[CINEMA] “Ansiosa Tradução” e “O Visto e o Não Visto”: fábulas sobre a ausência pelo olhar das crianças

[CINEMA] “Ansiosa Tradução” e “O Visto e o Não Visto”: fábulas sobre a ausência pelo olhar das crianças

Ansiosa Tradução e O visto e o não visto são dois longas-metragens ficcionais que tomam como ponto de partida a fabulação infantil para lidar com ausências. O primeiro se constrói a partir de registros sonoros deixados pelo pai da pequena protagonista Yael (de 8 anos de idade) em forma de fita cassete.

Ansiosa Tradução

Ansiosa Tradução (Nervous Translation) se passa no final dos anos 1980 em Manila, capital Filipina, e remonta a um período de diáspora em que muitos foram buscar melhores oportunidades de vida fora de seu país de origem. A diretora Shireen Seno é fruto dessa realidade, uma vez que nasceu no Japão, mas sua família tem origem Filipina. De certa forma, portanto, o filme tem aporte em memórias autobiográficas, já que a diretora aparenta querer revisitar sua cultura familiar através do cinema. Vale ressaltar que Shireen Seno começou a carreira como fotógrafa still do aclamado diretor filipino Lav Dias.

A fim de tentar “traduzir” o sentimento paterno, Yael passa os dias escondida, escutando as fitas que seu pai manda com gravações recheadas de saudosos monólogos. Nessas fitas, resta claro que o objetivo é estabelecer uma relação de afeto à distância, a fim de cultivar vínculos familiares. Mãe e filha parecem um tanto quanto distantes e o ponto alto do filme é a miniaturização dos hábitos cotidianos registrados de forma primorosa pela fotografia e direção de arte. A distância entre mãe e filha se evidencia na dificuldade em se criar e educar uma criança sozinha, já que a ausência da figura paterna é demonstrada de forma premente no filme.

Ansiosa Tradução
“Ansiosa Tradução”, de Shireen Seno

Ansiosa Tradução

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Cada detalhe filmado num tempo distendido, próprio da imaginação infantil, é conduzido de forma primorosa por Shireen Seno. Os silêncios, o balançar de cortinas, o rec do gravador, o arrancar de cabelos brancos da mãe, os braços cobertos por ataduras que simulam uma ave presa que deseja alçar voo vão compondo o design de produção desse longa que, nas miudezas e nos detalhes, costura uma narrativa sólida, melancólica, mas jamais piegas, sobre a ausência, a solidão e a memória.

Merece destaque a magnífica atuação da pequena Jana Agoncillo e, consequentemente, a direção de atores, uma vez que a protagonista consegue com poucas palavras exprimir na tela os sentimentos tão profundos da personagem. É através do ponto de vista da atriz mirim que vamos conhecendo sua família, sem contudo serem revelados detalhes peculiares para além dos interesses de uma criança de 8 anos.

Um dos pontos de contato entre os dois filmes é justamente o silêncio e o caráter imersivo que marca os roteiros. Apostar no silêncio ou em poucos diálogos num cinema narrativo, nem sempre é uma tarefa fácil, pois pode facilmente perder o espectador que não esteja muito atento.

O visto e o não visto

No caso de O visto e o não visto (The Seen and Unseen) o silêncio é registrado através de performances belíssimas para emoldurar relações invisíveis e instáveis. Na trama, somos apresentados aos irmãos gêmeos Tantri (Thaly Titi Kasih) e Tantra (Ida Bagus Putu RadithyaMahijasena). Logo nos primeiros minutos vemos a chegada do menino ao hospital e uma enorme resistência da irmã em conseguir atravessar a porta do quarto em que sua outra metade é internada. Aos poucos ela vai se aproximando desse ambiente estéril e pouco acolhedor e cria jogos mentais para estabelecer conexões com o irmão enfermo.

O Visto e o Não Visto
“O Visto e o Não Visto”, de Kamila Andini

O Visto e o Não Visto

Uma beleza singular presente na construção do roteiro é o fato da ancestralidade ser costurada através de crianças. Quando pensamos em ancestrais e espiritualidade geralmente nos vem à mente pessoas mais velhas que, em geral, emulam uma ideia de sabedoria e experiência.

No filme da cineasta indonésia Kamila Andini o que se desenha em tela é uma falange de crianças ancestrais que surge para acalentar o coração da pequena Tantri ao ter que lidar com a doença de seu irmão. Uma dolorosa “ausência presente” que atravessa a fronteira do visível e se comunica na espiritualidade ao costurar os elementos mais simbólicos do roteiro como o ovo, o galo, o macaco e a plantação de arroz. Os elementos da natureza são a chave de uma cultura apresentada de forma lunar, em que as principais ações do filme acontecem no escuro da noite.

Ansiosa Tradução, de Shireen Seno, e O visto e o não visto, de Kamila Andini, são, portanto, dois grandes filmes, com temáticas similares, apesar de abordagens totalmente diferentes e inovadoras. Em ambos, as diretoras partem de micro afetos para, de forma alegórica, abordar questões estruturais de suas cosmopolíticas culturais. Esses filmes estão na Mostra Competitiva de longas-metragens do VII Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.

Autora:

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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