A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões: uma fábula feminista sobre libertação, poder e sororidade

A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões: uma fábula feminista sobre libertação, poder e sororidade

Quando pensamos em sereias, logo nos vêm à mente o arquétipo de um ser dotado de sensualidade, com um corpo magro e escultural, com suas escamas, pele aveludada e branca, lábios com tonalidades avermelhadas e quentes. Geralmente elas estão sempre à procura do amor romântico, atraindo homens através da sua beleza. O exemplo mais famoso de uma sereia que todas nós conhecemos é a do clássico conto do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, de 1837, cuja obra foi adaptada aos cinemas pela Disney em 1989, tornando-se uma das princesas mais famosas do estúdio. Tal sereia é um exemplo do padrão de beleza ideal que as meninas deveriam se espelhar quando crescessem. Mas e se essa história clássica fosse contada a partir de um viés feminista? Foi isso o que a autora irlandesa Louise O’Neill pensou ao escrever o livro “A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões“, publicado no Brasil pela editora DarkSide Books, com tradução de Fernanda Lizardo.

A Pequena Sereia
A edição da Darkside Books é de encher os olhos! Um dos trabalhos gráficos mais bonitos da editora, a capa contém brilhos que iluminam os cabelos da pequena sereia (Foto: Isabelle Simões/Delirium Nerd)

Young adult que ressignifica clichês do gênero

Em algumas obras do gênero young adult com histórias de protagonistas femininas, notamos que há várias personagens limitadas a estereótipos de gênero. Geralmente são garotas ou mulheres decididas, com opiniões fortes e trajetórias desafiadoras, mas que não conseguem sair de um clichê muito comum: a necessidade de um par romântico masculino para validar suas jornadas.

Sobre uma representação feminina mais diversa na literatura, parafraseamos o diretor Hayao Miyazaki sobre a criação das suas protagonistas femininas nas animações do estúdio Ghibli: “elas precisam de um amigo ou um apoiador, mas nunca de um salvador“. E o livro “A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões” desafia não apenas esse clichê da necessidade de um par romântico masculino, mas desconstrói inúmeros estereótipos de gênero que visam delimitar os interesses e conquistas das meninas e mulheres e nos apresenta uma obra verdadeiramente feminista voltada para o público jovem.

Se, a princípio, Gaia, a pequena sereia mítica que vive em um reino imerso e subaquático, demonstra um interesse amoroso (e quase obsessivo) por um jovem humano, a releitura de Louise O’Neill nos surpreende, trazendo uma história dotada de ressignificações das mensagens, muitas vezes machistas, que os famosos contos de fadas nos passaram.

Gaia foi educada desde a infância para ser a donzela em perigo, para acreditar que só estaria segura na companhia de outro ser masculino, para que sua voz fosse silenciada; por isso o livro traz inicialmente o florescer da paixão de Gaia, para posteriormente quebrar esse clichê ao longo da narrativa. Portanto, por mais que pareça que o livro cairá neste clichê, a autora o subverte no decorrer da leitura. 

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Pequena Sereia
Foto: Isabelle Simões/Delirium Nerd

Desconstrução do padrão de beleza feminino da cultura ocidental

A obra retrata o culto à juventude e ao padrão de beleza inatingível cobrado das mulheres desde a infância. A partir da cobrança e vigilância da figura do Rei dos Mares, pai de Gaia, a autora expõe como essas jovens sereias são vigiadas para estar sempre impecáveis fisicamente. Com cabelos bem arrumados e maquiadas como bonecas, as imperfeições naturais de qualquer corpo e a beleza real são coisas inadmissíveis para Gaia e suas irmãs sereias.

A liberdade de uma vida sem as máscaras dos produtos de beleza e dos acessórios que as enfeitam como mulheres-troféus a serem exibidas perante a sociedade, nos bailes que as sereias frequentam, é contestada pela crescente libertação de Gaia ao longo do livro. Diga-se de passagem que o culto à beleza feminina retratado nos contos de fadas clássicos é seletivo e eurocêntrico. A beleza desejável é a pele branca, os cabelos claros ou ruivos e os traços delicados.

Na obra, o pai de Gaia classifica a beleza de suas filhas como em um concurso de beleza. As sereias são julgadas perante o olhar dos homens, dos seus pais, pretendentes ou maridos. “Qual de minhas filhas merece a posição de destaque hoje? Quem vai ter a honra de estar mais perto de mim, seu amado pai?”.

O discurso paternalista e machista do Rei dos Mares é evidenciado no decorrer do livro, além de vermos algumas sereias que contribuem para a reprodução dessa cobrança para com outras sereias, criando uma rivalidade entre mulheres. Afinal, como disse Simone de Beauvoir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.

O pai de Gaia educou suas filhas não para almejarem os estudos e a independência financeira, mas para ser submissas e dependentes economicamente dos maridos. O mito da feminilidade retratado no universo mítico da pequena sereia é a imposição de sereias sem vozes ou poderes, que obedecem às vozes masculinas e jamais questionam seus argumentos, pois de acordo com esse conjunto de estereótipos ligados ao feminino, as sereias são sentimentais demais para tomar atitudes racionais. Elas nasceram para ser esposas, mães e nada mais. Nesse universo submerso, as normas jamais podem ser questionadas pelas sereias. Elas ouvem e obedecem.

“Os homens não precisam ser bonitos. […] Eles não são afetados pelo peso das pérolas; seus movimentos são uma fração mais velozes do que o das sereias, seus membros relaxados. Livres.”  

