8 ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro que você precisa conhecer

8 ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro que você precisa conhecer

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A bússola aponta para o Norte. Porém, as editoras, os eventos e grande fatia do público consumidor de quadrinhos está localizado no Sudeste do Brasil. Dessa forma, se os artistas não conseguem estar no espaço em que a movimentação acontece eles não serão vistos e, consequentemente, não serão convidados para grandes projetos, assim como não terão suas produções reconhecidas por leitores, casas editoras e profissionais do meio. Buscamos levantar aqui o olhar para a produção de fora do eixo Sul-Sudeste apresentando os trabalhos de oito ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro das mais diversas técnicas, vivências e níveis profissionais, proponho também o movimento de busca por tantas outras através das inúmeras referências citadas pelas entrevistadas ao longo do texto como exercício de sairmos da nossa bolha cultural.

Importante ressaltar que não temos a intenção de criar uma caixinha com ilustradoras e quadrinistas do Norte, é injusto se propor a uniformizar uma produção tão diversa. Porém, o que acontece no sudeste é a tendência de criar gavetas unificadoras do que vem do Norte e do Nordeste, vistas em falas como “amo o sotaque nordestino” ou “adoro a culinária do Norte”.

Portanto, durante a idealização do texto, pensamos em entrevistar pelo menos uma mulher de cada estado, mas a execução foi diferente. Encontrar informações sobre artistas de alguns deles foi uma tarefa que demandou pesquisa diária e, infelizmente, não localizamos em tempo hábil nomes de todas as unidades federativas, focando assim em artistas do Amapá, do Amazonas e do Pará.

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Antes de apresentar as artistas com as quais conversamos, ressaltamos a importância do projeto da assistente editorial da editora Devir, Sâmela Hidalgo. Manauara, Sâmela conhece as dificuldades de quem está no Norte conseguir visibilidade no Sudeste, onde se concentra o maior mercado consumidor de HQs do Brasil, além de possuir vasto conhecimento em edição de quadrinhos. Foi pensando em direcionar os holofotes para as criações nortistas que ela desenvolveu o Norte em Quadrinhos, lives exibidas todos os domingos no YouTube às 18h (Brasília) e 17h (Manaus) em que artistas da região falam sobre arte, mercado e vivências em um bate-papo com Sâmela. 

Agora, vamos às artistas!

8) Rayanne Cardoso

ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro

Rayanne Cardoso sempre foi dessas crianças que gostam muito de desenhar e nunca param. Entre suas lembranças estão os animes que passavam na TV Globinho, principalmente InuYasha, cancelado posteriormente. Porém, meses após o cancelamento, Ray viu uma pessoa com o mangá do desenho no ônibus e isso despertou sua curiosidade, transformando-a em uma leitora não só do gênero, mas de quadrinhos no geral.

Do interesse para a profissionalização, Ray começou pela faculdade de Design, mas mudou de curso, indo para Artes Visuais na Universidade Federal do Amazonas e foi por lá que iniciou sua participação em feiras e eventos, para ter mais contato com pessoas que já trabalhavam com ilustração na cidade.

O cenário da profissionalização em Manaus para quem deseja seguir carreira nos quadrinhos é árduo, segundo Ray. A artista compartilha que precisou melhorar suas habilidades muitas vezes sozinha, já que há grande déficit de cursos especializados no fazer quadrinístico, além de mercado quase inexistente.

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Atualmente, ela acredita que a situação está mais fácil, porém longe de ser ideal, principalmente para jovens quadrinistas, pois os trabalhos oferecidos são destinados aos artistas mais conhecidos. Ray ainda pontua que o cenário de quadrinhos voltou a fazer algum barulho em Manaus devido aos esforços de artistas para movimentar a cena, dando origem a coletivos e eventos voltados aos quadrinhos independentes, como o Quadrinhos no Largo e o Dia do Quadrinho Nacional.

