Alice Guy-Blaché: a história não contada da primeira cineasta do mundo

Alice Guy-Blaché: a história não contada da primeira cineasta do mundo

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O documentário Alice Guy-Blaché: a história não contada da primeira cineasta do mundo (Be natural: the untold story of Alice GuyBlaché, 2018) feito por Pamela B. Green, traz a história da primeira pessoa a dirigir um filme ficcional no mundo, uma desconhecida de grande parte dos cinéfilos e trabalhadores da área atualmente, mas que fez mais de 1000 filmes durante sua carreira, tendo seu próprio estúdio lado a lado aos grandes da época como Universal e Fox.

A diretora do documentário acredita ser fundamental retomar a história das pioneiras: “Penso que são precisas mais histórias como esta – como a de Alice Guy-Blaché: a Mãe do Cinema. Quanto mais documentamos, mais gravamos e mostramos mulheres que estiveram lá desde o início, mais promovemos a igualdade e podemos acabar com a diferença de gênero. Essa é a minha esperança”.

A vida da pioneira Alice Guy-Blaché

Nascida em 1 de julho de 1873, no interior da França, Alice Guy-Blaché fez seu primeiro filme aos 23 anos e estava presente na primeira exibição dos irmãos Lumière. Foi uma das primeiras do ramo a usar close ups, som sincronizado e coloração manual dos filmes. Fundou sua própria produtora e tomava conta de todos os aspectos da produção em uma carreira de 20 anos em 2 países, somando mais de 1000 filmes que ela dirigiu, produziu ou escreveu.

O documentário ilustra quão desconhecida uma das pioneiras do cinema se tornou para algumas pessoas, mas quão inspiradora ela foi e ainda é para outras. Até Hitchcock cita o trabalho de Alice e um dos filmes que consolidou a carreira de Serguei Eisenstein, O Encouraçado Potemkin (1926), por exemplo, também traz referências da francesa.

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Alice Guy-Blaché
Alice Guy-Blaché (Foto: Reprodução)

A cineasta já trabalhava questões relacionadas ao gênero em seus filmes, principalmente com a imagem não binária dos gêneros, como é o caso de The Consequence of Feminism (1906), um comédia ácida e crítica em que “os homens agiam como mulheres, fazendo tarefas domésticas e as mulheres como homens”.

Outro filme com um interessante protagonismo feminino é Uma Heroína de Quatro Anos (Une héroïne de quatre ans, 1907), em que o título já diz sobre o que se trata. Blaché chegou até a filmar a paixão de Cristo; fez um filme sobre o uso da pílula anticoncepcional em 1916 e ainda retratou a vida de um casal divorciado morando sob o mesmo teto em 1913 (“A house divided“).

No início do século XX, o plágio era bastante comum entre cineastas. Nossa pioneira começou a trancar seus roteiros em um armário, até que descobriu que estava sendo roubada por um garoto que trabalhava no estúdio Gaumont, onde Alice atuava. Mesmo que possa parecer apenas uma atitude comum, acredito que isso já seria um indício de que a história de Guy Blaché seria apagada, principalmente pelo próprio dono do estúdio, que omitiu o nome da cineasta no livro que escreveu sobre o mesmo.

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Alice Guy-Blaché trabalhando
Alice Guy-Blaché trabalhando (Foto: Reprodução)

Em 1910, Alice fundou sua própria produtora, Solax, e conforme as coisas foram melhorando e crescendo, contratou outros diretores e um time de atores e atrizes fixos, conhecidos como “Solax Players”. Alice conseguiu distribuir os filmes produzidos pela Solax para além dos Estados Unidos e um novo estúdio foi construído em 1912, ainda mais completo.

O documentário aborda também a maternidade no contexto da época e da profissão de Alice. A filha comenta que ela e o irmão passavam pouco tempo com a mãe e geralmente eram deixados com governantas. Inclusive durante a construção do segundo estúdio da Solax, Alice estava grávida do filho mais novo, mas não deixou de produzir filmes, explorando para além das questões feministas, questões raciais e antissemitas, como é o caso de The Strike (1912) e A fool and his money (1912), o primeiro filme dos EUA com um protagonista negro.

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Na entrada do novo Solax, Alice pediu para deixar exposta a seguinte expressão: “Be Natural”. A frase que dá título ao documentário era um pedido da cineasta para que sua equipe agisse de modo natural durante as gravações. Pra ela, era importante que as pessoas não atuassem apenas para a câmera mas fizessem aquilo com prazer.

Com a vinda da Primeira Guerra Mundial chegou também uma nova relação com a produção dos filmes e com o equipamento utilizado. O acesso à câmeras dependia de uma licença não muito barata, então as produtoras se mudaram para a Califórnia em busca de mão de obra barata e equipamentos acessíveis. E assim Hollywood se torna o centro cinematográfico dos Estados Unidos.

https://youtu.be/dQ-oB6HHttU

Alice estava no meio do furacão e seu estúdio crescia lado a lado com os grandes da época como Universal, Paramount e Fox. No entanto, como a vida é feita de altos e baixos, o marido de Alice a abandonou em 1918 e em 1922 eles se separaram oficialmente. Alice decidiu voltar à França com seus filhos, mas teve dificuldades em conseguir um emprego em seu país natal, pois parecia que seu trabalho havia sido esquecido por lá. Sem incentivos, a diretora acabou não conseguindo produzir novos filmes e seguiu escrevendo histórias infantis sob pseudônimos masculinos.

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Mesmo que Guy-Blaché tenha trabalhado em mais de mil filmes, apenas 130 deles foram encontrados até hoje, o que faz com que muitos deles tenham sido creditados a homens ou excluídos de sua posição enquanto diretora, colocando-a apenas na produção. Do mesmo modo, é claro que era somente seu marido quem recebia os créditos pela criação do Solax e os filmes produzidos pelo estúdio.

Depois de seu retorno à França, no entanto, ela não recebeu mais nenhum tipo de crédito por seus filmes e começou a lecionar. Posteriormente, Blaché foi em busca de seus filmes e de alguém para publicar suas memórias, mas infelizmente ninguém deu atenção para a diretora.

Alice veio a falecer em Nova Jersey em 24 de março de 1968 e suas memórias, escritas no fim dos anos 40, foram publicadas na França nos anos 80, iniciando-se assim um processo de resgate de sua obra, culminando inclusive neste documentário. A cineasta deixou em sua autobiografia uma lista com seus filmes na esperança de ser reconhecida.

Ver a obra da diretora sendo levada a outras pessoas que trabalham com cinema (ou não) é bastante emocionante e é como diz Green: “Ela teria ajudado muitas jovens mulheres, teria lhes dado coragem para atuar em uma indústria predominantemente masculina.”. Alice nos lembra sobre a importância de retratar e relembrar a história de mulheres que atuaram de modo assíduo na construção cultural do mundo, que mesmo sendo oprimidas no meio não deixaram de seguir com suas criações.

O filme está disponível no Vivo Play. Assista ao trailer do documentário abaixo:


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.


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Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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