[CINEMA] “Um Abraço, na Sororidade” revisita o feminismo da década de 70 (crítica)

[CINEMA] “Um Abraço, na Sororidade” revisita o feminismo da década de 70 (crítica)

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A mostra Outros Olhares, do VII Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba faz um diálogo entre filmes ainda inéditos e filmes que já possuem uma trajetória nacional e internacional em festivais e mostras recentes. Com isso, encontramos uma grande variedade de propostas, estilos, linguagens e abordagens, feitos em torno de uma série de polaridades que reflete o mundo atual, de extremos em que vivemos.

Na década de 1970 surgiu uma revista nos EUA chamada “Ms.” Essa revista foi pioneira não apenas por ser a primeira revista de grande circulação com temática feminista, mas também por ter uma redação inteiramente feminina, ou seja, foi a primeira revista criada, mantida e operada por mulheres. A segunda onda feminista estava em plena ebulição e havia uma sessão de contos e matérias que poderiam ser debatidas através das “cartas das leitoras”.

Tendo como ponto de partida centenas dessas cartas, cujo conteúdo pode ser acessado através do arquivo público “Ms. Letters, 1972-80”, uma coletânea do acervo da Biblioteca Schlesinger em Radcliffe, a diretora Irene Lusztig, que também assina o roteiro e a montagem do documentário Um Abraço, na Sororidade (Yours in Sisterhood), utiliza a chave da performance para perscrutar uma releitura de cartas feministas, passados mais de quarenta anos. Ao todo, Irene leu em torno de 2.000 cartas, todos os dias ao longo de 4 semanas, para selecionar as que fariam parte de sua obra.

Um Abraço, na Sororidade

Um Abraço, na Sororidade

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É inegável a surpresa com que mulheres das mais variadas idades, etnias, classes sociais e profissões, em pleno 2018, leem as cartas escritas há tanto tempo, mas que poderiam ter sido elaboradas por quaisquer uma de nós hoje. Com um dispositivo semelhante ao de uma “mensagem na garrafa” que almeja encontrar sua interlocutora em épocas e lugares distintos, o trabalho de pesquisa do filme é primoroso e merece ser evidenciado.

Passando por inúmeras cidades e Estados norte-americanos, a diretora buscou mulheres que de alguma forma dialogassem diretamente com as cartas selecionadas para serem lidas e comentadas no desenrolar da projeção. O formalismo clássico documental, sem qualquer inovação em termos de linguagem cinematográfica é uma proposta intencional da diretora, que não privilegia a forma, o que resta evidenciado no fato de não haver qualquer experimentação de movimento de câmera ou uso de trilha sonora, pois o que se pretende é dar total protagonismo e provocar uma profunda imersão nos textos lidos.

Um Abraço, na Sororidade

Por fim, importante ressaltar a interseccionalidade na elaboração do roteiro, já que não se trata de um filme que pretende homenagear a revista, mas sim investigar que feminismo era aquele aventado pelas editoras da “Ms.” e o que os movimentos feministas hoje teriam a dizer sobre aquele momento histórico. Não à toa, com exceção de uma única carta, todas as demais selecionadas para compor a narrativa foram justamente a das cartas não publicadas pela revista no período compreendido de 1972 a 1980. As cartas rejeitadas, portanto, evidenciam uma carga simbólica importantíssima na investigação do feminismo de ontem e de hoje.

Um Abraço, na Sororidade é um filme que merece ganhar as salas de cinema brasileiras urgentemente, além de se fazer circular nos mais diversos formatos como streaming e cineclubes a fim de alcançar a maior pluralidade de público possível.


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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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