WandaVision – 1×06: All-New Halloween Spooktacular

WandaVision – 1×06: All-New Halloween Spooktacular

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Se aproximando do final da temporada, WandaVision traz um capítulo para além dos mistérios e revelações de Westview – dentro ou fora. O destaque do sexto episódio vai para as relações interpessoais.

Com a incumbência de sustentar o hype e os ânimos levantados após as revelações do episódio anterior, “All-New Halloween Spooktacular!” pode parecer, à primeira vista, um capítulo de poucos enigmas em relação aos anteriores, muito mais dedicado a deleitar visualmente fãs de longa data dos quadrinhos e a “confirmar” algumas das suspeitas das espectadoras. Se há algo que depreendemos de WandaVision, contudo, é que os elementos apresentados na série raramente são o que parecem.

Conforme as décadas apresentadas vão se aproximando do tempo presente, as personalidades de Wanda (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) vão se desfazendo da afetação das convenções narrativas de cada formato televisivo das sitcoms. Os sentimentos deixados à margem com o fim de cada episódio, retornam como sutis rachaduras na realidade arquitetada pela Feiticeira Escarlate, e ampliando de tamanho conforme o tempo passa. O sexto episódio, portanto, debruça-se sobre estas rachaduras.

AVISO: o texto abaixo contém spoilers

WandaVision ou “Billy and Tommy in the Middle”

Billy (Julian Hilliard), Tommy (Jett Klyne) e Pietro (Evan Peters) em WandaVision.
Billy (Julian Hilliard), Tommy (Jett Klyne) e Pietro (Evan Peters) em WandaVision. (Divulgação)

Dentro do Hex – nome dado por Darcy Lewis (Kat Dennings) à formação hexagonal correspondente ao domo de Westview, e sutil referência aos poderes de “hex” (feitiço) da Feiticeira Escarlate nos quadrinhos –, a atmosfera é a de fim dos anos 90 e início dos anos 2000, emprestada diretamente da sitcom Malcolm in the Middle, da estética MTV e dos programas da Nickelodeon da época.

Por falar nisso, destaque para a abertura como um todo. O riff de guitarra no início do tema lembra vagamente o tema da série Daria e do enigmático (e pavoroso) comercial fictício da semana, em stop motion. E, para o episódio especial de Halloween, os gêmeos Billy (Julian Hilliard) e Tommy (Jett Klyne) mostram um pouquinho mais de si, revezando-se para quebrar a quarta parede e conversar com a audiência, à semelhança dos programas da época.

Através da grande revelação do episódio anterior, Pietro Maximoff (Evan Peters) ocupa o papel de tio engraçadão e “agregado” da casa, também bastante recorrente nas sitcoms, dormindo até tarde, brincando com os sobrinhos, tirando a irmã do sério e zoando do cunhado. Wanda, ainda balançada com a chegada repentina do irmão no cotidiano doméstico, tenta lidar com o imprevisível da melhor forma possível, mesmo que perca, pouco a pouco, o controle da situação.

E neste sexto episódio de WandaVision temos finalmente a chance de ver o casal protagonista em seus uniformes originais, como fantasias para o dia das bruxas – Wanda diz estar vestida como uma “vidente sokoviana”; Visão, por sua vez, é um “lutador mexicano” –, antes que se despeçam e partam para caminhos bem diferentes.

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Cena de WandaVision
(Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) em WandaVision. (Divulgação)

Porém, como fica claro em uma das falas de Billy para a câmera, Wanda e Visão estão distantes, algo que mesmo a transição para uma próxima década não foi capaz de solucionar. Portanto, mesmo entrando na brincadeira das fantasias junto da família no início, Visão ainda se dedica a descobrir o que exatamente está acontecendo em Westview, caminhando para além de sua vizinhança, rumo aos limites da cidade.

Enquanto isso, um Pietro fantasiado como o Mercúrio dos quadrinhos leva os sobrinhos – Billy cuja roupa lembra vagamente o uniforme de sua contraparte mais velha das HQs, Wiccano; e Tommy, em uma adorável cópia da fantasia do tio, também referenciando seus poderes nas HQs, como o velocista Célere – para pedir doces e pregar peças pela vizinhança. Entre um momento e outro, os irmãos conversam sobre o passado, o que tem se sucedido dentro do Hex, além das próprias inseguranças da feiticeira.

