Fenômeno do streaming, Heated Rivalry levanta uma questão incômoda: por que romances LGBTQIA+ masculinos têm mais aceitação que narrativas lésbicas?
Heated Rivalry é uma série produzida pelo streaming canadense Crave, adaptada e dirigida por Jacob Tierney. Baseada na série de livros Game Changers, de Rachel Reid, a série de seis episódios se tornou um fenômeno instantâneo logo após a sua estreia.
Protagonizada por Connor Storrie e Hudson Williams, a série tem cativado cada vez mais espectadores desde a sua estreia. Mas também levanta questões sobre a diferença no acolhimento de produções similares, com protagonismo lésbico.
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Heated Rivalry: um romance que atravessa uma década
A série se concentra na relação entre dois atletas profissionais de hockey, o canadense Shane Hollander, vivido por Williams, e o russo Ilya Rozanov, interpretado por Storrie.
Heated Rivalry perpassa dez anos de idas e vindas de uma relação amorosa complicada, em que as personagens precisam lidar com questões internas de aceitação e descoberta da própria sexualidade.
Assim como, os embates com as expectativas das pessoas em volta e a homofobia presente na sociedade, principalmente a que existe no mundo dos esportes masculinos.
Entre outros personagens notáveis da série estão também o jogador de hockey Scott Hunter, que é interpretado pelo ator canadense François Arnaud e Kip, vivido por Robbie Graham-Kuntz.
Os dois possuem um episódio inteiro dedicado a eles e é o desfecho da história de Scott e Kip que se apresenta como um ponto de virada de chave para os protagonistas.

Heated Rivalry se apresenta inicialmente como uma série de romance clichê, baseada em livros classificados dentro do subgênero literário “smut”, ou seja, literatura erótica. Por que então a série se tornou um fenômeno tão grande e tão rápido?
Por que Heated Rivalry deu tão certo?
Às vezes um clichê bem executado é melhor do que uma ideia original mal desenvolvida, esse talvez seja o ponta pé para entender o sucesso de Heated Rivalry.
O criador e diretor da série, Jacob Tierney, durante os seis episódios cria uma narrativa visual que engaja a espectadora. Além de escolher filmar a série em um formato cinematográfico, o diretor também utiliza movimento e iluminação para criar referências visuais entre os episódios.
Heated Rivalry passa a se destacar de produções similares, independente do orçamento, vide alguns títulos milionários da Netflix que vem decaindo em qualidade de produção, como Stranger Things e Bridgerton.
O elenco bem entrosado e realmente interessado também são pontos positivos para a série. O que levou Hudson e Connor a aparecer em dezenas de capas de revistas e programas de televisão dos Estados Unidos durante o último mês.

O apelo das narrativas românticas descomplicadas
Outro ponto de destaque, talvez mais simples, esteja na relação entre o público majoritariamente feminino heterossexual e LGBTQIAPN+ e narrativas românticas descomplicadas. Ou a ideia que tem se tornado popular de “homens escritos por mulheres”.
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Esse tipo de personagem e história se apresenta como um refúgio de um mundo saturado por violências a cada dia mais inescapáveis.
Sendo assim, a série se converte em uma representação do mundo real, mas com os riscos significativamente diminuídos. Heated Rivalry chamou atenção pelas sequências mais eróticas, mas é o romance e as dores por trás disso que prenderam o seu público.
O protagonismo feminino nas narrativas queer
Levando em consideração essas questões, é possível lembrar outros exemplos recentes de produções queer com protagonismo masculino de sucesso, como as séries juvenis Young Royals, Heartstopper e Love, Victor.
Além de Looking, Overcompensating, Fellow Travellers e Special. Mas os exemplos de sucesso femininos parecidos, se tornam mais escassos, principalmente levando em consideração séries que não tenham sido canceladas sem um final.
Em séries como a brasileira As Five, ou The Sex Lives of College Girls e Atypical, os relacionamentos lésbicos dividem a narrativa com o arco de outras protagonistas, ou ocupam um lugar coadjuvante.
Já em exemplos como Killing Eve, Yellowjackets e The Last of Us, esse não é o foco da narrativa, apesar de ocuparem grande relevância.
Mais próximos ao romance visto em Heated Rivalry estão séries como Gentlemen Jack, Dickinson e Feel Good. Contudo, essas não tiveram o mesmo desempenho com o público que os outros títulos.

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Por que o romance lésbico ainda encontra resistência?
O protagonismo do romance lésbico é menos aceito pelo público geral e fica restrito a um público nichado que deseja muito se ver representado nas telas.
Torna-se muito mais convidativo para o público, em geral, consumir séries focadas no sentimento de “anseio” causado pelo desejo, desde que ele não seja entre duas mulheres.
Como a cultura encara a representação feminina?
De acordo com as autoras Ramayana Lira de Sousa e Alessandra Brandão, o audiovisual lésbico é representado pelas produções independentes e de menor alcance.
Ele se distancia das grandes massas, pois é nesses espaços que vemos a reprodução da objetificação do corpo e de comportamentos entendidos como femininos.
O olhar masculino no cinema
Se voltarmos ainda mais, nos anos 1970, Laura Mulvey escreveu em seu artigo “Prazer Visual e Cinema Narrativo” sobre como a figura da mulher no cinema é relegada ao lugar de objeto do olhar.
Para Mulvey, a mulher no cinema (como um reflexo da sociedade da época), não poderia ser um agente de desejo, mas apenas ser vista como aquilo que o “olhar masculino” deseja.
Por isso, talvez exista essa dificuldade de encontrarmos comédias e romances sáficos dentro de um contexto mainstream. Porque, de algum modo, a representação e compreensão da figura feminina na cultura ainda está ligada a esse processo de sexualização de seus corpos.
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Essa realidade teve muitos avanços, principalmente levando em consideração o controle criativo que mulheres vêm encontrando no cinema e na TV. Porém essa representação ainda é limitada majoritariamente a identidades cisheterossexuais e brancas.
Precisamos de mais Heated Rivalries
Antes mesmo de Heated Rivalry, em 2022, a série A league of their own, baseada no filme de mesmo nome de 1993, apresentava um elenco feminino diverso e protagonismo lésbico.
Centrada em um time feminino de baseball profissional, em 1943, a série foi elogiada pela crítica e teve um bom desempenho com o público, porém foi cancelada depois de apenas uma temporada.

Novos caminhos para narrativas LGBTQIAPN+
É esperado que o sucesso de Heated Rivalry abra portas para que mais histórias LGBTQIAPN+ tenham a chance de encontrar o mesmo êxito.
Recentemente, o canal Crave anunciou a produção de Slo Pitch, descrita como uma “série de softball lésbico”. A comédia será uma espécie de mockumentary, seguindo os moldes de The Office e Abbott Elementary.
Esses exemplos, assim como a série de fantasia da globoplay, Vermelho Sangue, também chamam a atenção para a necessidade de deixarmos o eixo EUA-Europa como principais produtores de referências.
Por enquanto, podemos continuar celebrando os êxitos de Heated Rivalry, para que mais séries como essas, ainda mais diversas, possam existir.
Referências:
- BRANDÃO, Alessandra Soares; SOUSA, Ramayana Lira de. A in/visibilidade lésbica no cinema. In: HOLANDA, Karla (org.). Mulheres de cinema. Rio de Janeiro: Numa, 2019. p. 279-302.
- MULVEY, Laura. Prazer visual e cinema narrativo. In: XAVIER, Ismail (ORG.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018. p. 355-371.




