Killing Eve: a viciante espiral obsessiva sobre mulheres quebrando regras

Killing Eve: a viciante espiral obsessiva sobre mulheres quebrando regras

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Existem inúmeras ocasiões na história da teledramaturgia onde derivados de livros ficam muito a dever aos seus precursores. Difícil encontrar uma unanimidade entre apreciadores de livros e versões audiovisuais, mas quando acontece, o sucesso da obra visual acaba sendo estarrecedor. E esse é o caso de “Killing Eve“, baseado na obra de Luke Jennings, Codename Villanelle e levado para a televisão por Phoebe Waller-Bridge (escritora e atriz do hit britânico “Fleabag“).

A repercussão da série foi tão grande que o fato de Villanelle ter visitado os livros primeiro não chega a ser um fato conhecido por todos. Tanto falatório não é pra menos, quando estamos falando de uma das melhores séries produzidas na última década. Atraindo desde fãs apaixonados pelo gênero do crime até amantes da escrita, “Killing Eve” é uma obra inspiradora não só para quem consome audiovisual como para os criadores de universos autorais.

Um conto sobre obsessão

“Killing Eve” é uma série que estávamos precisando. Tanto para quem, por muito tempo, esperou uma interação feminina vista por suas próprias lentes e não estereotipadas, como por aquelas ansiosas em consumir obras sobre crimes, psicopatas e o famoso jogo de gato e rato. Aqui, ele não falha. Não decepciona. Cada cena é aproveitada para acrescentar algum elemento visual ou narrativo aos personagens: cenários de encher os olhos que nos fazem ter vontade de viajar, o esmero para que o vestuário dos personagens reflita seu estado e personalidade, a trilha sonora que reflete perfeitamente o sentimento do instante que se desenrola, a tensão criada plano após plano pelos personagens de sólida construção… E ao centro deles: Eve (Sandra Oh) e Villanelle (Jodie Comer). Ambas crescem exponencialmente em direção predestinada ao embate. O inevitável enfrentamento é de uma clareza que gera expectativa.

Villanelle (Jodie Comer) e Eve (Sandra Oh)

E se houvesse uma palavra capaz de contextualizar toda a saga de “Killing Eve”, esta seria obsessão. Mas obsessão por obsessão, já temos em vasta demanda no mundo dos filmes e seriados. A espectadora ama consumir horas consecutivas de um personagem obcecado, jogando-se numa teia de eventos que o leva mais e mais ao limite. Temos obsessões clássicas na história do cinema e das séries. Hannibal e sua Clarice. Sherlock Holmes e Moriarty. Porém, mesmo após tantos desenrolares já vistos, “Killing Eve” consegue inovar, trazendo quem assiste a sentimentos de genuína surpresa, empolgação, e a inevitável espiral em querer devorar um episódio após o outro, apenas para descobrir o destino final de Eve Polastri e sua nêmesis Villanelle.

Encontrando sua voz, seguindo seus instintos

Eve (Sandra Oh) é uma agente do MI5 incumbida de funções mais administrativas cuja ânsia por “algo a mais” está presente desde a apresentação de sua personagem. Perspicaz, astuta e com um intelecto que a faz se aborrecer diante do seu cotidiano. O trabalho no MI5 envolve apenas casos pequenos onde sua participação é limitada, como proteger testemunhas, funções administrativas, nunca uma agente em campo. Mas Eve é inteligente e intuitiva, trabalhando sozinha em suas próprias teorias.

Em específico, ela contextualiza uma série de crimes ocorridos num mesmo quadro e conclui que o perfil se encaixa no de uma assassina, contrariando seus superiores. Então, comum nesse contexto que suas ideias sejam podadas ou vistas como delírios pelo simples fato dela ser uma mulher, apontando outra como perpetuadora de crimes difíceis de serem executados. Tal situação é um reflexo da vida real que traz credibilidade para a trama.

Killing Eve

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É prática comum tentar silenciar a voz feminina, fazer com que a mulher sinta-se “louca” é subtexto tão recorrente que chega a ser clichê. Mas a série tem sensibilidade o suficiente para fazer quem assiste entender qual o problema na hora em que ele se apresenta. Eve também entende o cenário no qual se inclui, e a princípio encontra suporte apenas num importante aliado: seus instintos. E estes são um dos maiores guias da série. O tema instintos é abordado de todos os ângulos: social, carnal, passional, situacional. Os instintos são uma bússola tanto na vida de Eve quanto na de Villanelle. Ambas caminham na mesma batida, seguem a mesma nota que conduz o duo a um alinhamento passional atordoante.

Muito do que brilha em “Killing Eve” é sobre ser humano, sobre paixão. Sobre querer mais. Aqui encontramos a paixão em sair do lugar comum, a (falta) de paixão matrimonial, a busca constante por algo que faça seu coração pular. E a inconformidade de Eve encontra seu par no vazio de Villanelle. Ambos, vazio e inconformação, porém, extinguem-se quando uma entra na vida da outra. Polastri encontra na assassina a personificação de tudo no qual sempre acreditou, e autoafirmação ao ter ido contra a correnteza que a fazia pensar que persistia em erro.