Do outro lado, Monica Rambeau (Teyonah Parris) troca palavras duras com Tyler Hayward (Josh Stamberg), ainda indignada com a interferência do diretor diante da situação, e por seu plano indisfarçado de matar a Feiticeira Escarlate para solucionar o problema. Jimmy (Randall Park) e Darcy também intervém, e o trio é escoltado para fora do acampamento. Nada disso, contudo, é suficiente para impedir que lutem contra os guardas, apanhem seus uniformes e infiltrem-se novamente entre as bases de dados da S.W.O.R.D.

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Darcy, aparentemente, é capaz de hackear com facilidade os computadores da organização e os dados coletados pelo diretor em exercício – uma habilidade que, diante de tanta suspensão de descrença que já tivemos de despender durante a série, sequer vale a pena questionar –, e logo descobre que o chefão não compartilhara suas pesquisas com o restante do grupo; dentre elas, o fato de que monitora diretamente a atividade de Visão dentro do domo.

O plano, desta vez, é recorrer a um contato de Monica – uma pessoa especializada em engenharia aeroespacial, citada pela primeira vez no episódio 4 –, capaz de fornecer os meios para que a capitã e companhia retornem ao Hex e contatem Wanda de maneira segura. Darcy, contudo, sinaliza outro dado importante: que o DNA de Rambeau fora reescrito tanto na entrada quanto na saída do domo de Westview, e que boa parte da população tem passado por alterações similares. Ainda assim, Monica e Jimmy partem rumo ao contato, enquanto Darcy se prontifica a seguir os demais mais tarde, voluntariando-se para investigar o quanto puder dos arquivos ocultos da S.W.O.R.D.

Após uma conversa enigmática com uma Agnes (Kathryn Hahn) aparentemente em transe, Visão finalmente cruza as fronteiras do Hex, desintegrando-se aos poucos, e confirmando a teoria de que o sintozoide seria incapaz de sobreviver do lado de fora do domo. Os dois mundos – acampamento de investigação da S.W.O.R.D. e realidade televisiva de Westview – literalmente colidem quando Billy, em uma manifestação inicial de seus poderes, detecta o sofrimento do pai e avisa prontamente a Wanda, que amplia a barreira da cidade.

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O aumento do Hex toma de assalto oficiais e agentes da S.W.O.R.D. no perímetro, transformando suas figuras em atrações de circo, e ainda engole Darcy, presa por um dos guardas ao tentar se aproximar do corpo moribundo de Visão. O sintozoide é salvo, Darcy é absorvida pela realidade televisiva, e Jimmy e Monica partem para as montanhas rumo ao contato misterioso.

Momentos de introspecção em WandaVision

Pietro e Wanda Maximoff em suas roupas originais dos quadrinhos.
Pietro e Wanda Maximoff em suas roupas originais dos quadrinhos. (Divulgação)

Desde o episódio passado, temos visto muito mais dos sentimentos de Wanda. Este parece ser o episódio em que vemos mais das inseguranças da personagem até agora, em grande parte despida da fanfarra televisiva das décadas anteriores. Ainda que deixasse escapar muito de si entre um episódio e outro – a expulsão de Monica durante o episódio “Now in Color” é um notável exemplo –, aqui a Feiticeira Escarlate encontra no irmão um improvável confidente.

As dinâmicas entre Wanda e Pietro se dão com bastante fluidez, sempre mesclando um pouco de familiaridade e estranhamento entre si. Porém, o contato entre ambos ainda é tomado de certo pisar em ovos. É como se Pietro intuísse a desconfiança de Wanda – e, por consequência, da própria audiência – em seus comportamentos ligeiramente suspeitos e lembranças questionáveis de acontecimentos; brinca de susto e prega peças em nossas expectativas de que seja algo mais além do que afirma ser.

