WandaVision – 1×05: On a Very Special Episode…

WandaVision – 1×05: On a Very Special Episode…

Compartilhe

Como se já não tivéssemos visto de tudo até agora, o capítulo desta semana de WandaVision, disponível na Disney +, tomou a internet de assalto, não apenas pelas revelações em pouco mais de trinta minutos de programa, como também pelo retorno/apresentação de uma personagem bastante conhecida do público.

E hoje, em um episódio muito especial…

Visão (Paul Bettany), Agnes (Kathryn Hahn) e Wanda (Elizabeth Olsen) em WandaVision.
Visão (Paul Bettany), Agnes (Kathryn Hahn) e Wanda (Elizabeth Olsen) em WandaVision. (Imagem: Divulgação)

AVISO: o texto contém spoilers de WandaVision

Tal qual os demais títulos de episódios de WandaVision até agora, o quinto capítulo da série, “On a Very Special Episode…”, também referencia alguma frase famosa relacionada à televisão. Seu nome, contudo, talvez não seja tão familiar à audiência brasileira: o chamado “Very Special Episode” é um clichê muito conhecido das séries de TV dos EUA, especialmente nos anos 80 e 90.

Durante a Era Reagan – período de 1981 a 1989, no qual Ronald Reagan fora presidente dos Estados Unidos –, marcada por uma intensificação das políticas neoliberais no país, a então primeira-dama Nancy Reagan encabeçou uma campanha conhecida como “Just say no”: como parte da política de “guerra às drogas” da gestão, promoveu-se de um discurso moralizante nos meios de comunicação, objetivando convencer crianças e adolescentes a “dizer não” às drogas (estratégia muito similar àquela famosa campanha contra as drogas aqui no Brasil, cujos comerciais de TV amedrontaram uma geração de jovens no início dos anos 2000; quem não se lembra da Eliana e dos dedinhos?).

Tal campanha possibilitou participações especiais da própria primeira-dama em sitcoms e atrações famosas da época, a fim de promover o slogan, o que, por sua vez, ajudou a popularizar o que hoje em dia chamamos de “Very Special Episode”.

Leia também >> Mulheres nos Quadrinhos: Roxane Gay

Esse tipo de episódio se destacava dos demais por apresentar um teor mais sério em relação ao humor usual. Nele, geralmente se exploravam temas considerados tabu à época, especialmente em atrações “para toda a família”, como sexo desprotegido, gravidez na adolescência, ISTs, bulimia, racismo, misoginia, homossexualidade, suicídio, luto por entes queridos, preconceito contra pessoas com deficiência, além do próprio uso de drogas.

Geralmente tais episódios terminavam com alguma lição de moral para uma ou mais personagens do programa; outros, com uma linguagem mais sofisticada, sequer apresentavam uma resolução para o problema, deixando um final em aberto ou inconclusivo. Tais capítulos costumavam finalizar com uma das personagens comunicando-se diretamente com a audiência para alertá-las sobre o assunto polêmico, ou com algum número de telefone, de alguma instituição ligada à questão discutida no episódio, na tela da televisão.

A despeito de serem (na maioria das vezes) bem-intencionados, boa parte lançava a mão de um tom moralista e condescendente para com a audiência – e um tanto quanto piegas – para tratar destas temáticas, o que seria alvo de diversas paródias no futuro; e muitos eram divulgados na televisão estadunidese, antes de suas respectivas exibições, por meio de chamadas como “And tonight, on a very special episode…” (“E esta noite, em um episódio muito especial”), de onde surgiu o nome deste clichê. Tais episódios não são estranhos a quem tenha acompanhado programas como Arnold, Punky ou Um Maluco no Pedaço.

Fiel ao espírito oitentista incorporado no quinto capítulo de WandaVision, somos apresentadas a uma curiosa, distorcida e um tanto irônica versão deste clichê.

Entre o domo de Westview e agentes da S.W.O.R.D.

Monica Rambeau (Teyonah Parris) claramente representando a audiência ao final de cada episódio, em WandaVision.
Monica Rambeau (Teyonah Parris) claramente representando a audiência ao final de cada episódio, em WandaVision. (Imagem: Divulgação)

Retornamos à realidade televisiva do domo de Westview, em que Wanda (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) cuidam de seus filhos recém-nascidos. A vizinha Agnes (Kathryn Hahn) aparece de supetão na casa, oferecendo-se para vigiar as crianças. Subitamente, ela quebra a “atuação” e questiona Wanda se esta deseja “recomeçar” a cena, na presença de um confuso Visão.

A feiticeira tenta desconversar as suspeitas do marido o quanto pode, até que os bebês desaparecem de seus berços, usando seus poderes para se materializarem como garotinhos de quatro anos de idade. Agnes não esboça reação, e tece as piadas esperadas de sua personagem. O novo tema de abertura referencia séries como Tudo em Família – mostrando fotografias antigas de Wanda e Visão, incluindo divertidas montagens do sintozoide bebê – e Três é Demais, ironicamente, a série que elevou Mary Kate e Ashley Olsen (irmãs de Elizabeth) ao estrelato.

