Heated Rivalry: o fenômeno que abrirá portas para o protagonismo lésbico?

Heated Rivalry: o fenômeno que abrirá portas para o protagonismo lésbico?

Fenômeno do streaming, Heated Rivalry levanta uma questão incômoda: por que romances LGBTQIA+ masculinos têm mais aceitação que narrativas lésbicas?

Heated Rivalry é uma série produzida pelo streaming canadense Crave, adaptada e dirigida por Jacob Tierney. Baseada na série de livros Game Changers, de Rachel Reid, a série de seis episódios se tornou um fenômeno instantâneo logo após a sua estreia.

Protagonizada por Connor Storrie e Hudson Williams, a série tem cativado cada vez mais espectadores desde a sua estreia. Mas também levanta questões sobre a diferença no acolhimento de produções similares, com protagonismo lésbico. 

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Heated Rivalry (2025) | Reprodução

Heated Rivalry: um romance que atravessa uma década

A série se concentra na relação entre dois atletas profissionais de hockey, o canadense Shane Hollander, vivido por Williams, e o russo Ilya Rozanov, interpretado por Storrie.

Heated Rivalry perpassa dez anos de idas e vindas de uma relação amorosa complicada, em que as personagens precisam lidar com questões internas de aceitação e descoberta da própria sexualidade.

Assim como, os embates com as expectativas das pessoas em volta e a homofobia presente na sociedade, principalmente a que existe no mundo dos esportes masculinos. 

Entre outros personagens notáveis da série estão também o jogador de hockey Scott Hunter, que é interpretado pelo ator canadense François Arnaud e Kip, vivido por Robbie Graham-Kuntz.

Os dois possuem um episódio inteiro dedicado a eles e é o desfecho da história de Scott e Kip que se apresenta como um ponto de virada de chave para os protagonistas.

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Heated Rivalry (2025) | Reprodução

Heated Rivalry se apresenta inicialmente como uma série de romance clichê, baseada em livros classificados dentro do subgênero literário “smut”, ou seja, literatura erótica. Por que então a série se tornou um fenômeno tão grande e tão rápido? 

Por que Heated Rivalry deu tão certo?

Às vezes um clichê bem executado é melhor do que uma ideia original mal desenvolvida, esse talvez seja o ponta pé para entender o sucesso de Heated Rivalry.

O criador e diretor da série, Jacob Tierney, durante os seis episódios cria uma narrativa visual que engaja a espectadora. Além de escolher filmar a série em um formato cinematográfico, o diretor também utiliza movimento e iluminação para criar referências visuais entre os episódios. 

Heated Rivalry passa a se destacar de produções similares, independente do orçamento, vide alguns títulos milionários da Netflix que vem decaindo em qualidade de produção, como Stranger Things e Bridgerton.

O elenco bem entrosado e realmente interessado também são pontos positivos para a série. O que levou Hudson e Connor a aparecer em dezenas de capas de revistas e programas de televisão dos Estados Unidos durante o último mês. 

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Heated Rivalry (2025) | Reprodução

O apelo das narrativas românticas descomplicadas

Outro ponto de destaque, talvez mais simples, esteja na relação entre o público majoritariamente feminino heterossexual e LGBTQIAPN+ e narrativas românticas descomplicadas. Ou a ideia que tem se tornado popular de “homens escritos por mulheres”.

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Esse tipo de personagem e história se apresenta como um refúgio de um mundo saturado por violências a cada dia mais inescapáveis.

Sendo assim, a série se converte em uma representação do mundo real, mas com os riscos significativamente diminuídos. Heated Rivalry chamou atenção pelas sequências mais eróticas, mas é o romance e as dores por trás disso que prenderam o seu público. 

O protagonismo feminino nas narrativas queer

Levando em consideração essas questões, é possível lembrar outros exemplos recentes de produções queer com protagonismo masculino de sucesso, como as séries juvenis Young Royals, Heartstopper e Love, Victor.

Além de Looking, Overcompensating, Fellow Travellers e Special. Mas os exemplos de sucesso femininos parecidos, se tornam mais escassos, principalmente levando em consideração séries que não tenham sido canceladas sem um final. 

