Vera Brittain: conheça a autora que enfrentou a Primeira Guerra Mundial

Vera Brittain: conheça a autora que enfrentou a Primeira Guerra Mundial

“O quão sortudos éramos nós que ainda tínhamos esperança eu não percebi na época; eu não tinha como saber que em breve viria o tempo em que nós não teríamos mais esperança alguma, e mesmo assim seríamos incapazes de morrer”. – Vera Brittain

Assim Vera Brittain, em seu famoso Testamento de Juventude, descreveu a transformação que tomou conta dela, de seus pares e de toda a chamada Geração Perdida durante os quatro anos em que a Primeira Guerra Mundial foi travada.

A juventude de Vera Brittain

Nascida em Newcastle-under-Lyme, na Inglaterra, em 1893, Vera Brittain era filha de Arthur Brittain, diretor das fábricas de papel da família em Hanley e Cheddleton, e de sua esposa, Edith Brittain.

A família se mudou para Macclesfield, em Cheshire, quando Vera tinha um ano e meio; uma década depois, mudaram-se novamente para a cidade-spa de Buxton, em Derbyshire. De classe média alta, Vera recebeu excelente educação.

Seu único irmão, Edward Brittain — dois anos mais jovem —, era também seu melhor amigo. Os dois permaneceram próximos mesmo quando Vera, aos 13, foi estudar em um internato em St. Monica’s, Kingswood, Surrey, onde sua tia era co-diretora.

Em 1914, Vera conseguiu superar as objeções do pai e ingressou no Somerville College, em Oxford, para estudar Literatura Inglesa. Sua vida universitária durou pouco: a Grande Guerra havia começado, e ela passou a sentir que seus estudos eram inúteis em um mundo no qual seus contemporâneos homens partiam para lutar.

No verão de 1915, apenas um ano após ingressar na universidade — um triunfo acadêmico e pessoal pelo qual ela havia lutado —, Vera trancou o curso para trabalhar como enfermeira do VAD (Voluntary Aid Detachment), atividade que desempenharia por quase toda a guerra.

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Trabalho como enfermeira e a morte de Roland Leighton

Retrato clássico de uma mulher com cabelo castanho escuro e penteado vintage, com expressão serena, em tom sépia.
Vera Brittain | Reprodução

Vera serviu inicialmente no hospital de Devonshire, em Buxton, e depois em Londres, em Malta e na França, onde a Frente Ocidental estava concentrada. Ao longo do serviço, testemunhou inúmeros horrores nos campos de batalha e nas barracas de feridos.

Uma experiência marcante foi o período em que trabalhou próxima ao front em Étaples, cuidando de prisioneiros de guerra alemães — vivência que influenciaria profundamente sua defesa posterior do pacifismo e do internacionalismo.

Foto antiga de três jovens soldados uniformizados, sentados em uma pose casual, com expressão séria.
 Edward Brittain, Roland Leighton e Victor Richardson | Reprodução

Durante a adolescência, Vera se tornou muito próxima de Roland Leighton, amigo de seu irmão. Leighton era um estudante brilhante e escritor promissor que sonhava em se tornar editor-chefe. Os dois ficaram noivos em agosto de 1915, e o poema “Violetas”, o mais conhecido de sua breve carreira como poeta de guerra, foi escrito para ela.

Roland foi morto poucos meses depois, em dezembro de 1915, aos 20 anos, ao levar um tiro no estômago de um sniper alemão enquanto inspecionava o arame farpado de sua trincheira.

Sua morte foi um golpe devastador para Vera, que o eternizaria em Testamento de Juventude e escreveria vários poemas dedicados a ele publicados em Versos da V.A.D. e Por que você morreu.

Mortes de Geoffrey Thurlow e Victor Richardson

Imagem histórica de um jovem soldado militar em uniforme antigo, usando chapéu e expressão séria.
Roland Leighton | Reprodução

Roland não foi a única perda dolorosa. Em 1917, morreram também dois amigos muito próximos: Geoffrey Thurlow, em ação em Monchy-le-Preux, e Victor Richardson, em decorrência de ferimentos sofridos em Arras.

A situação de Richardson foi traumática: ele levou um tiro atrás do olho esquerdo, que precisou ser removido, e perdeu também a visão do direito, ficando completamente cego. Apesar do bom humor e da resistência que demonstrou ao longo de meses, morreu repentinamente após a ruptura de um abscesso cerebral, aos 22 anos.