Por dentro dessa movimentação, Ray participa de três coletivos: XMao, Ajuri e MáTinta HQ. O último, composto por mulheres, tem como objetivo ser um espaço para ilustradoras e roteiristas trocarem informações, ideias, produzir quadrinhos e mostrar que em Manaus tem muitas mulheres e meninas que não só consomem, mas também querem fazer seus próprios quadrinhos. Dentre as referências da quadrinista estão mais mulheres, como Brenda Bossato, Julia B. Mello, Zao Dao e Lorena Alvarez Gómez, além de todo o universo Studio Ghibli.

8 ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro
Tirinha feita em parceria com a artista Lilian Reis. (Imagem: reprodução)
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Para se expressar, Ray tem como paixão a aquarela e curte bastante a arte digital, sendo a segunda sua principal ferramenta de trabalho. Em relação à temática, a artista deseja criar algo que gere identificação, principalmente sobre situações da vida adulta que não conseguimos exteriorizar ou lidar muito bem.

Porém, ao passar para o papel, ela se cobrava um traço mais “sério” ou que bebesse no realismo, mas em 2020 decidiu abraçar de vez o lado fofinho de suas criações. Entre seus trabalhos favoritos estão seu primeiro quadrinho chamado Sentimento Púrpura publicado na coletânea Ajuri I do coletivo X-Mao e as tirinhas que fez com Lílian Reis para o MáTinta HQ.

Para o futuro, Ray tem muitos projetos em pauta. O primeiro é a HQ Memórias, em parceria com o cartunista Luiz Andrade, sobre a relação das personagens com seu próprio passado. Ainda nos quadrinhos, existe Maramunhã, roteirizada por Evaldo Vasconcelos, uma adaptação da obra Batracomiomaquia, atribuída a Homero, mas dessa vez recriada na Amazônia, onde jabutis e quatipurus guerreiam devido a um mal-entendido. Por último, com o coletivo MáTinta HQ, há um projeto em quadrinhos que deve concorrer a um a edital público para ser financiado.

7) MáTinta HQ

matintahq - 8 ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro

Matinta Pereira é o nome de uma personagem do folclore nortista. Conta a lenda, que à noite, um pássaro de assobio agudo perturba o sono das pessoas, até que alguém da casa prometa tabaco ou fumo para a figura buscar no dia seguinte. Além disso, MáTinta também é o nome do coletivo manauara, surgido em 2019, que atualmente reúne 30 mulheres interessadas em difundir as culturas do Norte e em fortalecer a produção artística local. O grupo agrega roteiristas, ilustradoras, coloristas, designers e arte-finalistas com diferentes técnicas e experiências, mas unidas pelo amor às artes e histórias.

A história do MáTinta HQ começa com um pequeno grupo de mulheres quadrinistas que atuavam na cena manauara há alguns anos. Percebendo que eram minoria entre os artistas locais e após uma visita, em 2018, ao Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), sediado em Belo Horizonte (MG), o grupo notou que, nacionalmente, as mulheres estavam bastante presentes na produção e que havia grande interesse do público em conhecer os trabalhos das mulheres do Norte brasileiro. Dessa forma, ao retornarem para Manaus, as artistas criaram o coletivo e abriram chamada pública via redes sociais para que mais mulheres se juntassem ao movimento para não só produzir, mas também aprender mais sobre o fazer quadrinístico.

tirinha matinta - 8 ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro
Tirinha das integrantes Ircomix e Di Gonçalves (Imagem: reprodução)

Por ser um grupo relativamente grande, a organização se dá principalmente pelo WhatsApp e por reuniões presenciais a cada três meses. Porém, devido à pandemia de coronavírus, os encontros foram suspensos e todas as atividades são desenvolvidas em ambiente digital. Apesar da pausa no contato presencial, o fluxo de trabalho do coletivo segue funcionando plenamente e também existem projetos para o futuro.

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Atualmente, o MáTinta está produzindo algumas tirinhas experimentais, chamadas “Telefone sem fio”, que consistem em uma história colaborativa em que cada uma desenha uma página e passa adiante sem mais detalhes; a produção do terceiro fanzine também está em pauta e será preenchida com os materiais postados no Instagram do coletivo e, por último, está a criação de um quadrinho com a personagem do grupo conhecida por Maiara, moça manauara que é possuída por uma Matinta Pereira.