Em séries como a brasileira As Five, ou The Sex Lives of College Girls e Atypical, os relacionamentos lésbicos dividem a narrativa com o arco de outras protagonistas, ou ocupam um lugar coadjuvante.

Já em exemplos como Killing Eve, Yellowjackets e The Last of Us, esse não é o foco da narrativa, apesar de ocuparem grande relevância.

Mais próximos ao romance visto em Heated Rivalry estão séries como Gentlemen Jack, Dickinson e Feel Good. Contudo, essas não tiveram o mesmo desempenho com o público que os outros títulos.

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Atypical (2017 – 2021) | Reprodução

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Por que o romance lésbico ainda encontra resistência?

O protagonismo do romance lésbico é menos aceito pelo público geral e fica restrito a um público nichado que deseja muito se ver representado nas telas.

Torna-se muito mais convidativo para o público, em geral, consumir séries focadas no sentimento de “anseio” causado pelo desejo, desde que ele não seja entre duas mulheres.

Como a cultura encara a representação feminina?

De acordo com as autoras Ramayana Lira de Sousa e Alessandra Brandão, o audiovisual lésbico é representado pelas produções independentes e de menor alcance.

Ele se distancia das grandes massas, pois é nesses espaços que vemos a reprodução da objetificação do corpo e de comportamentos entendidos como femininos.

O olhar masculino no cinema

Se voltarmos ainda mais, nos anos 1970, Laura Mulvey escreveu em seu artigo “Prazer Visual e Cinema Narrativo” sobre como a figura da mulher no cinema é relegada ao lugar de objeto do olhar. 

Para Mulvey, a mulher no cinema (como um reflexo da sociedade da época), não poderia ser um agente de desejo, mas apenas ser vista como aquilo que o “olhar masculino” deseja.

Por isso, talvez exista essa dificuldade de encontrarmos comédias e romances sáficos dentro de um contexto mainstream. Porque, de algum modo, a representação e compreensão da figura feminina na cultura ainda está ligada a esse processo de sexualização de seus corpos. 

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Killing Eve (2018 – 2022) | Reprodução

Essa realidade teve muitos avanços, principalmente levando em consideração o controle criativo que mulheres vêm encontrando no cinema e na TV. Porém essa representação ainda é limitada majoritariamente a identidades cisheterossexuais e brancas. 

Precisamos de mais Heated Rivalries

Antes mesmo de Heated Rivalry, em 2022, a série A league of their own, baseada no filme de mesmo nome de 1993, apresentava um elenco feminino diverso e protagonismo lésbico.

Centrada em um time feminino de baseball profissional, em 1943, a série foi elogiada pela crítica e teve um bom desempenho com o público, porém foi cancelada depois de apenas uma temporada. 

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A League of their own (2022) | Reprodução

Novos caminhos para narrativas LGBTQIAPN+

É esperado que o sucesso de Heated Rivalry abra portas para que mais histórias LGBTQIAPN+ tenham a chance de encontrar o mesmo êxito.

Recentemente, o canal Crave anunciou a produção de Slo Pitch, descrita como uma “série de softball lésbico”. A comédia será uma espécie de mockumentary, seguindo os moldes de The Office e Abbott Elementary

Esses exemplos, assim como a série de fantasia da globoplay, Vermelho Sangue, também chamam a atenção para a necessidade de deixarmos o eixo EUA-Europa como principais produtores de referências.

Por enquanto, podemos continuar celebrando os êxitos de Heated Rivalry, para que mais séries como essas, ainda mais diversas, possam existir. 

Referências:

  1. BRANDÃO, Alessandra Soares; SOUSA, Ramayana Lira de. A in/visibilidade lésbica no cinema. In: HOLANDA, Karla (org.). Mulheres de cinema. Rio de Janeiro: Numa, 2019. p. 279-302.
  2. MULVEY, Laura. Prazer visual e cinema narrativo. In: XAVIER, Ismail (ORG.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018. p. 355-371.

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Historiadora e Mestre em Cinema e Audiovisual. Pesquisando estética, identidade e como desafiar os padrões. Nerd desde do berço e apaixonada por arte, cinema e educação.
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