[CINEMA] “Nossa Casa” e a fantasmagoria do cotidiano feminino (crítica)

[CINEMA] “Nossa Casa” e a fantasmagoria do cotidiano feminino (crítica)

A mostra Outros Olhares, do VII Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba faz um diálogo entre filmes ainda inéditos e filmes que já possuem uma trajetória nacional e internacional em festivais e mostras recentes. Com isso, encontramos uma grande variedade de propostas, estilos, linguagens e abordagens, feitos em torno de uma série de polaridades que reflete o mundo atual, de extremos em que vivemos.

O longa-metragem ficcional Nossa Casa, da cineasta japonesa Yui Kiyohara, foi seu trabalho de conclusão de curso e contou com a orientação do aclamado diretor Kiyoshi Kurosawa. A casa em que a narrativa se passa é muito importante na construção do roteiro, pois cada detalhe de suas paredes, tapetes, móveis e utensílios de cozinha são simbolismos indicadores de qual realidade a espectadora está desfrutando.

Nossa Casa

Nossa Casa

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Numa experimentação formal, ao fracionar tempo e espaço no mesmo escopo rítmico, a diretora apresenta dois núcleos de personagens que habitam e orbitam o mesmo ambiente físico. No primeiro núcleo, vemos uma adolescente de 14 anos e sua mãe, e no outro, uma moça que acolhe uma mulher um pouco mais velha que afirma ter perdido a memória. Praticamente nada é muito explicado ao longo da trama, o que pode causar um certo estranhamento e desconforto na espectadora. Porém, esse recurso é extremamente eficiente para criar a atmosfera narrativa de um certo suspense, que aos poucos vai se aprofundando, ao se somar com elementos sonoros que compõem camadas no extracampo.

A relação dessas duas duplas de mulheres vai se espelhando e se adensando ao longo da narrativa, sem deixar escapar o eixo central do filme, que é a inevitabilidade da incomunicabilidade das relações, sejam elas perenes ou duradoras. Curioso notar que em ambas as realidades, o elemento desestabilizador das relações seja uma figura masculina, e isso certamente é uma escolha interessante e interessada na elaboração do roteiro. Não à toa, o encontro entre os dois mundos apresentados no filme ocorra justamente quando uma determinada fronteira é borrada.

O elo que une os dois núcleos de personagens é da ordem da fábula e confere o delicioso tom farsesco e minimalista que a direção primorosa de Yui Kiyohara imprime na trama. Esse, certamente, é o filme mais inusitado sobre fantasmas que possivelmente veremos nesse festival, em que memórias e segredos nos assombram, a ponto de nos fazer ter medo de nós mesmas. 

Autora:

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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