O cinema do oriente médio e a revolução silenciosa das mulheres

O cinema do oriente médio e a revolução silenciosa das mulheres

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Quando pensamos em indústria cinematográfica e em todos os seus grandes e épicos filmes geralmente voltamos o nosso pensamento aos longas europeus e norte-americanos. Mas qual é o porquê disso acontecer?

Um termo que pode-se aplicar nessa situação é a colonização. Por todo o nosso contexto histórico, não só brasileiro, mas como grande parte do mundo, nós somos culturalmente educadas à compreender o eurocentrismo e o etnocentrismo norte-americano como o modo de pensar correto, majoritário e dominante. Vemos assim que o processo de colonização da África, Ásia e América-Latina foram essenciais para a formação do nosso pensamento enquanto cidadãs de qualquer parte do mundo.

Assim, nesse quadro marcado não somente pela colonização europeia, mas também, nos últimos anos, com a globalização disseminando o modo ocidental norte-americano como o modo de vida preciso e correto, o cinema entra como uma das formas que se encaixam nesse processo de nos afastarmos de qualquer forma de cultura e de pensar que não seja interligada aos ideais europeus e norte-americanos do nosso pensamento.

A necessidade de descolonizarmos o olhar

O cinema, como forma de arte e entretenimento, encaixa-se perfeitamente em um dos principais instrumentos veiculares de disseminação desses ideais. Basta pensar no que consumimos enquanto pessoas desde que éramos crianças. As séries americanas da Nick, Disney Channel, e também de outros canais americanos populares, moldaram os nossos pensamentos desde o momento que começamos a consumir esse tipo de conteúdo. Passamos a naturalizar, assim, o modo de vida americano e europeu como o natural e o correto. E com isso, entramos em um processo de que suas supostas naturalidades nada se encaixam na nossa cultura, não só ligadas à América Latina, mas o próprio Oriente como um todo é invisibilizado e colocado como uma não-visão, uma não-cultura. 

Por conta disso, é necessário entrarmos em um processo de descolonização do pensamento, de enfrentarmos os desafios colocados pelo eurocentrismo e todos esses ideais ocidentais ligados aos Estados Unidos como um modo de pensar totalizante.

Por conta da colonização vivemos, temos um desenvolvimento do nosso imaginário de que formas não ligadas ao pensamento dominante são erradas, e que devemos nos afastar. Isso explica porque muitas pessoas nunca sequer viram um filme oriental em suas vidas, ou constroem a opinião de que o cinema nacional, africano são ruins, isto porque não há uma valorização das nossas formas de pensar, da nossa cultura e práticas.

E no que isso se encaixa com o tema do texto? No que se assemelha ao tema do feminismo no cinema do oriente médio?

A falta de informação sobre a religião muçulmana e sobre a cultura oriental, de um modo geral, acaba por gerar uma série de estigmas e preconceitos com relação à estes, especialmente quando na mídia, após o 11 de setembro e a Guerra ao Terro,  o muçulmano aparece apenas como membro de grupos extremistas fundamentalistas ou enquanto mulheres como sujeitas apenas oprimidas e silenciadas.

Entretanto, nesses espaços não somente existe uma forma de revolução nos termos dos papéis sociais colocados aos homens e mulheres, o que alguns autores chamam de revolução silenciosa, mas um movimento feminista articulado com suas pautas e demandas.

O cinema do oriente médio e o feminismo 

O Oriente Médio possui um dos movimentos feministas mais antigos já criados. Teve sua primeira aparição em 1890, no Egito e na Turquia, e desde então se espalhou por todo o mundo muçulmano. No entanto, ganhou força nos anos 1920 com a criação de um dos primeiro grupos feministas, a União das Feministas Egípcias feito pela ativista e feminista Huda Sha’rawi. Com isso, o movimento feminista se expandiu nos principais países do oriente médio, e isso também transformou o cinema diretamente.

Com essas transformações diretas no ideário do patriarcado e do machismo no oriente médio, vieram longas e curtas dirigidos por mulheres com o intuito de colocar, mesmo que de maneira mais sutil do que costumamos ver no cinema hollywoodiano e europeu, suas demandas e seus questionamentos no modelo ideal de mulher enquanto esposa e mãe, sendo submissa a qualquer tipo de figura paterna e masculina. 

Desse modo, preparamos um pequeno guia de iniciação ao cinema do oriente médio, que possui temáticas sobre o papel da mulher na sociedade e que levantam, de uma forma simples mas direta, sobre o feminismo nesses espaços.

O Dia em que me Tornei Mulher (2000) – Dir. Marzieh Makhmalbaf

O Dia em que me Tornei Mulher (2000) - Dir. Marzieh Makhmalbaf
O Dia em que me Tornei Mulher (2000) – Dir. Marzieh Makhmalbaf. (Imagem: reprodução)

O longa “O Dia em que me Tornei Mulher”, com direção e roteiro da iraniana Marzieh Makhmalbaf, tem como cenário três fábulas sobre diferentes mulheres em momentos distintos de suas vidas. A primeira delas, Hava, uma criança, completa aniversário, e devido à chegada da idade precisa tornar-se uma mulher, o que implica começar a usar um véu, bem como também, não pode mais brincar com seu amigo, precisando ficar reclusa à sua casa; a segunda, Ahoo, participa de uma competição de ciclismo, e devido a isso é perseguida por seu marido e todos os homens ligados à sua vida; a última, Hoora, é uma senhora em idade idosa que finalmente pode comprar tudo com o que sempre sonhou e pede que tudo seja entregue numa praia, que será seu lar ideal e sua última morada.

