuidade ou como uma sexualidade nociva. Porque a mulher que domina sua sexualidade é vista como perigosa e traiçoeira. A ideia é justamente tirar essa carga do assunto”. 

Erotismo ainda é tabu

Arte de Germana Viana - quadrinhos eróticos
Arte por Germana Viana.

Para quem produz os quadrinhos, fica o peso do tabu. Mas, de acordo com Germana Viana, essa é uma das forças que a motivam a continuar. 

“A bem da verdade, eu cago para o tabu. Se eu quisesse fazer material para ser super aceito, não estaria fazendo o que eu faço. Eu acho que parte do tabu tá muito calcado em ideias erradas, de pessoas que nem praticam sexo  e também que são muito hipócritas.

O que eu faço é quebrar isso. Transformo em normal (e legal) um troço que é, de fato, normal e legal”.

Hoje, há uma quantidade considerável de mulheres que produzem quadrinhos eróticos, além de Germana e Carol. “Garota Siririca“, da autora LoveLove6, retrata a vida de uma menina viciada em masturbação. Sirlanney coleciona tirinhas eróticas em sua página no Instragram, assim como Cynthia B e Thaís Gualberto – a última está com um financiamento coletivo para a impressão do segundo volume de “Olga, a sexóloga“. Já o segundo volume de “Gibi de Menininha” também está em financiamento. Bora apoiar as mulheres que criam quadrinhos eróticos no Brasil, pessoal!

Arte de Thais Gualberto.

Por fim, de acordo com um estudo da organização “Treasures”, 90% das mulheres da indústria bilionária do sexo foram abusadas quando crianças. Por isso, é preciso estar atenta às alternativas, como produções que se preocupam com o bem estar e segurança da mulher, para evitar o consumo desta pornografia que estimula práticas criminosas, como a violência contra a mulher, o estupro e o machismo. 


Edição realizada por Isabelle Simões.

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Quase jornalista, nerd, feminista, pesquisadora de minas nos quadrinhos, criadora do Phantom Ladies e do podcast Pauta Nerd, da Rádio Brasil de Fato. Não sei desenhar uma linha reta e sou movida à chá mate com limão.
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