Se você é uma mulher de Manaus que deseja aprender mais sobre quadrinhos, divulgar seu trabalho e produzir coletivamente, o MáTinta HQ está de braços abertos para recebê-la, basta mandar uma mensagem no Instagram ou no Facebook do coletivo para saber como ingressar. Agora, caso você encontre o grupo em algum evento, pode chegar sem medo para trocar ideia e dizer que conhece o coletivo, a galera fica bastante feliz com o reconhecimento e acredita que todo o trabalho vale a pena quando recebem o carinho de quem acompanha as artistas do MáTinta.

6) Helô Rodrigues

Helô Rodrigues - 8 ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro

Helô Rodrigues sempre foi fascinada por pintura e ilustração. Desde os tempos de colégio se via imersa em atividades artísticas e em livros ilustrados da biblioteca da escola; em casa não era diferente, o avô passou para a neta o gosto pelo desenho e a incentivava entregando lápis e papel para que praticassem juntos. Porém, foi mais tarde que Helô viu oportunidade de gerar renda a partir das ilustrações e contou com o apoio do noivo para realizar pesquisas, criar uma cartela de clientes e transformar o hobby em profissão.

Contudo, para se dedicar à ilustração digital, Helô precisou abrir mão da faculdade de Pedagogia e abraçar o desafio de ser autônoma, além de lidar com embates familiares devido a sua escolha. Para a artista, ter um objetivo definido e agir para chegar até ele é o ponto-chave. E com essa ideia na cabeça, Helô também se inspira em outras artistas independentes que sobrevivem do que fazem, como Pri Barbosa, Brunna Mancuso, Bianca Nazari e, principalmente, Liz Clements.

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Helô retrata uma situação cotidiana com seu parceiro (Imagem: reprodução)

Ter mulheres artistas como referência foi o empurrão que Helô precisava. Por isso, um dos objetivos da ilustradora é levar representatividade por meio de seus trabalhos. Além de levar essa representatividade, ela também a multiplica no M.AR., coletivo com mais de 100 mulheres que desenham, grafitam, pintam e se expressam artisticamente das mais variadas formas, sendo um marco em sua carreira, pois ali conheceu artistas para trocar ideias e fortalecer o movimento. Além do M.AR., Helô integra o Açaí Pesado, coletivo de quadrinistas do Pará, que a ajudou a crescer na nona arte.

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Dentro dos quadrinhos, Helô Rodrigues destaca com carinho dois projetos autorais. O primeiro é a página O Mágico Se, em parceria com Ítalo Rodrigues, e o segundo, também com Ítalo, é a HQ do Brega, projeto que está ganhando forma e ainda não tem data de lançamento definida. Além da nova HQ, Helô planeja inaugurar seu APOIA.se em agosto com o intuito de oferecer recompensas diversas e bem legais para quem fomentar seu trabalho na plataforma de financiamento coletivo.

5) Beatriz Miranda

Beatriz Miranda

Pensar o quadrinho como projeto de design. É assim que a quadrinista e pesquisadora Beatriz Miranda planeja e executa seus trabalhos. Graduada em Design, durante a produção de seu TCC, a artista teve que escolher uma uma metodologia projetual e mesclá-la com algum processo de produção de quadrinhos, optando assim pelo alinhamento da metodologia do artista e designer italiano Bruno Munari com o processo do quadrinista norte-americano Scott Mccloud. Dessa forma, desde a graduação, Beatriz vê a HQ como um projeto de design que segue processos de produção, desde pré-requisitos até chegar ao produto final, ao quadrinho em si. 

Durante seu processo de criação, Beatriz Miranda evita ler, buscar referências e soluções em outras histórias em quadrinhos com o objetivo de não repetir discursos. Para driblar a busca nas HQs, ela anota tudo em cadernos de projeto que se tornam uma espécie de diário de bordo da produção e encontra inspiração em outras artes que a acompanham desde a infância nos interiores do Pará, como ópera, literatura, dança, música e animação.