Leia também >> A força feminina em Sandman: mulheres complexas, com personalidades marcantes

Já do lado de fora da cidade, acompanhamos a recuperação de Monica Rambeau (Teyonah Parris), após retornar de Westview, seguida de uma reunião geral com o diretor em exercício Tyler Hayward no acampamento da S.W.O.R.D. Durante a reunião, Jimmy Woo (Randall Park) faz uma breve exposição do passado de Wanda Maximoff, suas origens em Sokovia e seu histórico como manifestante ferrenha contra a interferência dos EUA (e dos Vingadores) na política do país; os vídeos da jovem em um protesto, exibidos na exposição de Woo, são, inclusive, os mesmos mostrados por Maria Hill (Cobie Smulders) a Steve Rogers (Chris Evans) no início de Vingadores: Era de Ultron.

As interferências de Hayward na exposição, tratando Wanda como uma “terrorista”, “radical”, bem como a manipulação do testemunho de Monica contra si, por parte do diretor, deixam claro à capitã, a Jimmy e a Darcy (Kat Dennings) – e, consequentemente, à audiência – que temos motivos para questionar sua autoridade e seus motivos por trás da missão de libertar a população da cidade, e contatar Wanda.

Leia também >> Quem realmente foram as mulheres do musical “Hamilton”

Enquanto isso, Visão acidentalmente intercepta e-mails confidenciais trocados entre agentes da S.W.O.R.D., no computador de seu local de trabalho, acerca de uma certa “anomalia Maximoff”. Desconcertado, o sintozoide acessa as memórias da personagem Norm (Asif Ali), desbloqueando temporariamente o “eu” suprimido de Abilash (um morador da cidade), o qual revela que “ela” controla seus pensamentos, e implora que seja retirado do controle “dela”. Visão volta para casa repleto de perguntas, e confronta Wanda, que revela não saber quem iniciou o controle sobre Westview.

Antes que a questão se aprofunde, alguém atende à campainha. É Pietro… mas não aquele apresentado em Era de Ultron, interpretado por Aaron Taylor-Johnson, mas ninguém menos que o velocista da série de filmes dos X-Men na Fox, sem ligação alguma com o MCU, interpretado por Evan Peters.

O que aprendemos no episódio de hoje de WandaVision?

Feiticeira Escarlate
Elizabeth Olsen em WandaVision. (Imagem: Divulgação)

Tudo parece sugerir que Wanda possui controle sobre Westview: imagens projetadas por Tyler Hayward no acampamento da S.W.O.R.D. mostram uma Feiticeira Escarlate enfurecida invadindo as instalações da organização, poucos dias antes, para resgatar o corpo de Visão, morto em Vingadores: Guerra Infinita – aparentemente, para que este participe, reanimado, da fantasia televisiva.

Pouco depois, é a própria Wanda quem aparece fora do domo, em trajes de Vingadora, para ameaçar Hayward e qualquer agente que deseje interferir no domo: fiquem longe. Norm balbucia para Visão, desesperado, que “ela” está em sua cabeça. Retornando ao domo, a heroína prontamente sobe os créditos da atração quando o marido faz mais perguntas do que deveria.

Em cinco episódios de WandaVision, parece quase certo que Wanda está por trás de quase tudo ali, mantendo civis inocentes como reféns, e suprimindo suas memórias para que correspondam à realidade projetada. Entretanto, há muito mais acontecendo no pano de fundo: desde as suspeitas que uma parcela do público tem levantado em relação a Tyler Hayward já no episódio anterior, até as interferências de Agnes no programa.

Leia também >> Capitã Marvel: Ser uma “boa” feminista não é o bastante

Para o primeiro, há a especulação de que seja parente de uma personagem já apresentada em Agents of S.H.I.E.L.D., Brian Hayward, agente infiltrado da Hydra, além de seu interesse na construção de armas sencientes durante a ausência de Monica Rambeau, e os experimentos empreendidos no corpo de Visão nas dependências da organização.

Wanda e Visão no quinto episódio
Cena de WandaVision. (Imagem: Divulgação)

Em relação a Agnes, ainda é difícil definir suas intenções com exatidão. Uma parte importante do que torna o quinto capítulo de WandaVision um “episódio muito especial” é a suposta “lição de moral” sobre superar a perda de entes queridos, que quem falece jamais deve retornar, e que as fronteiras entre a vida e a morte nunca devem ser cruzadas.

Tudo começa com a chegada de um simpático cachorrinho ao lar da família de Wanda e Visão. Billy e Tommy, após novamente usarem de seus poderes para se tornarem mais velhos, convencem seus pais a adotarem o bichinho, a quem passam a chamar de “Sparky” (uma referência ao cão robótico de mesmo nome, criado por Visão em sua epônima HQ de 2016). Agnes logo surge com uma casinha de cachorro naquele exato momento. Também é aquela que, após o desaparecimento de Sparky, o encontra falecido em sua plantação de azaleias.