Vera voltou para casa ao saber da morte de Thurlow e dos graves ferimentos de Richardson, passando vários dias ao lado dele. Muitos chegaram a acreditar que ela pretendia se casar com Richardson e dedicar-se a cuidar dele pelo resto da vida.

Imagem de mulher (Vera Brittain) com chapéu, vestindo camisa de manga longa, em preto e branco, com expressão séria e olhar direto para a câmera.
Vera Brittain atuou como enfermeira na Primeira Guerra Mundial (Hulton/Getty)

Morte de Edward Brittain

A perda mais devastadora para Vera, porém, foi a de seu irmão Edward. Ele escapou da morte no Somme após ser gravemente ferido, mas continuou liderando seus homens até ser novamente atingido e incapacitado.

A morte dos amigos Thurlow e Richardson o transformou, deixando-o deprimido, sério e isolado. Depois de um longo período de recuperação, Edward voltou ao serviço e foi enviado à Frente Italiana, onde, em 1918, levou um tiro na cabeça e morreu instantaneamente.

Retrato de um homem em perfil, vestindo uniforme militar antigo, com cabelo arrumado para trás, expressão séria, em foto preto e branco.
Irmão de Vera, Edward Brittain | Reprodução

Muitos que o conheciam — incluindo seu oficial superior e a própria Vera — interpretam sua morte como uma forma de suicídio.

Dias antes, a censura do exército havia descoberto uma carta na qual Edward admitia relações homossexuais com homens de sua companhia; seu comandante, que simpatizava com ele, avisara-o de que seria levado à corte marcial ao fim da guerra.

Acredita-se que Edward tenha se exposto deliberadamente ao fogo inimigo para evitar o julgamento e a vergonha que cairia sobre a família. Vera resistiu inicialmente a aceitar essa hipótese, mas acabou convencida após conversar com a mãe e com o tenente-coronel que havia alertado Edward.

Mais tarde, trataria o tema no romance Estado de Honra. Ela jamais superou completamente sua morte.

Muitas das cartas trocadas entre Vera, Roland, Thurlow, Richardson e Edward foram publicadas em Cartas de uma Geração Perdida.

As cartas de todos são um excelente retrato do espírito da época. Leighton descreve, representando toda uma geração de estudantes que se voluntariaram, a necessidade que muitos sentiam de assumir um papel ativo na guerra.

Mais tarde, tanto ele quanto os outros três escrevem sobre as decepções que rapidamente sofreram, e sobre como perderam todo o entusiasmo, a admiração e a esperança pelo conflito em pouquíssimo tempo.

A vida de Vera Brittain no pós-guerra

Imagem histórica de um homem e uma mulher (Vera Brittain) sentados em um banco de parque, na época antiga, em preto e branco, sugerindo um momento de descanso ou convivência ao ar livre.
Vera e Edward em 1915 | Reprodução

Vera retornou a Oxford em 1919 para cursar História, mas encontrou grande dificuldade em se adaptar à vida em uma sociedade pós-guerra, tendo sido ela própria uma “sobrevivente da guerra”.

Nesse sentido, suas experiências guardam semelhança com o isolamento descrito por muitos veteranos que lutaram e retornaram para casa sentindo-se totalmente alheios à sociedade.

Vera se casou em 1925 com o cientista político George Catlin, três anos mais novo que ela, com quem teve dois filhos: John e Shirley. O relacionamento entre John e Vera se deteriorou gradativamente à medida que ele envelhecia.

Ele foi artista, pintor, homem de negócios e, postumamente, autor, já que sua autobiografia, Quarteto Familiar, foi publicada em 1987. Shirley, por sua vez, foi ministra do Gabinete Trabalhista, parlamentar liberal-democrata e integrante da Gangue dos Quatro — um grupo dissidente da ala social-democrata do Partido Trabalhista que fundou o SDP em 1981.

Carreira literária controversa

Retrato em preto e branco de uma mulher jovem (Vera Brittain) com cabelo escuro e expressiva.

O primeiro livro de Vera, A Maré Sombria (1923), causou escândalo ao retratar colegas de Oxford de forma facilmente identificável e negativa. Em 1933, publicou Testamento de Juventude, obra que a tornaria mundialmente conhecida. Depois escreveria Testamento de Amizade e Testamento de Experiência.

