Atlanta: uma das melhores séries da atualidade que você precisa assistir!

Atlanta: uma das melhores séries da atualidade que você precisa assistir!

Atlanta foi ao ar em 2016 e a primeira temporada contava com 10 episódios e, apenas duas semanas depois da estreia, a FX aprovou a produção de uma segunda temporada. Donald Glover, idealizador, escritor e, às vezes, diretor da série, disse que quando começou a pensar em Atlanta estava preparado para “falhar espetacularmente”, mas precisava primeiro ir ao ar, e era isso que ele queria. Segundo Glover, ele fica ainda mais surpreso que a FX por Atlanta ser a série mais assistida da história do canal.

Em entrevista para o The New Yorker, Glover conta que quando o material foi aceito pela FX sabia o que eles queriam: uma serie que se parecesse com Community, seu antigo trabalho da NBC, e foi por causa disso que ele disse ter sido necessário usar o efeito Cavalo de Tróia. Ele sabia que não iriam produzir a série se ele a apresentasse exatamente como queria que ela fosse feita, por isso precisava de um plano para torná-la mais palatável. É o mesmo que Jenji Kohan, criadora de Orange is the new black diz ter feito colocando Piper como personagem principal.

O irmão de Donald contou na entrevista: Donald prometeu, “Earn e Al trabalham juntos para ter sucesso na indústria musical. Al fica famoso por atirar em alguém e agora ele tenta lidar com a fama, e eu terei músicas novas pra ele toda semana. Darius vai ser o engraçado, e o grupo vai ficar junto”. Esse era o cavalo de troia.

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Muito além de “tentar lidar com a fama” o que Earn, personagem de Glover, e Al (Brian Tyree Henry), primo de Earn fazem, assim como a série em geral, é mostrar como é ser um homem negro de Atlanta, EUA. Em junho de 2018, Antwon Rose Jr., um estudante negro de 17 anos foi baleado três vezes por um policial por supostamente ter fugido de uma blitz.

No funeral de Antwon, que contava com a presença de centenas de pessoas, alguém se levantou e leu um poema escrito por ele aos 15 anos. O poema, intitulado “Eu não sou o que você pensa” (I am not what you think) expressava o medo e o que Antwon, enquanto um jovem negro, entendia ser o seu caminho:

“Eu me pergunto qual caminho devo seguir/ Eu ouço que só existem duas saídas/ […] Eu vejo mães enterrando seus filhos/Eu quero que minha mãe nunca sinta essa dor/Eu estou confuso e com medo.” (I wonder what path I will take. I hear there’s only two ways out, […] I see mothers bury their sons / I want my mom to never feel that pain / I am confused and afraid).

Assim como Antwon usa a poesia e, portanto, a arte, para expressar o seu sentimento de medo e confusão sobre sua vida, Al busca essa expressão através do rap. Em Atlanta, Al diz, em determinado momento da série, que ele assusta pessoas em caixas eletrônicos e é por isso que ele precisa ser um rapper. Usando o nome artístico Paper boi e com sua música tocando nas rádios, Al acredita que com a fama, enfim, será bem tratado e respeitado, mas não é bem isso que acontece. A série mostra humilhações que ele enfrenta diariamente mesmo após conseguir certa fama e status de rapper e até por quem conhece o trabalho dele, mostrando que ninguém liga muito para o fato de que ele tem uma música tocando no rádio – ou talvez liguem o suficiente para pedir uma foto que pode ser usada pra ganhar alguns likes na internet.

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Já Earn, apesar do que se pode compreender nos primeiros episódios, não é o estereótipo do cara largado que não quer fazer nada na vida e vive pedindo dinheiro para mãe – apesar de fazer cada uma dessas coisas logo no início. Ao contrário, Earn não é, e nem pode ser esse cara. Primeiro, ele tem uma filha e, ainda que o cuidado diário fique com a mãe da criança, Vanessa (Zazie Beetz), Earn compreende que a criança também é responsabilidade sua, mesmo que sua participação se limite muito à parte financeira (e às vezes nem isso). Segundo, a série deixa claro que o problema de Earn não está em não querer fazer nada da vida, ele só não sabe o que fazer da vida.

