Mulheres nos Quadrinhos: Ju Loyola

Mulheres nos Quadrinhos: Ju Loyola

A quadrinista Juliana Loyola, conhecida como Ju Loyola, nasceu em São Paulo, em 1979. Aos 3 anos, foi diagnosticada com uma surdez decorrente de uma infecção por rubéola contraída por sua mãe durante o período gestacional. Segundo afirma em entrevista concedida ao Delirium Nerd, sua surdez não impactou em sua trajetória artística, mas parece evidente que tornou seu processo de socialização, pelo menos em sua fase inicial, mais complexo, como podemos inferir a partir de um trecho de sua fala: “[…] Na infância, eu já estudava nas escolas tradicionais, eu tive dificuldades de fazer amizades e conversar por meio da leitura labial. Desde pequena, aprendo ler cada palavra e frase que sai das bocas das pessoas.”

Aprendiz de Bruxa, Ju Loyola
Aprendiz de Bruxa (Imagem: reprodução)

Os desafios à comunicação, o que inclui a limitação que muitos de nós apresenta em corresponder à interação a partir da língua de sinais (LIBRAS), não impediu Juliana de perseguir uma carreira. Ju Loyola se graduou pela Escola Panamericana de Artes e começou a produzir histórias em quadrinhos (HQs) como freelancer na década de 1990. Seu trabalho quadrinístico freelance de maior destaque foi uma contribuição para o Combo Rangers de 2002, webcomic ao estilo mangá que teve sua primeira trilogia publicada entre os anos de 2000-2004.

Como acontece com muitas quadrinistas, a imaginação artística de Ju Loyola foi cultivada a partir do acesso às HQs na infância. Juliana relembra que entre os 7 ou 8 anos já se aventurava a ilustrar seus personagens favoritos:

“Eu tinha mais ou menos 7 ou 8 anos (não lembro a conta) quando comecei a desenhar estilos diferentes como Garfield, Fido Dido, Moranguinho e tantos. Nos anos 90, Cavaleiros do Zodíaco apareceu no canal da extinta Rede Manchete (TV Aberta), eu assistia e gostava muito de desenho animado. Depois do sucesso de Cavaleiros, veio Sailor Moon, outro anime superlegal que passava no mesmo canal.

Antes de estreia de Cavaleiros do Zodíaco no Brasil, eu comecei ler quadrinhos como Fantasma, Mandrake de estilo antigo, e virei fã de Fantasma. Bem, na pré-adolescência eu gostava muito de Turma da Mônica e costumava comprava quadrinhos quando passava o caminho de casa.”

A partir dos 14 anos, Ju Loyola começou a vislumbrar sua carreira artística como quadrinista. No entanto, naquele período, acreditava que para ser quadrinista profissional era necessário compor também o roteiro escrito/diálogos. Em virtude dos desafios linguísticos, a quadrinista acabou postergando seu projeto profissional.

É importante destacar que, para a maioria dos surdos no Brasil, o português é uma segunda língua, sendo a LIBRAS a primeira. Isso se deve ao fato de a comunicação das pessoas surdas estar relacionada ao campo da visualidade, seu primeiro campo de interação.

Ju Loyola
Ju Loyola na CCXP (Imagem: reprodução)

Isso significa dizer que, por não ouvirem, os surdos se comunicam a partir da utilização da visão, ou seja, “percebem o mundo através de seus olhos e de tudo o que ocorre ao redor deles: desde os latidos de um cachorro […] até uma bomba estourando”, como é colocado pela autora Karin Strobel na obra “As imagens do outro sobre a cultura surda.” (Ed. da UFSC, 2018).

O interesse de Loyola em se tornar quadrinista foi reacendido quando, em 2013, participou pela primeira vez no FIQ – Festival internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Lá ela teve a oportunidade de trocar experiências com quadrinistas, palestrantes e editores:

“Fiquei curiosa e fui lá para conhecer o evento. Fiquei fascinada de ver que aquelas pessoas gostam de fazer quadrinhos como eu.

Eu comecei a conversar muitas coisas com pessoas novas. Isso me despertou pra me tornar quadrinista. Me esforcei muito a estudar e criar história. E tornou a realidade de ser quadrinista até hoje.”

Outra experiência marcante para Ju Loyola foi sua participação na CCXP 2015. Foi neste evento que aconteceu a estreia oficial do seu trabalho como quadrinista profissional independente. “As pessoas vieram me conhecer pessoalmente na minha estreia do meu primeiro trabalho, na CCXP 2015, e descobriram que eu era surda“, conta ela sobre a ocasião.

Quando perguntada sobre possíveis episódios de exclusão por ser surda e mulher, Juliana afirma que a exclusão acontece por ser mulher:

“[…] acho chato ser excluída por ser mulher, porque elas são muito talentosas e determinadas. Há algumas competições e rivalidade entre homens e mulheres na profissão. Percebi que a maioria são homens e poucas mulheres nos eventos e agora vem crescendo a presença de mulheres nos eventos.

