As personagens femininas de Hayao Miyazaki nas animações da Ghibli

As personagens femininas de Hayao Miyazaki nas animações da Ghibli

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Com uma influência gigantesca e extremamente ramificada no cinema mundial, não seria um exagero dizer que o estúdio Ghibli abra mente do Ocidente para um novo tipo de imaginação. Seria difícil enumerar todos os paradigmas da animação tradicional que suas obras romperam. E quem acostumou-se na infância com os filmes de princesa da Disney, sabe que eles são muitos. Além de parâmetros narrativos muito bem pré-estabelecidos, como a divisão clara entre bem e mau, masculino e feminino, nobre e plebeu, eram estabelecidos modelos muito concretos do que cada um desses deveria se parecer, se comportar e desejar para a sua vida. Nos filmes do estúdio japonês essas linhas se tornam mais tênues.

Tudo começa quando é lançado “Nausicaä do Vale do Vento“, lançado em 1984 – um prelúdio ao lançamento do estúdio Ghibli, que ocorreria 2 anos depois – em que uma protagonista, a jovem princesa Nausicaä, enfrenta um reino tirano em defesa de causas ambientais. Não só estereótipos de gênero foram rompidos. A personagem icônica, além de guerreira e inspiradora, era em suas atitudes e aparência uma heroína muito mais “atingível” do que as ocidentais de até então – e mais do que muitas que viriam depois também. Claramente, um filme muito à frente de seu tempo e que contém em sua personagem uma predecessora para muitas outras que seriam criadas pelo estúdio mais tarde.

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Como o maior expoente do estúdio, Hayao Miyazaki as descreve: “trata-se de garotas corajosas, autossuficientes que não pensam duas vezes antes de lutarem pelo que acreditam de todo o coração“. Mesmo não sendo seu único diretor, Miyazaki assina as três maiores bilheterias do estúdio Ghibli. Todas as três protagonizadas por mulheres – que muito bem se encaixam em sua definição acima.

O maior de todos os sucessos do estúdio é protagonizado por Chihiro, que ainda às portas da adolescência vê seus pais se transformarem em porcos e é obrigada a vender seu trabalho, e até mesmo seu nome, para salvá-los. Lançado em 2001, “A Viagem de Chihiro” ainda é o filme com a maior bilheteria da história do Japão. Mesmo em meio a um universo fantasioso, a representação da pré-adolescente feminina é o oposto disso. Chihiro aparenta sua idade, tanto física quanto emocionalmente. Ela se comporta por vezes de maneira errática e confusa, e apesar de demonstrar grande força de espírito, é vulnerável em vários momentos.

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Meu Vizinho Totoro“, lançado em 1988, é outro exemplo em que as personagens jovens femininas são retratadas de acordo com sua própria idade. Por mais que seja estranho colocar isso quase como um mérito, esse é mais um aspecto no qual os filmes do estúdio Ghibli se diferenciam de outras animações. Satsuki e Mei não passam de crianças quando precisam enfrentar a doença grave da mãe. A aparição de uma criatura fantástica e mítica que as ajuda em meio a isso, é mais um indício da sensibilidade com que as personagens são tratadas.

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Em “Ponyo“, lançado em 2008, novamente a protagonista é uma criança que mescla sua vida entre fantasia e dor. Dessa vez, o relacionamento da personagem – que dá título ao filme – com um menino humano é o norte para o tema da separação com a família. A caracterização da infância é preservada e, no entanto, tratada com a profundidade que vai além da temática infantojuvenil.

A caracterização feminina de acordo com as fases da vida voltam a ser tema em “O Castelo Animado” (2004), no qual a personagem Sophie, ao receber o duro castigo de ter a aparência envelhecida em décadas, encontra sua garra e autoconfiança perdidas. Uma bela metáfora ao desafio e ao tabu que envolve o tema do envelhecimento feminino na cultura pop.

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Autoconfiança e descoberta de sua própria identidade também são as temáticas de “O Serviço de Entregas da Kiki“. Lançado em 1989, este foi o quarto longa do estúdio e o primeiro a desenvolver uma parceria com os estúdios Disney, que dublaram e distribuíram o filme nos Estados Unidos.

Para além delas mesmas, os relacionamentos das personagens femininas com seus coadjuvantes homens também é considerado um elemento que rompe em larga medida com estereótipos que vemos perpetrados na animação ocidental. Em “Princesa Mononoke” (1997), a personagem San, a quem o título faz referência, além de ser uma heroína que vive com lobos semi-deuses e lutar pela floresta em que habita, ela interage com seu co-protagonista Ashataki, de uma maneira que não se insinua romântica em nenhum momento. Como afirma Miyazaki, “elas precisam de um amigo ou um apoiador, mas nunca de um salvador“. Antes de “Titanic” ser lançado em 1998, “Princesa Mononoke” era então o maior sucesso de bilheteria no Japão.

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Mas como pode um filme tão avançado, em termos de paridade de gênero, ter sido tão prestigiado em um país em que a desigualdade entre homens e mulheres é tão presente?, podem se perguntar. A maioria, tomando como base estereótipos ocidentais – como se a própria cultura eurocêntrica também não fosse, em sua origem e essência, bastante machista. No entanto, o questionamento é justo. Ainda mais se levarmos em conta que há anos problematiza-se a representação feminina em mangás e animes – que, como em muitas outras culturas, as sexualiza mesmo na infância e as retrata com uma aparência inatingível. Mas isso seria assunto para outro texto.

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A realidade é que o vanguardismo e o feminismo presente em várias personagens do estúdio Ghibli coexiste em uma relação dialética e, por vezes, conflituosa com discriminações de gênero que permeiam a cultura japonesa – e que existem dentro da própria indústria. E mesmo com uma série admirável de protagonistas mulheres, a verdade ainda permanece que nunca uma mulher ocupou o posto de diretora em nenhum dos filmes do estúdio Ghibli.

Em junho de 2016, um dos produtores do estúdio, Yoshiaki Nishimura, precisou se desculpar ao público por uma declaração sexista feita em entrevista ao jornal inglês The Guardian. Na ocasião, ele afirmou ser deliberada a contratação de diretores homens com a justificativa de que “mulheres são mais realistas, enquanto homens mais idealistas“.

Manifestações e denúncias recentes feitas por mulheres em Hollywood provam que não é somente na indústria cinematográfica japonesa que isso ocorre. No entanto, é preciso falar que embora o valor do estúdio Ghibli não deva ser desmerecido enquanto berço de heroínas inspiradoras, a relevância delas e da representação feminina como um todo, ainda precisa se refletir nas estruturas de poder. Mulheres como Nausicaa, San e Chihiro ainda terão um papel revolucionário a desempenhar pelos anos que virão.

Fontes: The Guardian, The Atlantic e Vice


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Criança que queria ser bailarina, depois foi querer virar oceanógrafa, que depois sonhou em ser fotógrafa da National Geografic, para depois querer ser escritora. Acabou virando jornalista (no diploma) e professora (na carteira de trabalho – RIP). Adulta, só daqui uns anos.
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