Shirley: um retrato perturbador sobre Shirley Jackson

Shirley: um retrato perturbador sobre Shirley Jackson

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Shirley Jackson (1916-1965) é reconhecidamente uma das maiores escritoras de horror americanas. Seu livro “A assombração da Casa da Colina” (no original, The Haunting of Hill House, 1959) é considerada uma das melhores histórias de terror já escritas. Seu conto “A Loteria” (1948), uma história perturbadora sobre um apedrejamento numa cidadezinha americana, é hoje parte do currículo de leitura do ensino fundamental americano. Ela também é reconhecida como influência por escritores contemporâneos como Neil Gaiman e Stephen King.

Jackson, porém, sofreu com a misoginia de seus pares desde suas primeiras publicações, já que este círculo literário era majoritariamente masculino, o que fez com que ela recebesse críticas cruéis.

Shirley Jackson (à esquerda), interpretada por Elizabeth Moss (à direita), no filme Shirley (2020).
Shirley Jackson (à esquerda), interpretada por Elizabeth Moss (à direita), no filme Shirley (2020). Fonte: divulgação

Casada e mãe de quatro filhos, ela se desdobrava para balancear sua carreira de escritora com as responsabilidades domésticas. Ela ainda escrevia para revistas femininas falando sobre sua vida como dona-de-casa, o que, somado ao preconceito da crítica que sempre classificou a literatura de horror como uma literatura “menor”, contribuiu para que Jackson demorasse para ser devidamente reconhecida como uma grande escritora.

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Shirley Jackson também era uma mulher reclusa e com uma vida pessoal complicada e que usou da ficção para exorcizar muitas de suas angústias. Um tema recorrente de sua obra é a casa, como lugar que deveria a oferecer segurança, mas que na verdade esconde um mal.

É neste ponto em que o filme Shirley (2020) converge, tocando em vários aspectos da vida pessoal de Jackson e mesclando-os com elementos de suas obras. O resultado é um filme biográfico particular, com ares de terror psicológico. O filme é uma adaptação do livro Shirley: “A Novel” (2014), de Susan Scarf Merrell. A produção do longa teve também uma equipe majoritariamente feminina na direção, conduzida por Josephine Decker, além de roteiro (Sarah Gubbins), trilha-sonora (Tamar-kali) e três produtoras executivas junto com Martin Scorsese.

No filme e livro, Shirley (Elisabeth Moss) e seu marido, o crítico literário Stanley Edgar Hyman (Michael Stuhlbarg), recebem os recém-casados Fred (Logan Lerman) e Rose Nemser (Odessa Young), que se mudaram para a cidade de Bennington para que Fred pudesse trabalhar como assistente de Hyman.

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Enquanto Fred ocupa-se com sua tese e carreira acadêmica, Rose começa a desenvolver uma amizade turbulenta com Shirley. Shirley passa por um bloqueio criativo e uma síndrome do pânico que a impede de sair de casa. Ela começa a desenvolver uma certa obsessão pelo desaparecimento de uma estudante universitária em Bennington e por Rose. Ao mesmo tempo, Rose encontra-se refém de sua situação, tendo que ficar hospedada na casa de estranhos, cujo relacionamento tóxico parece contagioso.

Elisabeth Moss (que também foi uma das produtoras) interpreta uma Shirley Jackson que sabe ser perversa e cativante – tanto com seu marido, tanto quanto com a recém-chegada, Rose.

Stanley e Shirley tem um casamento amargurado, onde estabeleceu-se ali uma relação de dependência das quais ambos têm ressentimento. Em momentos privados e em público o casal troca farpas e comentários ácidos, competindo entre si para ver quem fere mais o outro com suas palavras.

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Michael Stuhlbarg e Elisabeth Moss em cena de "Shirley" (2020).
Michael Stuhlbarg e Elisabeth Moss em cena de Shirley. Foto: Thatcher Keats

E apesar de já parecer ruim na ficção, na realidade o casamento de Jackson e Hyman era ainda pior: além de amargurado pelo fato dela ter obtido sucesso com seus livros (a ponto de ser a principal fonte de renda de casa), Hyman era infiel e abertamente falava de seus casos com a esposa, fazendo com que Jackson tivesse episódios de ansiedade e depressão, que foram se agravando ao longo dos anos. Não obstante, ela passou a vida sem conseguir reunir coragem para se separar dele.

É preciso dizer também que Shirley não era uma mulher fácil. No filme, ela ativamente perturba Rose, como se torturá-la fosse um meio de entreter-se para se sentir menos miserável. Em outros momentos, a acolhe e age como sua mentora.

Elisabeth Moss e Odessa Young em cena de "Shirley".
Elisabeth Moss e Odessa Young em cena de Shirley. Fonte: divulgação

Rose, por outro lado, é jovem e inocente em vários sentidos. Ao questionar seu marido por voltar tarde e bêbado pra casa, ela aceita suas desculpas e suas investidas para iniciar relações sexuais. Ela aceita, mesmo que visivelmente desconfortável, o pedido de Stanley para que “ajude” nas tarefas domésticas – aliás, essa cena também define que tipo de marido Fred é.

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Como em muitas das obras de Jackson, o filme explora as personagens de Shirley e Rose como personalidades opostas, mas que aos poucos começam a se fundir. Recheado de devaneios, às vezes é difícil distinguir o que é delírio  e realidade no filme. Este aspecto é uma alusão à obra que a própria Shirley está escrevendo, “Hangsaman”, sobre uma jovem que aos poucos descende à loucura após entrar na universidade.

Desse modo, Shirley é um filme biográfico singular. De maneira genial, a obra mescla a vida de Jackson com elementos de suas obras. E embora o trailer dê a impressão de que este é um filme de terror (poderia facilmente ser o trailer de uma história de Jackson), os componentes de terror que prevalecem são na verdade o desconforto e a angústia, produtos das relações entre as pessoas. No entanto, a única certeza é sobre qual o mal que assombra Shirley e Rose: um mundo controlado por homens, por mais medíocres que eles sejam.


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Autora

Bióloga, doutora em Imunologia. Entre um paper e outro, investe seu tempo em games, livros e filmes. Fã de Neil Gaiman, Legend of Zelda, filmes do Studio Ghibli e recomenda podcasts sem ser perguntada.
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