Suas obras de ficção frequentemente lhe causavam problemas familiares, por se basearem de forma extremamente explícita em experiências reais. Estado de Honra, considerada por muitos sua melhor ficção, foi também a mais polêmica, expondo conflitos familiares, um caso extraconjugal, amizades rompidas e a morte do irmão — tudo com nomes alterados, mas pouco disfarçados.

Os diários de Brittain referentes aos anos de 1913 a 1917 foram publicados em 1981 sob o título Crônicas de Juventude. Críticos observaram que Testamento de Juventude difere consideravelmente de muitos dos registros feitos por Vera nesse período.

Seus diários revelam que sua atitude em relação à guerra — apresentada de forma marcadamente dura em sua autobiografia — era, na época, mais branda e alinhada ao sentimento predominante durante o conflito.

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Vera pacifista

Imagem histórica de duas mulheres jovens ao ar livre, com árvores ao fundo.
Winifred Holtby (à esquerda) e Vera Brittain em 1923. Fotografia: Somerville College, Oxford.

Na década de 1920, Vera se tornou uma jornalista de destaque em diversos jornais e também uma palestrante regular da União da Liga das Nações, defendendo a ideia de segurança coletiva.

Em junho de 1936, foi convidada a falar em um evento pela paz ao lado de vários pacifistas renomados e, em janeiro de 1937, tornou-se integrante da Peace Pledge Union, a maior organização pacifista da Grã-Bretanha.

Mais tarde, também se uniu à Irmandade Pacifista Anglicana, aprofundando cada vez mais seu envolvimento no movimento e assumindo um pacifismo cada vez mais cristão. Ao longo da década de 1930, foi colaboradora frequente — e, posteriormente, editora — da revista pacifista Peace News.

Imagem em preto e branco de duas mulheres, uma mais velha e outra mais jovem, em um ambiente doméstico.
Shirley Williams (filha) e Vera Brittain | Reprodução

O papel de Vera Brittain na Segunda Guerra Mundial

Durante a Segunda Guerra Mundial, Vera atuou como guarda de incêndio, iniciou a série Cartas para Amantes da Paz e viajou pela Inglaterra levantando fundos para a campanha de alívio da fome da Peace Pledge Union.

Nos anos finais da guerra, ela não era particularmente popular, pois havia criticado, em seu livro Semente do Caos (também publicado como Massacre por Bombardeio), a utilização de bombardeios de saturação em cidades alemãs.

Para os nazistas, ela também era persona non grata: seu nome estava entre os quase 3.000 incluídos no Livro Negro, com pessoas que deveriam ser presas imediatamente caso a Inglaterra fosse invadida.

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Do colonialismo ao desarmamento nuclear

Entre as décadas de 1950 e 1960, Vera Brittain escreveu inúmeros artigos contra o colonialismo e o apartheid, e em defesa do desarmamento nuclear. Em novembro de 1966, sofreu uma queda a caminho de uma palestra.

Apesar do acidente, cumpriu seu compromisso, mas pouco depois descobriu que havia fraturado o braço esquerdo e quebrado o dedo mindinho direito. Esses machucados marcaram o início de seu declínio físico e mental.

Algum tempo depois, ao ser questionada por um entrevistador sobre suas memórias de Roland Leighton, ela respondeu: “Quem é Roland?”

Estátua de uma mulher sentada em um banco de parque, usando chapéu e lendo um livro, em um ambiente com gramado verde ao fundo.
Escultura de Vera Brittain em Brampton Park | Reprodução

Legado e morte

Vera Brittain morreu em Wimbledon em 29 de março de 1970, aos 76 anos. Foi cremada e teve suas cinzas espalhadas sobre o túmulo do irmão na Planície de Asiago, na Itália, conforme seu desejo: “Por quase cinquenta anos, muito de meu coração está no cemitério daquele vilarejo italiano”.

Sua vida foi adaptada para cinema e TV, e Testamento de Juventude segue sendo publicado continuamente desde 1933.

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Historiadora formada pela Universidade Federal do Estado do Amazonas (UFAM), tradutora e escritora com um interesse de pesquisa particular em Primeira Guerra Mundial. Autora do livro "A Velha Mentira: poemas da Grande Guerra de Wilfred Owen" publicado pela Caravana Grupo Editorial em 2026.
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