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Dentre tantas expressões artísticas, os musicais, com destaque para Pierre e O Grande Cometa de 1812, exercem fascínio em Beatriz e influenciam diretamente em seus enquadramentos, ritmos de narrativa e expressões das personagens. Pensando em nomes inspiradores, a lista de artistas preferidos é enorme, mas Bia aponta Monique Malcher, Elton Galdino, Paula Chaves, Livia Prestes e Rodrigo Leão como profissionais incríveis, criadores de trabalhos impecáveis e que têm muito a dizer.

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Esse é um dos trabalhos preferidos de Beatriz Miranda (Imagem: reprodução)

Remonta a 2017 o ponto de virada profissional de Beatriz, momento em que produzia uma história em quadrinhos para o TCC baseada na pesquisa sobre como certos movimentos da arte criaram a imagem da mulher como objeto, perpetuando essa figura objetificada em outras mídias como a pornografia, influenciando diretamente os quadrinhos de super-heróis.

Enquanto se dedicava ao projeto, Bia procurou se aproximar de profissionais dos quadrinhos conseguindo um emprego, porém o que deveria ser motivo de celebração, acabou tornando-se um grave problema, pois naquele ambiente a artista foi importunada e assediada, levando-a a abandonar os desenhos. Entretanto, Beatriz encontrou forças para voltar à arte investindo nas redes sociais, se educando por livros e vídeos online gratuitos, sem deixar de lado a pesquisa acadêmica, e cercando-se de pessoas que a apoiavam.

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Não desistir de trilhar um caminho na arte levou Beatriz Miranda a figurar em dois trabalhos que também são os favoritos da artista. O primeiro, o livro Mulheres & Quadrinhos, foi a oportunidade de Bia mostrar seu trabalho enquanto quadrinista e também um dos responsáveis por levá-la ao segundo projeto preferido, Emília 100.

Para a quadrinista, atuar nesse projeto idealizado por Carol Pimentel é uma realização, pois jamais imaginou que colaboraria com uma profissional que tanto admira. Atualmente, Beatriz está focada em Emília 100 e na HQ de Saint-Exupéry, autor do clássico infantil O Pequeno Príncipe, ambos os projetos saem pela Editora Skript. Além dos quadrinhos, ela realizou dois trabalhos para um exposição que ainda não foi viabilizada devido à pandemia e guarda outros projetos em segredo.

4) Amanda Gil

Amanda Gil -  ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro

Amanda Gil costumava ler Turma da Mônica durante a infância e encontrou, na adolescência, seu gosto por mangás, como Love Hina, Sakura, Naruto e Dragon Ball. Além da leitura, Amanda ficava imersa em desenhos animados de super-heróis, mas não acontecia o mesmo com os quadrinhos do gênero. Porém, só mais tarde foi entender o porquê. A falta de representatividade feminina e a hipersexualização de mulheres nas HQ’s clássicas a afastaram desse tipo de leitura. Somente quando começou a trabalhar como ilustradora que a artista redescobriu narrativas e possibilidades por meio das criações de quadrinistas brasileiras e se interessou de verdade pela nona arte.

Em seu processo de profissionalização, Amanda enfrentou o estigma da arte não ser vista como trabalho e, portanto, não conseguiu identificar um momento em que transformou o hobby em profissão. Entre estudos e testes, a artista hoje se sente mais próxima dos formatos digitais, pela facilidade de ajustes, mas tem um carinho especial pela aquarela e está aprendendo a trabalhar com acrílica. A mistura de técnicas aliada ao objetivo de inspirar e promover reflexões acerca das vivências paraenses, também busca divertir e entreter.

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Amanda Gil
O quadrinho sobre a saudade de Belém é um dos favoritos de Amanda (Imagem: reprodução)

Atualmente Amanda Gil mora no interior do Pará, mas a capital, Belém, tem lugar especial em suas produções. A quadrinista recebe muita influência da música paraense e é apaixonada por cores, sons e sabores da capital, e toda essa paixão pela música a levou a ilustrar e animar o lyric video de Lava, single da cantora paraense Liège e um dos trabalhos preferidos de Amanda ao lado da tirinha sobre a saudade que sente de Belém. Já as influências diretas nos quadrinhos vêm de várias artistas brasileiras, como Amanda Barros, Helô Rodrigues, Ty Silva, Helo D’ângelo, Má Matiazi, Julia Bax, Mary Cagnin, Pri Barbosa e o coletivo MáTinta HQ.

