Fleabag: a anti-heroína “má feminista” da comédia britânica

Fleabag: a anti-heroína “má feminista” da comédia britânica

Fleabag é uma série de comédia britânica lançada em 2016, pela BBC Three. A série também encontra-se disponível em streaming no catálogo do Amazon Prime Video. Com seis episódios no total, Fleabag foi criada pela dramaturga e atriz britânica, Phoebe Waller-Bridge, adaptando uma peça (de mesmo nome) que foi exibida no Festival Fringe de teatro, em Edimburgo. A produção conta com alta dose de humor britânico, além de ser uma deliciosa quebra da quarta parede, através dos comentários ácidos da nossa protagonista para a câmera, bem no estilo “House of Cards” e “Ferris Bueller’s Day Off”. 

A produção narra a vida de Fleabag (Phoebe Waller-Bridge), uma mulher na faixa de 30 anos, com posturas morais questionáveis e relações familiares e afetivas disfuncionais. A série tem como objetivo retratar um quadro fiel do femininismo do século XVI, fiel no sentido trágico da ideia.

Aviso: O texto contém pequenas revelações que não estragam o prazer de assistir a série

O feminismo nos nossos tempos!

Em Fleabag, nossa anti-heroína é uma mulher que cumpriu toda cartilha do feminismo moderno. Dona do seu próprio negócio, tem o poder de escolher seus parceiros sexuais e não tem medo de suas ambições. Mas mesmo com tudo isso, se sente infeliz e procura desesperadamente suprir seu vazio interior através de sexo casual e palestras, além de retiros e exposições feministas.

Em uma dessas palestras, já no primeiro episódio, uma mulher de meia idade bem-vestida sobe ao palco, sob muitos aplausos. E diz: “Faço uma pergunta para as mulheres nesta sala hoje”, “Por favor, levante a mão se você trocaria cinco anos de vida pelo chamado corpo perfeito.” Fleabag e sua irmã, Claire (Sian Clifford), colocam a mão para cima sem vacilar. O resto da plateia observa horrorizada, e nossa protagonista vira para irmã e diz: “Somos más feministas”.

O primeiro episódio diz muito sobre a série. Temos uma boa introdução da estrutura dramática e da personalidade dos personagens. Em todos os episódios a direção manipula os ângulos de forma inteligente, e o enredo lida com os assuntos polêmicos de forma irreverente sem se comprometer. Um exemplo ocorre quando a série fala do luto e do suicídio. Sem cair no drama, a produção prefere ir para o lado do humor ácido e da ironia.

O feminismo presente na série está longe dos comerciais de maquiagem. Em todo momento, o roteiro ironiza as contradições presentes no movimento feminista. Há uma resistência de muitas correntes feministas, em discutir os perigos do empoderamento como um padrão de comportamento, onde em muitos casos pode causar sofrimento para mulheres que não conseguirão, por diversos motivos, se enquadrar no “‘modelo de sucesso” do empoderamento feminino.

Claire (Sian Clifford) e Fleabag (Phoebe Waller-Bridge)
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Família moderna! 

Em Fleabag, as relações afetivas são disfuncionais e carregadas de distanciamento. Com destaque a relação entres as irmãs, Fleabag e Clara – que não possuem nada em comum – as duas convivem entre si com certa formalidade e sofrem pela perda da mãe e do afastamento do pai, que encontrou uma nova companheira e relega as duas ao segundo plano. Além disso, através de lembranças conhecemos Boo, a melhor amiga da nossa patrogonista, que traída pelo seu namorado tenta se vingar simulando um acidente.

A rotina de Fleabag é marcada pelas lembranças do tempo de companheirismo com sua amiga Boo; uma relação de proximidade e amizade que ela nunca conseguiu ter com sua irmã, Claire. A irmã vive os dilemas de uma mulher moderna de sucesso e um casamento fracassado com Martin; que é o estereotipo do nosso tio do pavê. Já sua relação com a madrasta e ex madrinha é de uma sufocante agressividade. A madrasta se coloca como uma mulher feminista e moderna, porém suas atitudes são mesquinhas e irritantes para com suas enteadas. Todas as cenas divididas entre Fleabag e sua madrasta são afiadas e carregadas de constrangimento.

No quarto episódio temos uma dinâmica interessante, onde as irmãs são obrigadas à irem num retiro silencioso só para mulheres. O retiro exige que as participantes fiquem em silêncio, acima de tudo, enquanto fazem trabalhos como cuidar do jardim e limpar a casa. Ao mesmo tempo, na casa ao lado, ocorre um workshop para homens controlarem a raiva. Essa situação serve como metáfora de como homens e mulheres são vistos e tratados pela sociedade: paras mulheres, silêncios e limpeza, para os homens, agressividade e autoconfiança. No final do episódio temos um diálogo inusitado entre Fleabag e o gerente do banco, sobre desejos e esperanças para homens e mulheres.

Todos os homens da série são visto por um prisma depreciativo. Do namorado sensível, ao amante bonito e burro. Essa superficialidade está em conexão com a dificuldade da protagonista de construir relações sólidas e lidar com suas dores. Somente quando ela decide finalmente enfrentar o mundo sem brincadeiras e ironias, a série abre espaço para seu clímax final e um desfecho da temporada que convida as espectadoras a continuarem acompanhando a série na próxima temporada.

Fleabag não é uma personagem adorável, na real, ela é uma mulher irritante. Mas existe algo de universalizante em sua jornada. Mesmo sendo uma mulher branca de classe média, ela representa um pouco de todas as mulheres do mundo, com suas dificuldades em viver num mundo marcado por modelos de “certo” e “errado”.

Com uma segunda temporada confirmada para 2019, Fleabag já marcou seu espaço, como sendo umas das séries mais criativas dos últimos anos.

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Graduada em Ciências Sociais. Cineasta amadora. Viciada em livros, séries e K-dramas. Mediadora do Leia Mulheres de Niterói (RJ).
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