Acredito que as mulheres são excelentes quadrinistas, sabem fazer quadrinhos muito melhor, e minha surdez não me impediu de ser quadrinista; quando as pessoas descobriram, ficaram surpresas, e por eu não usar muito libras, elas se comunicam comigo normalmente.”

Shoujo Bomb (Imagem: reprodução)

As narrativas silenciosas de Ju Loyola

As HQs são concebidas como uma forma de arte híbrida, isto é, são compostas a partir da combinação de textos e imagens que, juntos, complementam-se para contar uma história. No entanto, também é possível encontrar produções quadrinísticas que são chamadas “silenciosas”, o que nos desafia a superar uma concepção cristalizada desse tipo de arte.

Por HQs silenciosas compreendemos as narrativas gráficas que, para contar histórias, exploram o uso de imagens/ilustrações sem o suporte de textos/diálogos. Outra característica interessante das HQs silenciosas é que a ausência de palavras permite que a leitora amplie seu horizonte interpretativo, o que possibilita a pluralização da experiência.

Everybody can dance, Ju Loyola
Everybody can dance (Imagem: reprodução)

Neste contexto, é interessante acrescentar que as HQs silenciosas não inauguram uma modalidade artística produzida por surdos e para surdos. Trata-se de uma forma quadrinística que lança mãos apenas da ilustração para contar uma história. HQs silenciosas são produzidas e vendidas nos Estados Unidos, por exemplo, desde a década de 1960. Como exemplo, podemos destacar “Nick Fury, Agent of SHIELD #1” (1968), de Steranko, e, mais tarde, “Batman #433” (1989), de John Byrne e Jim Aparo.

No entanto, é evidente que o poder de alcance de uma HQ silenciosa pode ser, em certa medida, maior do que de uma produção quadrinística convencional com imagem e texto, pois se trata de uma forma narrativa que pode ser “lida” por pessoas que, por algum motivo, não compreendem a forma escrita da língua materna, o que inclui as pessoas surdas que foram alfabetizadas somente na língua de sinais, ou, ainda, por poderem ser lidas por pessoas de outras nacionalidades sem grandes prejuízos de entendimento.

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A carreia de Loyola como quadrinista autoral começou no ano de 2015, com a publicação da webcomicPerdida na floresta. A produção de cinco páginas traz uma narrativa gráfica silenciosa cheia de expressividade, que conta a breve história do contato entre uma jovem garota, que se encontra perdia na floresta, e uma raposa. A webcomic parece ter servido como laboratório para a artista que, logo em seguida, publicou seu primeiro quadrinho autoral no formato físico: “The Witch who loved“.

Perdida na floresta, Ju Loyola
Perdida na floresta (Imagem: reprodução)

“The witch who loved” foi publicado de maneira independente em dezembro de 2015. Trata-se de um quadrinho silencioso que conta a história de terror e romance entre uma jovem bruxa e um guerreiro. Em 2018, Ju lançou o “The Witch Who Loved 2 – The origens“, que é ambientado no período medieval. Ambas as produções revelam elementos da imaginação artística que flertou com o imaginário mítico que inspirou uma grande variedade de produções artísticas e da cultura pop.

Naquele ano, Ju Loyola participou pela primeira vez do concurso “Silent Manga Audition Contest” (SMAC), um concurso internacional de mangás organizado por uma editora japonesa para quadrinistas estrangeiros – para quem ainda não está familiarizado com o termo, mangá é uma forma de histórias em quadrinhos japonesa que possui um estilo próprio, cuja diferença mais marcante é a forma de lê-los, da direita para a esquerda, como acontece com as publicações japonesas, de forma geral.

Já na sua primeira participação no SMAC, Ju recebeu a nomeação Award Nominee pelo mangá “The Charming (Love) Gift“. O mangá foi concebido a partir do tema A charming gift e trata-se de uma história de amor juvenil. Sua segunda participação, em 2016, foi com o título “The promise of happiness, que se orientou pela temática Sakura, a flor da cerejeira celebrada no Japão. A produção rendeu-lhe uma menção honrosa.

The Witch who loved
The Witch who loved #2 (Imagem: reprodução)

Em 2017, em outra participação no SMAC, dessa vez ao lado do Walacy Machado, o mangá “Everybody can dance se orientou pela temática Fair play. Na obra de 16 páginas encontramos a história de um triângulo amoroso juvenil que inclui uma jovem cadeirante. No mesmo ano, Ju recebeu o Editor Awards por “The friend or enemy?!“, obra que aborda uma luta entre samurais que termina em amizade entre os disputantes.

