[LIVROS] Mulheres, Raça e Classe: O que feministas brancas podem aprender com Angela Davis

[LIVROS] Mulheres, Raça e Classe: O que feministas brancas podem aprender com Angela Davis

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Publicado originalmente em 1981, Mulheres, Raça e Classe é uma obra clássica da filósofa americana Angela Davis que foi lançada em 2016 aqui no Brasil. Nela, a ativista feminista e defensora dos direitos civis da população negra faz uma análise da diferentes formas de opressão sofridas por mulheres negras nos Estados Unidos, resgatando fatos históricos para mostrar como essas opressões se entrelaçam em um sistema estrutural que persiste até hoje em dia.

Apesar de ter sido lançado há 36 anos, Mulheres, raça e classe continua sendo um dos livros mais importantes para compreender o feminismo interseccional, sendo uma leitura necessária para todas que visam entender melhor como diferentes opressões de minorias se intercalam na sociedade, sem necessariamente se sobrepor uma a outra. Os temas abordados no livro são complexos, mas a linguagem direta com que Angela Davis os apresenta possibilita uma fácil compreensão para qualquer leitor, mesmo aqueles que nunca estudaram a respeito.  

Angela Davis

A experiência com a obra é de descoberta e aprendizado, por isso percebemos que apenas uma resenha do livro não seria o bastante para explicar todo o seu potencial, e principalmente não seria o bastante para explicar para outras feministas brancas a importância da sua leitura. Assim, decidimos listar alguns dos pontos principais que podemos aprender com Mulheres, raça e classe, para transformar a nossa luta feminista em um movimento mais inclusivo, que compreende as relações de opressões sofridas por mulheres negras:

1. A história que nunca nos contaram

“Embora tenham colaborado de forma inestimável para a campanha antiescravagista, as mulheres brancas quase nunca conseguiam compreender a complexidade da situação da mulher escrava. As mulheres negras eram mulheres de fato, mas suas vivências durante a escravidão — trabalho pesado ao lado de seus companheiros, igualdade no interior da família, resistência, açoitamento e estupros — as encorajam a desenvolver certos traços de personalidade que as diferenciavam da maioria das mulheres brancas”. 

Todas sabemos que a história foi escrita por homens brancos, entretanto poucas vezes paramos para realmente estudar fatos históricos sob outras perspectivas. No primeiro capítulo do livro, intitulado “O legado da escravatura: bases para uma nova natureza feminina” Davis retrata uma sociedade escravocrata muito diferente daquela que nós aprendemos na escola. A autora já começa explicando que a maior parte dos livros estudados por acadêmicos que retratam a escravidão falam apenas da realidade vivida por homens, apagando violências sofrida apenas pelas mulheres negras.

Mulheres, raça e classe traz então um novo olhar sob esse fato histórico. Angela Davis consegue não apenas contar a história de uma forma diferente, mas também explorar como a escravidão reflete ainda no presente, tendo suas marcas na construção do papel da mulher negra na sociedade. Para nós brancas, por exemplo, é fácil compreender porque nossas ancestrais feministas lutavam a favor da desconstrução da feminilidade, querendo romper com o estereótipo da mulher frágil e submissa.

Para as mulheres negras, entretanto, essa luta durante e após a escravidão era muito diferente, pois o papel de “frágil e submissa” nunca foi dado a elas. Durante a escravidão, mulheres eram tão exploradas e desumanizadas quanto homens, sendo submetidas ao mesmo tipo de trabalho que os seus companheiros negros, com a única diferença sendo a vulnerabilidade para a violência sexual. Esse é apenas um dos exemplos que a autora usa para demonstrar como o foco do feminismo sempre foi questões que interessavam apenas às mulheres brancas.

2. Nem todo homem

Calma, aqui não estamos falando da famosa frase que os homens usam para diminuir o que nós falamos, e sim sobre a diferença entre o homens brancos e negros. Para nós mulheres brancas é muito comum generalizar a classe masculina e imaginar que a misoginia acontece sempre da mesma forma. Porém, é preciso notar que existe uma grande diferença de poder entre eles.

Em Mulheres, raça e classe Davis fala sobre como a opressão de raça afetou o homem negro, e até mesmo sobre como a sociedade de escravos era igualitária, pois como eram explorados da mesma forma, o trabalho de homens e mulheres eram vistos como iguais. Além disso, a autora traz histórias de homens que lutaram junto com suas companheiras pelo direito das mulheres. Frederick Douglass, por exemplo, foi um importante escritor abolicionista estadunidense que lutou não apenas pela igualdade de raça, mas também de gênero, defendendo sempre o voto feminino, entre outras conquistas políticas das mulheres. Entretanto, raramente nós mulheres estudamos sobre a sua história ou compreendemos a sua importância histórica no nosso movimento, enquanto por outro lado, muitas vezes basta um homem branco famoso dar uma entrevista dizendo que apóia o feminismo para que ele se torne admirado por muitas. 

3. O racismo do movimento feminista

Um dos aspectos mais importantes do livro é a crítica de Angela Davis aos movimentos feministas liderados por mulheres brancas. A autora cita momentos específicos em que nós mulheres brancas fomos incapazes de compreender as demandas das mulheres negras,como por exemplo no movimento sufragista, que lutava pelo voto feminino e ao mesmo tempo argumentava que homens negros não deveriam receber o voto antes pois não tinham “capacidade” para votar. Davis fala também sobre diversos momentos em que feministas brancas excluíram negras de eventos e congressos, para poder ganhar o apoio de pessoas do sul que não eram a favor da participação delas. Mulheres, raça e classe, mostra um lado diferente dos movimentos feministas, um lado que não estamos acostumadas a ver, mas que é importante conhecer e refletir, para que não venhamos a cometer os mesmos erros.

4. A importância de ler autoras negras

Angela Davis traz um potencial revolucionário, e ler sua obra é tarefa essencial para quem pensa um novo modelo de sociedade.” — Djamila Ribeiro

O próprio fato do livro, que é um dos mais importantes para o feminismo negro, ter demorado 35 anos para ser publicado no Brasil já demonstra a falta de representatividade de mulheres e pessoas negras na literatura. Entrar em contato com o livro e a história de vida de Angela Davis apenas reforça a convicção de que é necessário nos aprofundarmos e lermos ainda mais autoras como ela. A perspectiva que Angela Davis apresenta em seus textos infelizmente ainda é nova para a maioria de nós, por isso mesmo se torna cada vez mais necessário ler esse tipo de narrativa que influência a forma de compreender a nossa luta feminista.

https://www.youtube.com/watch?v=7LLqnUX6p4M


Angela Davis

Mulheres. Raça e Classe

Angela Davis

248 páginas

Boitempo Editorial

Onde comprar: Amazon


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Autora

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Feminista. 20 anos. Libriana indecisa com ascendente em leão que sonha em viajar o mundo. Estudante de publicidade e propaganda, apaixonada por séries, livros, filmes e levemente viciada em ver fotos de animais fofinhos na internet.
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