“O Silêncio da Casa Fria” e os diferentes fantasmas que assombram mulheres

“O Silêncio da Casa Fria” e os diferentes fantasmas que assombram mulheres

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Em “O Silêncio da Casa Fria“, Elsie torna-se viúva pouco tempo após o casamento. Grávida, e acompanhada por Sarah, prima de seu falecido marido, ela se muda para a casa de campo da família, que por muito tempo esteve vazia. A casa e a família Bainbridge não são bem vistos no vilarejo, devido a rumores acerca de mortes de empregados no passado.

Pouco tempo após sua chegada, Elsie e Sarah descobrem no sótão tábuas de madeira pintadas como pessoas, conhecidas como companheiros silenciosos, usados nos séculos anteriores como decoração. Mas algo sobre os companheiros é inquietante. Estariam eles de fato acompanhando os movimentos de Elsie com seus olhos pintados? Teriam sido recolocados em um novo cômodo, mesmo ela tendo certeza que os vira noutro ambiente no mesmo dia?

Este romance gótico da escritora inglesa Laura Purcell chega ao Brasil pela editora Darkside Books, com tradução de Camila Fernandes.

Capa da edição brasileira da Editora Darkside. Fonte: Darkside

Os companheiros silenciosos do título original The Silent Companions, eram pinturas em madeira representando pessoas, em tamanho real, e usadas como decorações de lareira ou até para pregar pegas em visitantes. Elas foram populares na Holanda do século 17, mas também chegaram a ser usados na Inglaterra do século 18. 

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A figura de uma mulher descascando maçãs, usada como decoração. Fonte: The National Trust.

A real função dessas figuras ainda é motivo de debate, mas historiadores acreditam que os companheiros eram utilizados para passar mensagens aos visitantes que chegavam na casa. Uma servente com uma cesta de frutas, por exemplo, representaria um sinal de boas vindas, enquanto a figura de um soldado representaria que a casa está bem protegida. Há também a hipótese de que fossem utilizados apenas como decoração, ou para tapar a lareira no verão.

Figura de uma uma menina com uma cesta de maçãs, datada da segunda metade do século 17, que hoje se encontra no Castelo de Chirk, no País de Gales. Fonte: The National Trust.

A verdade é que a mera presença dos companheiros silenciosos na trama já nos instiga a leitura. Mas se só isso não for suficiente, O Silêncio da Casa Fria é uma excelente história de fantasmas, ambientada na Era Vitoriana. E ao contrário de muitas obras desse gênero, que cada vez mais tentam explicar todo tipo de detalhe da trama, o livro não explica tudo. Algumas informações aparecem com sutileza, pingadas ao longo de vários capítulos, para que a leitora chegue às conclusões sozinha.

É difícil falar de um livro sobre que quanto menos se sabe, mais cativante é a leitura. E isso Purcell faz com sucesso: cada capítulo te deixa mais curioso sobre a casa, os companheiros, as pessoas envolvidas. A história vai se revelando aos poucos, o que ajuda a compor a atmosfera de terror, e a inquietação de que alguma coisa está errada é constante.

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A figura de uma servente, datada do começo do século 18, que hoje fica numa mansão na região de Clifton Hampden (Inglaterra). Fonte: Luke Honey.

A questão é, o que está errado? Elsie não teve uma vida fácil e quanto os fantasmas de seu passado afetam sua vida no presente? Somado a isso, Purcell usa todos os elementos de uma história gótica que estão a seu alcance: a casa antiga, o vilarejo decrépito, famílias com passado turbulento, mortes misteriosas, muita neblina e isolamento. E no topo disso tudo: os companheiros silenciosos, que são assustadores por natureza.

Essa ambientação lembra muito as histórias de fantasmas de Susan Hill (como “The Woman in Black”), com elementos de “A Volta do Parafuso”, de Henry James, no que diz respeito às dúvidas sobre a realidade. Ao contrário da sutiliza desses outros autores, Purcell traz um pouco de gore em O Silêncio da Casa Fria – nada muito descritivo ou explícito, mas ela dá ares de terror mais moderno à história, ao invés de permanecer no gótico clássico.

Uma pequena decepção sobre o livro é que Purcell peca ao inserir muitos elementos na história – todos interessantes – mas que não são desenvolvidos tão bem na trama, e ficam apenas como plano de fundo.

A autora Laura Purcell
A autora Laura Purcell. Imagem: reprodução

Ainda que histórias de fantasmas na Era Vitoriana pareça um tema batido, a novidade dos companheiros silenciosos que Laura Purcell traz em O Silêncio da Casa Fria, e os mistérios que são revelados ao longo dela, são um deleite para qualquer pessoa que se interesse por romances góticos.


O Silêncio da Casa Fria

Laura Purcell

Dakside Books

242 páginas

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Bióloga, doutora em Imunologia. Entre um paper e outro, investe seu tempo em games, livros e filmes. Fã de Neil Gaiman, Legend of Zelda, filmes do Studio Ghibli e recomenda podcasts sem ser perguntada.
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