Pietro (Evan Peters)
Cena de WandaVision. (Divulgação)

Ainda assim, com trejeitos saídos diretamente de seus momentos mais marcantes na série de filmes dos X-Men, este Mercúrio é uma grata adição por si só. A despeito dos mistérios que cerquem sua aparição – desde acaloradas especulações sobre Mefisto e o Multiverso –, o fato é que Evan Peters sabe trafegar muito bem pela atmosfera tragicômica de WandaVision, seja nas gracinhas ao lado dos sobrinhos, seja em um diálogo franco com a irmã sobre as implicações morais do Hex erigido sobre a cidade.

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À diferença das demais personagens, o velocista está bastante ciente do que acontece ao redor. “Eu não sou seu marido”, ele diz em um dado momento, sinalizando que Wanda tem espaço para ser sincera sobre seus sentimentos. Naquele instante, a feiticeira revela o sentimento de vazio que antecedera o surgimento do domo de Westview, e a incerteza em relação ao que lhe acontecera desde então. É um momento delicado, mais uma dentre as várias rachaduras naquela realidade de porcelana, em que Wanda deixa escapar pedaços de sua dor e de seu pesar.

É especialmente recompensador se deparar com estes momentos de introspecção da personagem, diante de toda a atmosfera fantasiosa que a circunda. A série passa a conferir o espaço necessário para que a feiticeira exponha um luto constante do qual tínhamos apenas alguns lampejos nos filmes. Tais sentimentos, inclusive, marcam a própria jornada de Wanda nos quadrinhos e, à semelhança da “sessão de terapia” vivenciada pela feiticeira em uma das edições de sua revista solo Scarlet Witch (2016), esperamos ansiosamente pelo momento em que falará abertamente sobre si.

Problemas no paraíso

Enquanto isso, os sentimentos suprimidos de Visão também dão as caras. Incapaz de se esquecer do que testemunhara e estranhara nos episódios anteriores, o sintozoide investiga as cercanias e descobre que o poder de Wanda é muito mais intenso no centro da cidade, enquanto que as pessoas nas periferias permanecem presas a um loop de atos repetitivos a contragosto, esperando a hora de atuar. Perto do final, ele encontra Agnes, paralisada.

Ainda não parece muito claro o que a interação entre os dois significa para a série como um todo, mas fica cada vez mais evidente que a vizinha, no mínimo, sabe bem mais que a maioria. As pistas visuais, como sua fantasia de bruxa, parecem provocar a audiência e acompanhar o imaginário de teorias sobre Agatha Harkness que circulam na internet.

Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen)
Wanda Maximoff em WandaVision. (Divulgação)

Contudo, é interessante pensar que, mesmo que Wanda consiga retornar ao status quo com algum grau de sucesso no início de cada episódio (ao menos superficialmente), as quebras proporcionadas pelos episódios anteriores aprofundam-se cada vez mais, sinalizando a progressiva perda do (pretenso) controle que a feiticeira mantém naquela realidade.

Conhecimento é poder, como comentado pelo portal IndieWire, e é evidente que a Vingadora não sabe quase nada do que está acontecendo – mesmo que diga o contrário. Em resposta ao questionamento direcionado a Visão no episódio anterior, ser marido e pai em um pacato subúrbio dos Estados Unidos já não é suficiente. O sintozoide deseja saber de seu destino: de todas, a única coisa que Wanda é incapaz de lhe oferecer.

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Por se tratar de um episódio voltado às relações interpessoais e às questões mal-resolvidas, o instante em que Visão atravessa o Hex, seguido de sua quase desintegração, parece o momento certo para encerrar o capítulo e manter a audiência ávida por mais. Novas perguntas surgem: como Darcy surgirá na realidade televisiva? Quem é o contato de Monica? As alterações no DNA da capitã significam que logo adquirirá poderes e assumirá seu alter-ego heroico dos quadrinhos? Quais as intenções de Tyler Hayward?

Com apenas três episódios restantes, WandaVision tem guardado muito bem seus mistérios, enquanto nos provê uma história sobre relacionamentos, luto e pesar por debaixo de homenagens a programas consagrados – nas palavras jocosas de Pietro nos minutos iniciais do episódio, “Eu estou aqui para te dar pesar. Não era isso que você queria?”. Resta claro o dever dos próximos episódios em amarrar as pontas soltas: a audiência quer muito, muito mais, afinal.

1x06: All-New Halloween Spooktacular (crítica)

Confira a nossa thread sobre o romance de Wanda com Visão


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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