Leia também >> As mulheres no imaginário de “O Senhor dos Anéis”

As aparições coincidentes de Agnes já vinham sendo notadas antes, bem como as menções ao misterioso marido Ralph – comentários camuflados como a reprodução de mais um clichê de sitcom. Contudo, diante das frequentes interferências da vizinha, há motivos para crer que há mais acontecendo. Muito se tem especulado que “Ralph” não seria, na verdade, o demônio Mephisto dos quadrinhos – responsável por invadir a pacata vida doméstica de Wanda e absorver as almas de Billy e Tommy nas HQs. Já se comentou por aqui, ainda, que Agnes apresenta fortes indícios de, na realidade, ser a feiticeira Agatha Harkness – mentora e colega próxima de Maximoff nos quadrinhos.

Será que Agnes é a feiticeira Agatha Harkness?
Será que Agnes é a feiticeira Agatha Harkness? (Imagem: reprodução)

Ademais, quando o falecimento de Sparky entristece os gêmeos a ponto de desejarem crescer mais uma vez, Wanda é rápida em apresentar a “moral” do episódio, acerca da necessidade de se encarar a morte, não importa o quão forte seja o desejo de escapar da dor.

À primeira vista, parece uma mensagem um tanto quanto contraditória, considerando o que vimos do comportamento de Wanda até então – o “sequestro” do corpo de Visão, o testemunho de Norm, e as ameaças desferidas em direção ao diretor da S.W.O.R.D. parecem trazer a conclusão de que a feiticeira, tomada pelo inconformismo e pela dor do luto, ergueu aquele microverso para si e seu falecido amado. Entretanto, a chegada misteriosa de seu “irmão perdido” parece desafiar ainda mais tais conclusões.

Quem é vivo sempre aparece em WandaVision

Pietro (Evan Peters) em WandaVision
Pietro (Evan Peters) em WandaVision. (Imagem: Divulgação)

Um clichê tão frequente quanto episódios especiais em sitcoms dos anos 80 é a chegada de um parente distante para bagunçar com o cotidiano familiar consolidado nos programas. E é assim que Pietro (Evan Peters) surge: perto do final, em meio aos ânimos agitados de Wanda e Visão, o rapaz toca a campainha.

A feiticeira encara o sintozoide e afirma com veemência que não foi a responsável por aquilo, logo se levantando para abrir a porta e descobrir a identidade do misterioso visitante. A audiência vislumbra apenas alguns fios de cabelo prateados antes que o velocista apareça totalmente em frente às câmeras, tagarelando animadamente no sotaque carregado de Nova Jersey.

O estranhamento não passa despercebido, e Darcy Lewis é aquela que verbaliza as dúvidas das espectadoras: “Ela reescalou Pietro?”, em referência à aparência diferente daquela que conhecemos em Era de Ultron, quando os direitos do universo mutante ainda pertenciam à Fox, antes da aquisição pela Disney. A reescalação de personagens em sitcoms também é um famoso clichê, por sinal – quem não se lembra da substituição da tia Vivian em Um Maluco no Pedaço?

Leia também >> 8 ilustradoras e quadrinistas do norte brasileiro que você precisa conhecer

Ainda é cedo para dizer o que a aparição de Evan Peters significa em WandaVision, e especulações não faltam: desde a teoria de que a entrada de Pietro neste universo já prenuncia a abertura do multiverso em Doutor Estranho 2 (do qual Elizabeth Olsen participará), com a incorporação dos X-Men e da raça mutante ao MCU, a especulação de que esta seria a forma adotada pelo demônio Mephisto, até a mera ideia de que este seria apenas mais um morador de Westview e Peters não passa de um espirituoso easter egg – esta última, ironicamente, parece a hipótese menos provável, já que a equipe da série deixou claro que o retorno do ator representa algo importante.

Seja lá o que esta aparição significar, o fato é que parece casar muito bem com a temática de “Very Special Episode” como um todo, de um jeito um tanto irônico: quem já se foi não pode retornar, não importa o quanto se queira. Mas e quanto àqueles que jamais estiveram naquela realidade, para começo de conversa?

WandaVision tem demonstrado uma sutil sagacidade para brincar com os clichês e as convenções narrativas que circundam as sitcoms como um todo, e incorporá-las de formas inusitadas em sua própria mitologia, nem sempre fáceis de se notar de imediato – se a reencenação de todos estes “tropes” valerá o engajamento da audiência para além de uma mera homenagem, só teremos certeza com os próximos episódios. Por enquanto, contudo, uma coisa é certa: a reviravolta deste capítulo é digna dos melhores melodramas televisivos.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


Compartilhe

Written by:

20 Posts

Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
View All Posts
Follow Me :