Recentemente, em 2019, Ju participou de mais uma competição do SMAC. Orientada pelo tema Promise, criou, em parceira com Kaji-Pato, o mangá silenciosoI’ll be back, ambientado no contexto de guerra. Ju e Kaji-Pato contam a história de despedida, promessa e “reencontro” entre o Cachorro e seu Dono que parte para o campo de batalha. “I’ll be back” foi recebedor do título SMAC Award.

The Witch who loves #2
The Witch who loves #2 (Imagem: reprodução)

Entre outras produções de Ju Loyola, é possível destacar “Maria e Cia: Aventura das estrelas” (2016), “The imagination” (2018) e “Heart of the true friend“, esta última uma participação na primeira antologia independente intitulada “Shoujo Bomb” (2019).

Financiada pelo Catarse, “Shoujo Bomb” também se destaca por ser uma produção com uma pegada feminista e inteiramente produzida por mulheres, mas não podemos nos esquecer de mencionar a webtirasAprendiz de bruxa, com roteiro de Milena Azevedo, cujos personagens são a bruxinha Glacia e o Coelho Pompom. As tirinhas trazem uma abordagem ecológica.

Para você que ficou interessado em conhecer os trabalhos de Juliana Loyola, ela estará presente na CCXP19 com um painel sobre inclusão e mulheres.

I'll be back
I’ll be back (Imagem: reprodução)

Enquanto você não tiver voz, você não existirá

Neste texto, trouxemos à tona a surdez de Juliana Loyola. A razão pela qual optamos por mencionar sua condição é a oportunidade de tornar público que o povo surdo não se limita à sua surdez e que a surdez, assim como toda a cultura surda, não pode continuar sendo estigmatizada, marcada como diferente ou inferior. Sobre essa questão, frisamos que a atribuição de inferioridade aos não ouvintes, ao diferente, parte daqueles que ouvem. Para estes que ignoram a existência de uma cultura surda, os surdos não se comunicam.

Vislumbramos também que outros surdos travem contato com trajetórias de sucesso com as quais possam se identificar, pois, como já é sabido, aquilo que não vemos ou não ouvimos falar pode se passar por inexistente. Ao ignorá-los, corremos o risco de lançar as produções desenvolvidas por pessoas surdas à invisibilidade.

Em certo sentido, podemos comparar a produção cultural surda com a própria produção cultural desenvolvida por mulheres. Durante muito tempo, acreditou-se que mulheres não produziam literatura ou não produziam histórias em quadrinhos, por exemplo. Em virtude da tentativa de monopólio intelectual e artístico masculino, grandes trabalhos femininos foram invisibilizados. Esses esforços de invisibilização nos impedem de estabelecermos um contato profundo e diversificado com a experiência humana, especialmente com a experiência artística.

Embora a experiência como surda não tenha significado uma barreira à sua imaginação artística e à sua visibilidade profissional – Ju Loyola não sofreu com o capacitismo (ou ableism, como estudiosos preferem chamar) -, esta não é, infelizmente, uma realidade para muitos dos surdos, brasileiros pelo menos.  

Durante muito tempo, as pessoas surdas foram pensadas apenas como “deficientes”. Diante deste sentimento, para se sentirem incluídos, os sujeitos surdos precisariam se adequar aos arranjos culturais dos não surdos, representados como a norma. Entre todas as adequações que muitos surdos foram, direta ou indiretamente, forçados a se engajarem, podemos mencionar a internalização da língua verbal do idioma em que estavam inseridos através da forma escrita, as leituras labiais e a vocalização para se fazerem entender.

Mais recentemente, as estudiosas surdas Amy Elizabeth Brusky e Karin Strobel começaram a disseminar a ideia de que a surdez não é necessariamente uma doença que precisa ser curada, mas uma subcultura linguística única que precisa ser respeitada em sua especificidade.

A partir do interesse em contribuir com a mensagem da comunidade surda e com a visibilidade artística de mulheres surdas é que aproveitamos deste espaço para divulgar a trajetória artística da talentosa Juliana Loyola. Ju é uma referência para todas nós que desejamos alargar nosso contato com a cultura quadrinística feminina e, ao mesmo tempo, uma representante da criatividade da comunidade surda brasileira.

No vídeo abaixo, a instrutora de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), Jeissy Ellen Barbosa Cardoso, conta um pouco da história de Ju Loyola em LIBRAS.


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

Jaqueline Cunha é Pesquisadora de Histórias em Quadrinhos de autoria feminina, Mestra em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Goiás, graduada em Letras Português/Inglês pela Universidade Estadual de Goiás e membro da Associação de Pesquisadores de Arte Sequencial (ASPAS). Jaqueline também se interessa por temas relacionados a Literatura, cinema e estudos acerca dos feminismos, identidades de gênero e sexualidade.
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