Abraçada por influências femininas, Amanda também atua em dois coletivos artísticos. O primeiro é o Mulheres Artistas Pará (M.AR.), já citado por aqui, e o segundo é o Asas de Frida, composto por cinco mulheres dispostas a fortalecer outras e a compartilhar experiências por meio da arte. Para o futuro, a artista planeja uma distopia numa Belém futurista, a protagonista é a paraense Dolomita e, no momento, Amanda está focada no roteiro dessa que será sua primeira HQ longa.

3) Thainá Rodrigues

Thainá Rodrigues - ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro

Thainá Rodrigues sempre amou ilustrações de livros infantis, folheava por horas a coleção de histórias da Disney do irmão e imaginava personagens durante a contação de histórias feitas pela mãe. Já mais tarde, a jovem passou a ler quadrinhos e mangás, o que foi decisivo para que ela começasse a desenhar com mais frequência, mas ainda por hobby. Em 2013, Thai ingressou na graduação em Arquitetura e Urbanismo e no último ano da faculdade entrou para um curso de Ilustração na Escola Cândido Portinari, passo que a levou a criação da página Os Desenhos da Thai.

A artista, apesar de trabalhar com arte digital, se vê bastante apegada ao papel. Por esse motivo, seus primeiros traços são feitos no sketchbook e depois transferidos para o computador. Quando Thai pensa no que deseja criar, o foco vai para a identificação, razão pela qual os aspectos regionais são evidentes em seu trabalho.

O Amapá também está presente em suas referências, principalmente em mulheres artistas, como Moara, Luciana Rodrigues e Bea. Fora do Norte brasileiro, Thai se inspira na fluminense Isadora Zeferino, artista indicada no livro The Illustrator: 100 best from around the world da Taschen, Philippa Rice, autora de Soppy, e Rebecca Sugar, criadora de Steven Universe.

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os desenhos da thai
Ilustração feita para a revista QG Feminista. (Imagem: reprodução)

Entre os momentos decisivos de seu trabalho com ilustrações, Thai destaca o Dia das Mães de 2018. Antes dessa data, a artista recebia encomendas de maneira tímida, mas criou uma promoção de tamanho sucesso que precisou recusar pedidos em sua agenda. Por meio do feito, Thai figura hoje como referência para encomendas de desenhos e teve sua Ribeirinha Amapaense do Lo-Fi, arte que ilustra o texto, viralizada nas redes sociais. Para o futuro, Thainá Rodrigues pretende se dedicar aos estudos de animação e planeja colocar o projeto em prática durante os tempos de quarentena.

“É incrível para mim que tantas pessoas no meu estado conheçam meu trabalho ou tenham alguma arte minha em casa, que hoje em dia eu seja uma referência para outros artistas que estejam começando. Então eu acredito que busco levar boas memórias e sentimentos através do que eu crio.”

2) Beatriz Belo

Beatriz Belo -  ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro

Desde pequena, Beatriz Belo é apaixonada por quadrinhos. Tudo começou com os gibis da Turma da Mônica e com a motivação da mãe, também artista, que dava presentes de aniversário, como cadernos de desenho e lápis de cor, que despertaram o lado criativo da filha. Dessa forma, o desenho veio de maneira natural, seja reproduzindo personagens da finada TV Globinho ou trocando ilustrações com amigos na escola. Porém, Bea só foi postar suas criações recentemente ao iniciar, no Instagram, a página Milho de Vênus, anteriormente ela mantinha apenas seu perfil fotográfico.

As influências de Bea são muitas. Nos quadrinhos, Persépolis, de Marjane Satrapi, a instigou a começar na ilustração e a ensinou sobre arte como forma de resistência, mas pela música, com o punk retratado na graphic novel. Pela sonoridade, os batuques e as letras da cantora e compositora macapaense Patrícia Bastos a inspiram. Pensando em fotografia, Nay Jinkinss, fotógrafa documentarista de Belém do Pará,  traz a força e afetividade que Bea deseja incorporar em seus trabalhos.

