Chewing Gum: precisamos falar da roteirista, produtora e protagonista, Michaela Coel

Chewing Gum: precisamos falar da roteirista, produtora e protagonista, Michaela Coel

Poeta, atriz, cantora, compositora, roteirista e produtora. Michaela Coel, britânica de 29 anos, acumulou tudo isso no currículo quase acidentalmente. Ela foi sendo levada pelo próprio talento e alcançou muito rápido um patamar numa carreira que nem ao mesmo sonhou em ter. Recentemente, foi premiada com dois Bafta, de Melhor Performance Feminina em Comédia e Talento Revelação, todos pela série Chewing Gum. Pode ser que o humor absurdo da série pareça raso e completamente sem noção, mas tem muita vida real, profundidade e representatividade de onde ele saiu.

A história de Michaela Coel

Filha de pais ganeses separados antes dela nascer, Michaela cresceu no subúrbio de Londres, num conjunto habitacional, assim como sua personagem, Tracey Gordon. Ela e sua irmã foram criadas pela mãe, que ralou muito pra dar conta de educar e sustentar a família, por isso Michaela a considera sua super heroína.

Sua raça não chegou a ser um problema na sua educação, mas a classe social e sua aparência física (olhos e lábios grandes, entre outras coisas) sim, o que lhe causou muitos problema na vida escolar. A descendência africana também foi responsável por ela crescer ouvindo que ou trabalhava duro nos estudos ou morria engolida pela sociedade.

Chewing Gum

Aos 17 anos, Michaela se converteu à Igreja Pentecostal muito apaixonadamente, fanaticamente, alienadamente, e conseguiu levar sua mãe, irmã, seu namorado na época e alguns amigos da escola para sua nova crença. Foi lendo os Salmos e Provérbios da Bíblia que ela se inspirou para escrever poesia e começou a se apresentar em Cafés de Londres.

Um ator que percebeu seu talento sugeriu que ela entrasse numa escola de teatro. Ser atriz nunca tinha passado pela sua cabeça, mas acabou ganhando uma bolsa de estudos no Guildhall School of Music and Drama de Londres. Pouco depois, deixou a Igreja de lado, porque estava convencida de que seus amigos da escola, a maioria homossexuais, não precisavam ser salvos de nada.

Chewing Gum
Todo o charme e sensualidade de Tracey

Ela aprendeu a amar o teatro, mas embora gostasse muito das peças clássicas, contemporâneas e até das produções dos amigos, ela não teria espaço em nada daquilo, nem ao menos conseguia enxergar como ela se encaixaria. Por isso resolveu escrever sua própria peça. Foi assim que surgiu Chewing Gum Dreams, um monólogo dramático e obscuro apresentado como seu trabalho no fim do curso, estrelado por ela nos teatros de Londres. A protagonista era Tracey, uma menina de 14 anos enfrentando toda a confusão psicológica que existia em sua vida.

Para sua surpresa e sorte – ela admite, uma grande quantidade de sorte – a peça foi um sucesso, e sua agente enviou secretamente o roteiro para várias produtoras. Assim como não tinha pensado em ser atriz, Michaela acabou trabalhando na televisão também meio sem querer querendo. Procurando algo mais parecido com os trabalhos da produtora que a contratou, ela envelheceu Tracey em 10 anos e mudou todo o tom da peça para uma comédia absurda e nonsense, com o objetivo de gerar um certo desconforto no público com as situações embaraçosas.

Chewing Gum
Bafta 2016 de Melhor Performance Feminina em Comédia, usando o vestido feito por sua mãe com tecido de Gana.

Além de atuar, produzir e protagonizar Chewing Gum, Michaela ainda compôs e interpretou o tema de abertura e mais 5 faixas da 1ª temporada. E assim como sua carreira foi surgindo meio acidentalmente, ela continua aceitando projetos que aparecem e se dedicando 100% ao trabalho, cuidando pra não enlouquecer, claro, e amando cada passo que dá, valorizando e focando no presente.

Foi só ano passado que a Netflix comprou os direitos da série e alavancou o público, o que proporcionou uma segunda temporada e dois Bafta. Para Michaela, o fato da série estar a princípio num canal pequeno britânico, com uma protagonista negra em um conjunto habitacional do subúrbio, onde todo mundo é pobre, fizeram o público assumir que não era uma história pra eles. A receptividade só mudou com o Bafta. Ela fica feliz que a série continue por isso, mas também lamenta que as pessoas precisem de prêmios pra enxergar criações de negros.