Há uma expectativa social que as pessoas tenham seu caminho traçado, que elas acordem cedo todos os dias e façam alguma coisa em prol de alguma outra coisa, nem que seja ir trabalhar em um emprego horrível todos os dias para garantir que você possa ter um teto sobre a sua cabeça e comida na mesa. A vida é assim e você precisa fazer a sua parte, dizem as pessoas. Earn deixa claro que não concorda com isso e não quer viver assim, ele quer fazer alguma coisa que não mate sua alma aos poucos todos os dias, apesar de não fazer ideia do quê essa coisa seria. Por outro lado, Earn só pode se dar ao “luxo” de não querer trabalhar em algo que odeia e viver em busca de alguma coisa que faça sentido por causa do trabalho e da responsabilidade assumida por Vanessa.

O relacionamento de Vanessa e Earn permanece como algo indefinido na série. Sem ter casa ou onde dormir, ele pode dormir na casa de Vanessa quando contribui com as despesas, mas ao mesmo tempo sai com outras pessoas. Quando quer ir em um evento e precisa de companhia, ela leva Earn.

Entretanto, em alguns momentos fica bastante claro a sua insatisfação com o arranjo do relacionamento. A série aborda, nesse ponto, a questão da solidão da mulher negra, demonstrando uma vivência enfrentada diariamente onde os corpos de mulheres negras não são vistos como merecedores de serem amados.

Bell Hooks, autora e pesquisadora estadunidense, em seu texto “Vivendo do Amor” esclarece como as mulheres, sobretudo as mulheres negras, são socializadas para cuidar e amar os outros e não a si mesmas. Vanessa sente ciúmes de Earn, checa as redes sociais e fica brava quando vê seus stories com outra mulher. E é assim que o relacionamento deles é levado. Donald Glover, ainda em entrevista a The New Yorker, disse que na FX ninguém entendia o casal e “isso é cada uma das minhas tias – você tem um filho com um cara, ele fica por perto, você ainda é atraída por ele. Pessoas pobres não podem pagar por terapia”.

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É Vanessa que enfrenta diariamente o peso de manter a casa e garantir certa estabilidade no sustento da filha, assumindo uma jornada tripla de mãe, trabalhadora e dona de casa. A mulher que cuida dos filhos e mantém a casa ordem enquanto o marido/pai das crianças tenta se encontrar na vida não é incomum na sociedade – e nem na cultura pop. É comum que seja visto como inerente à condição de mulher a realização de trabalhos domésticos acumulados com o trabalho tradicional.

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Conforme abordado por Angela Davis no livro “Mulheres, raça e classe”, afazeres domésticos consomem cerca de 3 a 4 mil horas do ano de uma dona de casa, considerando que um ano tem 8.760 horas, quase metade dele é gasto com cuidados da casa, tudo isso sem considerar o emprego formal e o cuidado com os filhos.

O trabalho doméstico é ignorado enquanto uma forma real de trabalho e, enquanto obrigação, recaí quase sempre no colo das mulheres. Homens na mesma situação de Earn, por exemplo, poderiam assumir as tarefas de casa – que ainda são diferentes dos cuidados infantis, mas isso não acontece nem na série e nem na vida cotidiana.

Atlanta levanta ainda outras discussões, como as consequências do bullying na infância, no maravilhoso episódio intitulado “F.U.B.U.” (S2xE10) ou o outro episódio genial e cheio de controvérsias, “Teddy Perkins” (S2xE6), protagonizado por Darius (Lakeith Stanfield), amigo de Al e também de Earn. Cada episódio vem preenchido de questões mais profundas e analises que, de cara, podem passar despercebidas, ao bom estilo Cavalo de Tróia. Talvez seja isso que torne a série tão única – e tão complexa.

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Formada em Direito e estudando Jornalismo, já esteve muito perdida na vida, agora talvez esteja um pouco menos. Metade Frankie e metade Grace, segue escrevendo, tentando cumprir as metas de leitura e ouvindo podcast. Acredita fortemente que um dia vai tomar rumo nessa vida.
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