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Memórias de família, da cultura de onde mora, experiências enquanto mulher artista são temas afetivos que permeiam as criações de Beatriz Belo. Um exemplo disso é sua série de releituras de pinturas renascentistas como se fossem deusas amazônicas. Apesar de ser um estilo de arte europeu, Bea acredita que a releitura vem como forma de colocar a identidade local em pauta dentro da arte, dando uma leitura diferente a algo que já existe. 

“Gosto de falar do poder da arte também, do seu lado político, em como ela pode ser importante na expressão de vivências, identidades, manifestação e afirmação de existência, ainda mais nesse momento em que estamos vivendo.

Acho que a arte assume uma importante via de militância dentro desse espaço colonizado que ignora culturas e nos distancia da natureza, sendo uma potência criadora e também um resgate, principalmente para nós, nortistas.”

Beatriz Belo
Para o futuro, Bea planeja uma HQ ambientada na Amazônia com protagonista feminina.(Imagem: reprodução)

Em seus traços, Bea foca na dinamicidade e reforça a importância da gentileza consigo mesma, ainda mais no início do processo. Para a artista, desprender-se dos conceitos de “arte perfeita” e comparações duras com quem já está mais adiante pode ser um bom caminho para se descobrir no processo criativo.

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Foi misturando afetividade e autodescobertas que Bea se viu criando as capas dos singles de Igarapé Elétrico, primeiro EP do irmão e trabalho preferido da artista ao lado do vídeo que fez para o projeto Casa Viva, onde fala sobre suas experiências enquanto artista, questões de lugar na arte, representação e resistência.

Atualmente, Beatriz Belo não integra nenhum coletivo. Entretanto, está por dentro do que acontece em diversas cenas artísticas de Macapá, tendo feito alguns trabalhos junto ao Festival Imagem e Movimento, festival de cinema mais antigo da Região Norte, e construído coletivamente a Matinê Delax, feira de artes e outras produções manuais que contou apenas com uma edição devido à pandemia.

Para o futuro, a multiartista tem em mente uma história em quadrinhos ambientada na Amazônia com uma protagonista feminina. O projeto está em fase de pesquisa e construção de personagens, mas com a narrativa central bem encaminhada.

1) Ty Silva

Ty Silva - ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro

Desde o colégio a artista visual amazônida Thais Silva sentia que gostaria de trabalhar com algo que envolvesse desenhar e criar produtos. Passou a infância desenhando, lendo gibis da Turma da Mônica e assistindo à série animada do Batman, que foram os primeiros passos até chegar à faculdade de Moda, onde de fato pôde se desenvolver profissionalmente. Durante a faculdade, Ty Silva fez seu TCC sobre super-heróis e, posteriormente, o mestrado focado na representatividade feminina em histórias em quadrinhos, então durante esse tempo ela consumiu muitas HQs, além de começar a trabalhar com ilustração. 

Quando finalizou a faculdade de Moda, Thais mudou-se para São Paulo com o objetivo de iniciar uma pós-graduação na área. Contudo, após seis meses de pós, ela se viu imersa no curso de ilustração da artista Catarina Gushiken e ali ficou claro que o caminho desejado era o da ilustração e não o moda.

Antes de partir para São Paulo, Ty já havia feito outros cursos em Belém voltados ao desenho, mas só teve a oportunidade de ingressar em atividades mais profissionais na capital paulista a partir de 2013, estudando no ateliê da Gushiken, na Quanta Academia, na Plein Air Studio e na Escola São Paulo. Em 2017, já estava ativa dentro da profissão ministrando aulas, produzindo encomendas e freelas para empresas, tatuando e fazendo murais em ruas e residências. Em 2018, voltou para Belém, onde começou a produzir eventos relacionados às artes visuais e também a produzir quadrinhos sob a mentoria de Volney Nazareno e do coletivo Açaí Pesado.