E quando Gaia é prometida em casamento para um homem bem velho, quando completasse os 16 anos de idade, ela nota que precisa tomar uma atitude rápida para fugir desse destino, desse homem que odeia, para salvar a si mesma – e ela usará o que aprendeu para conseguir isso: a moeda de troca da sua beleza para a conquista de um jovem humano chamado Oliver. Gaia acredita que ele a salvará do contrato de seu casamento imposto pelo pai. 

Pequena Sereia
Foto: Isabelle Simões/Delirium Nerd
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Machismo e a opressão masculina nos mares e na superfície 

No livro, as sereias são proibidas de ir até a superfície até completarem seus 15 anos. Quando alcançam essa idade, elas podem ir até a superfície, apenas esporadicamente. Avisadas pelo Rei dos Mares que se trata de um local perigoso para sereias, Gaia começa a questionar essa afirmação, já que nunca pôde se despedir de sua mãe, que desapareceu na superfície. E em várias passagens do livro ela comenta da saudade que sente da mãe, pensando em como ela agiria diante das situações opressoras que seu pai comete com ela e suas irmãs.

O pai afirma que o encanto de sua mãe pela superfície foi o motivo de seu sequestro realizado por um humano. Ele cria uma imagem egoísta da mãe perante as filhas, afirmando que ela escolheu abandoná-las. Mas Gaia começa a duvidar dessas afirmações mal contadas conforme se aproxima da promessa de casamento pela qual está presa. Então, ela decide conhecer esse local misterioso que sua mãe se encantou.

Ao conhecer a superfície pela primeira vez, Gaia se apaixona por um humano e é a partir desse momento que o livro apresenta as semelhanças da sociedade dos humanos com a sociedade das sereias. Gaia passa a visitar escondida cada vez mais a superfície. Se, no início, ela se entrega na ilusão que constrói ao redor da imagem desse príncipe encantado humano – que parece sair de um conto de fadas aos seus olhos -, posteriormente ela vê que os homens dessa sociedade são tão machistas e opressores quanto o reino que ela e suas irmãos sereias já conhecem muito bem.

“Eu tenho ficado presa aqui desde então, ouvindo os homens conversarem sobre política e guerra, ignorando suas companheiras. Eu não esperava tantas semelhanças  entre este mundo e o do meu pai. Guerra e dinheiro ainda são domínio masculino, conversas sérias e cochichadas em ambientes privados com charutos. Enquanto isso, espera-se que as mulheres se enfeitem com joias e estejam agradáveis aos olhos. Os homens falam, as mulheres escutam.”

O processo da libertação de Gaia começa a se desenvolver no momento que ela passa a viver mais na superfície. Assuntos como consentimento e abusos sexuais, ego masculino que invalida a opinião das mulheres, violência praticada por homens que conhecemos e que vivem ao nosso redor, a objetificação feminina e a cultura da magreza como atributo do padrão de beleza desejável, distúrbios alimentares, abandono paterno e maternidade compulsória, o amor romântico e o desgaste mental que as mulheres são submetidas em relacionamentos heteronormativos, cultura do estupro, além da mulher vista como símbolo de posse dos homens são abordados na história. As sereias, assim como as mulheres da superfície, são vistas como objetos de aquisição e poder perante o patriarcado dessas duas sociedades. 

Pequena Sereia
Sketchbook que vem junto com o livro quando adquirido direto da loja da Darkside Books (Foto: Isabelle Simões/Delirium Nerd)

Quem são as verdadeiras bruxas? As que não temem quebrar as estruturas de opressão?

No livro de Louise O’Neill também conhecemos a figura da Bruxa do Mar e as poderosas Rusalkas, as sereias mais temidas pelo Rei dos Mares, e outras figuras masculinas. Inspiradas pela mitologia eslava, elas são vistas como seres que precisam ser combatidos, que querem destruir a ordem daquela sociedade. É a partir desse conflito entre as Rusalkas e o Rei dos Mares que Gaia descobre o segredo importante da origem do casamento de sua mãe. Em contrapartida com essas sereias, conhecemos também a mãe de Oliver, Eleanor. Ela será uma figura importante no decorrer do processo de libertação de Gaia. 

Imagem: Rusalka por Ivan Bilibin (1934) / reprodução

“É o seu pai que tem insistido em me chamar de ‘bruxa’. Este é simplesmente um termo que os homens dão às mulheres que não têm medo deles, às mulheres que se recusam à submissão.”

A autora ainda traz uma ressignificação do arquétipo da bruxa malvada e temida como conhecemos nos contos antigos. No início, Gaia e suas irmãs foram alienadas quanto a verdadeira origem e o poder da irmandade das Rusalkas, sereias que espalham a resistência e a coragem no fundo dos mares, desafiando a estrutura de poder desse reino. Por isso, presenciamos uma história que mostra a importância da construção da sororidade e da união das mulheres para quebrar as barreiras que lhe são impostas. O final catártico da obra é inesquecível e ficará em sua mente por um bom tempo. 

Pequena Sereia
Foto: Isabelle Simões/Delirium Nerd

Uma obra feminista com mensagens significativas para jovens e adultos

A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões” é uma obra que transmite mensagens importantes para jovens leitoras e leitores e também para o público adulto que procura por uma boa indicação de young adult ou que gostaria de apreciar uma releitura feminista de um dos mais famosos contos de fadas da história. Através da fábula feminista de Louise O’Neill, nós, mulheres, vamos nos libertando junto com a pequena sereia das opressões de gênero que conhecemos desde o nosso nascimento. É um livro libertador, que todas as garotas e garotos devem ler. No reino submerso de uma pequena sereia, uma revolução surge. E essa revolução será feminista. Ou não será!


Pequena SereiaA Pequena Sereia e o Reino das Ilusões

Louise O’Neill

Darkside Books

224 páginas, capa dura

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Edição realizada por Gabriela Prado.

Escrito por:

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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