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São três gerações de mulheres marcadas pelo imaginário do pecado. Todas em confronto com a idealização do que deve ser uma mulher na sociedade. Mesmo abordando situações cotidianas que aparentam ser comuns e rotineiras, essas histórias expressam simbologias e metáforas intensas sobre a necessidade da libertação das mulheres. 

O filme é tocante em sua simplicidade, em seu visual e sua trilha sonora. No fim do filme, é impossível não se sentir sensibilizado por aquelas histórias.

O Sonho de Wadja (2012) – Dir. Haifaa Al-Mansour

O Sonho de Wadja (2012) - Dir. Haifaa Al-Mansour
O Sonho de Wadja (2012) – Dir. Haifaa Al-Mansour. (Imagem: reprodução)

Wadja é uma garotinha de dez anos de idade e que mora no subúrbio de Riade, a capital da Arábia Saudita. Ela é uma garota perspicaz e cheia de vida, que gosta naturalmente de brincar com os garotos. Um dia, após uma disputa com seu amigo Abdullah, ela vê uma bela bicicleta à venda e que gostaria de comprar para brincar com o seu colega. Entretanto, na sociedade conservadora onde vivem, garotas não podem dirigir carros ou pedalar bicicletas. Mas, mesmo assim, ela decide então fazer de tudo para conseguir o dinheiro sozinha.

O filme é um passeio através do sonho de uma menina que foge completamente do padrão que se é esperado das mulheres naquele momento e naquele lugar. Além do sonho proibido da bicicleta, quando vai a escola a menina tem que se deparar com uma série de imposições que confrontam diretamente seu jeito e sua identidade: “A voz da mulher não deve ser ouvida pelos homens lá fora. A voz da mulher é a nudez dela”, ouve Wadjda em sua escola. As mulheres não devem ser ouvidas e muito menos vistas. “Se a gente vê os homens, eles veem a gente. Meninas de respeito não são vistas”. 

No entanto, a garotinha, assim como sua criadora, a cineasta saudita Haifaa al-Mansour, ignora todas essas proibições e persegue seu sonho com perseverança. Este é o primeiro filme escrito e realizado por uma mulher saudita. É também o primeiro totalmente filmado no país.

“O Sonho de Wadjda” foi aplaudido pela crítica e arrecadou vários prêmios internacionais, entre eles o CinemAvvenire e o C.I.C.A.E. & Prémio Interfilm no Festival de Veneza, e ainda recebeu uma nomeação para o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro. Emocionante e necessário.

E Buda Desabou de Vergonha (2007) – Dir. Hana Makhmalbaf

E Buda Desabou de Vergonha (2007) - Dir. Hana Makhmalbaf
E Buda Desabou de Vergonha (2007) – Dir. Hana Makhmalbaf. (Imagem: reprodução)

O longa nos conta a história da jovem Bakhtai (Nikbakht Noruz), de apenas 6 anos que, instigada por seus vizinhos que já sabem ler, decide ir para uma escola de meninas que abre do outro lado do rio. O que aparenta ser uma situação muito simples para nós, ocidentais, na verdade mostra-se muito complexa onde a garotinha vive.

Em Bamiyan, cidade do Afeganistão, uma cidade repleta de estátuas de Buda que foram destruídas pelo Talibã, as mulheres não recebem qualquer incentivo para estudo, para trabalharem ou até mesmo o mero ato de sair de suas casas. A dificuldade começa, desse modo, na falta de material. A garotinha sai pelo mercado com quatro ovos na tentativa de vendê-los para comprar os objetos necessários.

No meio do caminho, dois deles quebram, fazendo com que só consiga dinheiro para um caderno. Mas ela não está disposta a desistir, e tem a brilhante ideia de usar o batom de sua mãe como lápis, seguindo em sua jornada. Entretanto, no meio do caminho para a escola de meninas, ela encontra um grupo de garotos encenando como se fossem do talibã, que a fazem de prisioneira por levar consigo um batom – algo visto como pecaminoso e absurdo naquela cultura.

E Buda Desabou de Vergonha”, com direção de Hana Makhmalbaf e roteiro de Marzieh Makhmalbaf (“O Dia em que me Tornei Mulher”), é um filme que deixa um gosto amargo na boca da espectadora. Não é um longa nada fácil ou simples, mas que vale a pena cada segundo por suas reflexões.

Caramelo (2007) – Dir. Nadine Labaki

cinema do oriente médio
Caramelo (2007) – Dir. Nadine Labaki. (Imagem: reprodução)

Um salão de beleza em Beirute, capital do Líbano, é o paraíso para cinco mulheres. Em “Caramelo”, filme dirigido pela diretora libanesa Nadine Labaki, a dona do salão, Layale (Nadine Labaki), consulta suas funcionárias sobre um problemático caso de amor; a estilista Rima não sabe como lidar com a sua atração por uma cliente e a costureira Rose abandona suas próprias ambições e sonhos para cuidar de sua família. Nessa comédia, as mulheres se reúnem para resolver questões sobre o amor, sonhos e suas vidas. 

São mulheres bem diferentes mas que compartilham uma coisa em comum: encontrarem-se no salão. A partir dessa narrativa, conhecemos as diferentes facetas do que é ser mulher no Líbano. Mesmo com a narrativa divertida e personagens carismáticas, o longa consegue trazer questões complexas e interessantes de se discutirem sobre a mulher no oriente médio.

 

Imagem destacada: Cena do filme “O Dia em que me Tornei Mulher”.


Edição realizada por Isabelle Simões (também apaixonada por cinema do oriente médio e descendente de família muçulmana da Síria)

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Autora

Estudante de Direito, nordestina, pode falar sobre Studio Ghibli e feminismo por horas sem parar, amante de cinema e literatura (ainda mais se feito por mulheres), pesquisadora, acumuladora de livros e passa mais tempo criando listas inúteis do que gostaria.
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