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Para criar, Ty Silva tem forte conexão com a aquarela, mas gosta bastante de misturar técnicas. A artista trabalha o tradicional e o digital, muitas vezes iniciando o processo no papel e depois acrescentando detalhes na tela. Muito mais do que um projeto esteticamente bonito, Ty busca trazer representatividade em seus trabalhos e fica feliz quando as pessoas sentem o que ela quer transmitir, gerando conexão entre público e obra.

Quando Thais pensa em suas referências, as produções midiáticas têm lugar especial no coração, são obras de Tim Burton, Christopher Nolan, M. Night Shyamalan, Bruce Timm, criações da Disney e do Cartoon Network, livros como Harry Potter, Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia. Já os nomes de quadrinistas e artistas da área que a inspiram são uma extensa lista formada por Lu Cafaggi, Carol Rossetti, Loish, Pri Barbosa, Mary Dimary, Maylee Mouse, Elena Garnu, Xi Zhang, Dave Mckean, Phil Noto, Cyril Pedrosa e muitos outros.

A história sobre sua ancestralidade publicada no livro "Mulheres & Quadrinhos" (Skript) é um dos trabalhos mais queridos por Ty Silva.
A história sobre sua ancestralidade publicada no livro “Mulheres & Quadrinhos” (Skript) é um dos trabalhos mais queridos por Ty Silva. (Imagem: reprodução)

Ty Silva destaca alguns momentos cruciais de sua trajetória que a influenciaram a se impor mais como mulher e como profissional, além de se envolver em grupos e causas que considera importantes e que estão explicitados em suas obras atualmente. O primeiro é o Art Battle, competição de pintura ao vivo realizada em São Paulo, onde Ty se colocou como artista em atividade no Brasil ao lado de outros profissionais. Já o segundo momento marca seu retorno a Belém, quando desenvolveu com algumas amigas o coletivo M.AR., composto por mais de mulheres artistas paraenses que buscam visibilidade e lutam contra o machismo no meio em que atuam. Através do coletivo, Ty se sente inspirada a produzir e ocupar os espaços artísticos da capital paraense, além de trocar conhecimentos e vivências com as integrantes. 

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Além do Mulheres Artistas Pará (M.AR.), a artista é editora do coletivo Açaí Pesado ao lado dos quadrinistas independentes Volney Nazareno, Ricardo Harada e Alexandre Coelho. Por meio do selo Açaí Pesado, Ty Silva desenvolveu a maioria de seus quadrinhos e o tem como escola, espaço de criação coletiva e resistência artística em Belém.

Além deles, ela ainda integra dois grupos menores, o Quadrinhistas do Norte e o coletivo Troar. O primeiro tem a função de unir os artistas da região e desenvolver possíveis publicações, já o segundo é um grupo em que Thais costuma ir para feiras com os integrantes. Ty conta que adora trabalhar em equipe, então poder participar de diversos grupos sempre a anima a criar.

Entre os trabalhos preferidos de Ty Silva estão a história sobre sua ancestralidade, publicada no livro Mulheres & Quadrinhos (Skript), e o Siga Vozes Indígenas, série de ilustrações sobre mulheres fortes admiradas pela artista e que possibilita o conhecimento de ativistas e artistas indígenas.

Atualmente, Thais se ocupa com o desenvolvimento da publicação Açaí Pesado 3, com lançamento previsto para o final do ano e financiamento via Catarse. Ela também está em um projeto de animação ao lado de Felipe Menegheti e trabalhando em uma exposição com Evaldo Vasconcelos, Sâmela Hidalgo e Larissa Palmieri.

Para ficar por dentro de todas as movimentações artísticas de Ty Silva, que sempre está envolvida em diversos projetos com a artista Moara, basta acompanhar suas redes sociais. Thais também está atuando na campanha do M.AR. em prol de angariar verbas para doação às comunidades indígenas afetadas pela COVID-19. 


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Rafaella Rodinistzky é graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela PUC Minas e atualmente cursa Edição na Faculdade de Letras da UFMG. Participou do "Zine XXX", contribuiu com a "Revista Farpa" e foi assistente de produção da "Faísca - Mercado Gráfico". Você tem um momento para ouvir a palavra dos fanzines?
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