A história de Chewing Gum

Não é preciso pensar muito pra notar que Tracey Gordon é um pouco auto-biografia de Michaela Coel, mas a artista não consegue decidir se as duas são muito iguais ou muito opostas. Isso porque Tracey tem a cabeça de uma criança no corpo de uma adulta, que foi limitada à religiosidade fanática da mãe africana a vida toda e aos 24 anos resolveu renunciar o celibato para finalmente perder a virgindade.

Chewing Gum
Aprendendo com as melhores: Esther e Candice

Deixando Jesus um pouco de lado, agora Tracey reza para Beyoncé. Mas para Tracey, fazer sexo e pertencer à sociedade “mundana” é um universo paralelo tão distante que lidar com tanta novidade e desejos faz ela se meter em situações extremamente constrangedoras. De forma exagerada, Tracey vive muitas das dúvidas e medos pelos quais toda mulher passa. Inclusive Michaela.

Além do passado religioso, Michaela Coel também empresta algumas de suas próprias histórias nonsense para a série, como no episódio da 2ª temporada em que Tracey vai a um clube de sexo. Logo que deixou a religiosidade, Michaela foi a um desses clubes sem querer, só para agradar o namorado (que agora é ex, amém, Beyoncé) e se sentiu totalmente desconfortável.

Chewing Gum

A comunidade em que Tracey vive não faz caso de sua raça, assim como Michaela, e as pessoas são bem unidas, de um jeito bizarro, mas bem unidas. Sua melhor amiga, Candice, é quem faz o papel de guia nessa nova vida de Tracey, mas a protagonista entende tudo a pé da letra ou não entende nada e interpreta do jeito que lhe vier à cabeça.

Joy, a mãe da família Gordon, funda uma Igreja clandestina no condomínio, enquanto o pai não poderia ser mais ausente. Cynthia, irmã de Tracey, consegue ser a mais alienada da série, interpretada maravilhosamente por Susan Wokoma. Ela parece estar pronta para trazer o fogo do inferno para queimar os pecados de todo mundo, mas do jeitinho dela, é apaixonada pela irmã e quer protegê-la, mas ao mesmo tempo segui-la.

Chewing Gum

Numa saga eterna para atrair o desejo sexual do namorado Ronald, Tracey acaba descobrindo que o celibato do rapaz tem mais a ver com o peitoral de Jesus do que com a falta de desejo por ela. É aí que surge Connor, o vizinho estranho que acha que é poeta e se torna o novo alvo de Tracey.

A série é muito engraçada, com personagens bizarros surpreendentemente complexos e imprevisíveis, traz com muito humor discussões sobre religião, sexualidade, ser mulher, desigualdade social, racismo, body shaming, machismo, drogas… E sim, é desconfortável de um jeito que faz você rir, mas ao mesmo tempo querer gritar “Não faz isso, Tracey!”. Tudo isso da perspectiva de uma artista que sabe do que está falando. Embora a 2ª temporada não arranque tantas risadas como a 1ª, continua sendo muito boa.

Michaela Coel é uma multi artista que sabe quem é. Embora seja inevitavelmente comparada com outras mulheres roteiristas que protagonizam as próprias séries, como Lena Dunham (Girls), ela insiste que sua identidade não vem do teatro ou do seu trabalho como atriz, e sim da sua raça, da sua experiência com o cristianismo e da classe na qual nasceu. E isso faz de Chewing Gum um trabalho autêntico, com um frescor que provavelmente foi uma das maiores surpresas em comédia de 2016.

 

 

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Bagunceira e bagunçada, por dentro e por fora. Prefere ver séries em maratonas, menos Game of Thrones, porque detesta spoiler. Totalmente apaixonada por desenho e animação. Tem mania de citar filmes em conversas, conselhos, brigas ou onde couber uma referência. Prefere gastar dinheiro com quadrinhos do que com comida, sendo muito entusiasta do quadrinho nacional e graphic novels em geral. Formada em Jornalismo, mas queria mesmo trabalhar com roteiro e ilustração.
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