Codinome Villanelle

Villanelle (Jodie Comer) não é apenas uma serial killer, uma criminosa a ser detida. É uma força da natureza. Jodie Comer faz o trabalho de sua vida trazendo uma antagonista que desperta simpatia, torcida, que faz quem assiste sorrir e vibrar em vários momentos.

A série tem seu início com o típico compasso moral onde os extremos entre o que é bom ou ruim estão ligados ao que seus personagens representam. Quem mata e quem busca justiça. Mas os estereótipos são jogados pela janela em meio ao charme e grandeza de Villanelle. Quem poderia ser um número a mais na lista de sociopatas em séries, aqui leva o coração do público por sua espontaneidade.

Killing Eve

O cuidado na criação da personagem é sentido, visto e processado por quem a acompanha. A atriz e a série não a deixam cair no cinismo puro — Villanelle cativa. Sorri em desafio, em surpresa, em satisfação consigo mesma. É dona de um visual elegante, mas que reproduz sua personalidade excêntrica, sendo seus figurinos um prazer à parte do seriado.

Durante os oito episódios, se descobre perante inusitadas situações sem nunca perder sua essência, sendo um desafio à altura de quem lhe busca. E a espectadora é colocada ao centro desse tabuleiro de xadrez entre as protagonistas, onde não há falha na construção de personagem alguma que nos faça dizer com certeza com quem está a nossa torcida. Mas torcida não importa muito quando temos o privilégio de testemunhar o entrave dessas duas mulheres complexas, interpretadas por atrizes eficientes no auge de suas performances.

Representatividade em foco

Encontramos também em Eve uma importante e poderosa voz. Uma protagonista de descendência asiática que não é feita de estereótipos. Ela é mostrada sob todos os ângulos: uma mulher inteligente, mas com inseguranças, em desconstrução, que desafia os homens ao seu redor. Bela, atraente, que embora a personagem não se foque muito em padrões de beleza, a série nunca a diminui. Pelo contrário, a elogia. Sandra Oh abraçou a oportunidade de mostrar-se sem amarras como uma personagem cativante, atraente, poderosa, mas ainda assim vulnerável, repleta de dúvidas e defeitos que a fazem ainda mais incrível.

Outras personagens, ainda, tomam centro e dianteira. Kirby Howell-Baptiste é uma das favoritas na série, interpretando Elena, melhor amiga de Eve, mulher negra de um intelecto poderoso, que sonha em tornar-se uma espiã e é habilidosa com tecnologias. Ambiciosa e firme em seus princípios, Elena possui vital importância para o desenrolar das investigações e que merece, definitivamente, mais destaque na próxima temporada. Fiona Shaw é Carolyn Martens, chefe de Eve, uma das comandantes nos jogos de poder. E apesar de existirem figuras masculinas, há boas surpresas com os personagens, que devem ser descobertas conforme se assiste. E os homens padecem do foco, sendo a narrativa sempre voltada para as mulheres.

Killing Eve
Elena (Kirby Howell-Baptiste)
Killing Eve
Carolyn Martens (Fiona Shaw)

Por fim, “Killing Eve” nos traz em Villanelle uma personagem cujos atos reprováveis não se conectam com sua identidade LGBTQ. Em sua cama, homens e mulheres, mas em momento algum o roteiro nos induz a pensar que o fato de não ser heteronormativa a trouxe ou é pano de fundo para os atos que ela comete — fato infeliz e recorrente no audiovisual, onde a sexualidade dos personagens de caráter duvidosos sempre estão atrelados. Sua sexualidade é independente, fluída, e nunca contestada. Ninguém a diminui, condena, ou associa sua vilania à suas escolhas. O roteiro é bastante cuidadoso para que a famosa assassina não seja vista como alguém que se limita. Villanelle não se importa. Não liga para nenhuma construção social padronizada, sendo que isso nunca é colocado sob holofote negativo. Nada é pejorativo, ofensivo, ou descuidado. Em “Killing Eve”, tudo é o que é. Nenhum julgamento. Os personagens existem e se sustentam em sua própria humanidade, sem que sejam vistos como caricaturas ou arquétipos.

Enfim, o reconhecimento

Sandra Oh finalmente tem espaço para usar de todo seu talento com um roteiro que não a mantém submissa a homem algum. Eve Polastri se desfaz de suas amarras episódio após episódio, e com eles, Sandra vai preenchendo cada segundo de tela com seu talento. A atriz entrega-se acima do que era possível fazer com a saudosa Cristina Yang, personagem pela qual herdou uma legião de fãs. Estes que vibraram com as premiações de 2018, que finalmente reconheceram sua performance, fazendo dela a primeira atriz descendente asiática a ser indicada como atriz principal ao Emmy. O sucesso também a fez ser a apresentadora do Globo de Ouro, junto com Andy Samberg. Essa é uma pequena amostra do quão poderosa é sua personagem e a dedicação entregues à “Killing Eve”. Uma série que ninguém deve perder.

Killing Eve está disponível no streaming da Globoplay.


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Escrevo onde meu coração me leva. Apaixonada pelo poder das palavras, tentando conquistar meu espaço nesse mundo, uma frase de cada vez.
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