Sexta Feira Muito Louca (Freaky Friday, no título original), lançado em 2003, nem sequer foi o primeiro filme feito a partir do livro de Mary Rodgers, lançado nos anos 70. O primeiro, de 1976, estrelava Jodie Foster e Barbara Harris como a filha e mãe que trocam de corpo uma com a outra.
Porém, o filme de 2003 foi um grande sucesso, principalmente pelo apelo de suas atrizes, Lindsay Lohan e Jamie Lee Curtis, assim como o excelente roteiro e a ótima direção de Mark Waters.
Já nos anos 20 do século XXI, onde tudo que Hollywood produz são remakes ou filmes de franquias de sucesso de outras áreas (como quadrinhos, videogames e livros bestsellers), já era de se esperar que o grande sucesso de Freaky Friday renderia uma sequência.
A princípio, a Disney planejava lançar o filme apenas em seu streaming. Porém, as atrizes lutaram por uma estreia nos cinemas. Infelizmente, o filme não conseguiu chegar perto da qualidade do primeiro.

O enredo de Uma Sexta Feira Mais Louca Ainda
Em Uma Sexta Feira Mais Louca Ainda, Anna (Lindsay Lohan) é uma adulta beirando os 40 anos, com uma filha adolescente chamada Harper (Julia Butters). Na escola, Harper é forçada a fazer um trabalho de laboratório com uma menina da qual não gosta nem um pouco: Lily (Sophia Hammons). Após uma briga, os pais das duas são chamados na diretoria. É aí que Anna conhece Eric (Manny Jacinto), o pai solteiro de Lily, e os dois se apaixonam.
Após um tempo (e uma elipse temporal) Anna e Eric estão planejando seu casamento, e Harper e Lily tem de relutantemente conviver como se fossem irmãs. Após encontrarem uma “vidente”, a troca de corpos acontece. Mas, dessa vez, entre as quatro personagens principais!
A troca de corpos agora é muito mais confusa
No começo é difícil entender quem trocou de corpo com quem. Principalmente porque as performances dos corpos trocados se baseiam mais em estereótipos do que na personalidade das personagens.
Por exemplo, Tess (Jamie Lee Curtis) troca de corpo com Lily, mas continua agindo como sua personagem no primeiro filme, quando tinha trocado de corpo com sua filha Anna. Tess começa a agir de forma super infantil e caricata, coisa que não vimos em Lily até então.

Esse descompasso gera muito estranhamento. Embora o filme de 2003 também apresentasse muitos estereótipos, o bom roteiro e as boas atuações davam conta de carregar o filme da melhor forma possível. Dessa vez, além do estranhamento por Lily e Tess nem sequer terem uma relação muito próxima, portanto não dando muita justificativa para a troca de corpos, os estereótipos incomodam por serem os mais básicos e descolados da realidade.
Por exemplo, Tess tem que tirar algumas fotos para o lançamento de seu novo livro. Lily, no corpo de Tess, começa a fazer a maior confusão e tira fotos com uma boca aumentada por gloss labial (provavelmente uma piada que se refere às imensas bocas feitas com injetáveis atualmente). Lily não havia demonstrado ser sem noção a esse ponto anteriormente. Mas o filme, que se escora em piadas físicas, passa por cima de tudo isso, por mais que não faça sentido algum para a história.
As piadas etaristas em Uma Sexta Feira Mais Louca Ainda são um enorme retrocesso
O maior pecado do filme, entretanto, estão nas piadas etaristas. Assim que percebem que trocaram de corpo, a primeira coisa que as meninas jovens fazem ao se olharem no espelho é xingar os corpos mais velhos de Tess e Anna. Isso até acontece em um primeiro momento no filme de 2003 também. Porém, em Uma Sexta Feira Mais Louca Ainda as piadas são muito piores e se estendem ao longo do filme inteiro.
Lily no corpo de Tess está toda hora falando como sua pele é flácida, zoando a suposta incontinência urinária dela, reclamando que os joelhos dela não funcionam. A pior cena é quando Lily/Tess anda pelo corredor de uma farmácia e sai pegando todos os remédios “para idosos” que vê pela frente, inclusive para problemas que Tess não enfrenta. Como se Lily fosse ignorante ao ponto de não fazer ideia de nada sobre a vida de idosos.

O filme apresenta essas cenas exageradas como forma de humor, mas é um humor extremamente mal construído e de mau gosto. Da mesma forma, as mais velhas nos corpos das adolescentes ficam maravilhadas. Tess no corpo de Lily fala alguma hora: “é a primeira vez que consegui me abaixar sem soltar um pum sem querer.”
Há maneiras de discutir os problemas do envelhecimento de forma bem humorada e respeitosa. Mas o filme não parece interessado nisso. As piadas são todas às custas do corpo idoso, e em idolatria à juventude, e jamais são subvertidas ao final. Hollywood realmente parece estar retrocedendo nas questões femininas, sem nem ao menos disfarçar, desfazendo todo o pouco progresso pelo qual lutamos na última década.
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O progresso é visto como uma performance por Hollywood
O filme de 2003 é hoje criticado pelo racismo com que tratou as personagens chinesas, que possuíam um restaurante frequentado por Tess e Anna, onde acontece a troca de corpos. O filme tratava essas personagens como exóticas. Elas falavam com sotaque carregado e possuíam costumes tidos como esquisitos (a tal da feitiçaria pelo biscoito da sorte).
O filme de 2025 tenta corrigir isso, em partes. A moça “mística” dessa vez é uma mulher branca. As mesmas personagens chinesas aparecem novamente, mas sem o sotaque carregado. O noivo de Anna, Eric, é um britânico de ascendência filipina, assim como sua filha Lily, e não é tratado como exótico em momento algum.

É bom notar esse tipo de correção na sequência. Porém, o filme também trata boa parte do movimento progressista como uma piada. Diversas frases “woke” saem da boca dos personagens como se fossem uma espécie de fase cultural muito engraçada.
Há, por exemplo, uma cena em que Eric se confunde com o significado da expressão “gaslight”, e as jovens o corrigem. O filme trata esses movimentos como se fossem fases de uma cultura jovem que irá passar um dia, assim como a “fase de rebeldia” de Anna passou quando ela envelheceu. Como se movimentos por direitos humanos fossem nada mais que uma performance estética, vazia de significado real.
Outro problema é se escorar em estereótipos de adolescentes e adultos
Boa parte do humor de Sexta Feira Muito Louca era a quebra de expectativas no comportamento das personagens ao trocarem de corpo. Jamie Lee Curtis brilhava ao se comportar de forma totalmente atípica “para sua idade”. Embora aquele filme também se escorasse em vários estereótipos, todos os elementos fílmicos fizeram com que isso funcionasse à época.

Como Uma Sexta Feira Mais Louca Ainda é bastante pior tecnicamente (em termos de roteiro e atuações), o filme não consegue o mesmo resultado que o anterior. Jamie Lee Curtis ainda consegue ser o elemento mais interessante, mas sua interpretação continua muito parecida, nos dando a impressão de que ela está apenas imitando um clichê do que é ser adolescente, e não incorporando realmente a personagem com que trocou de corpo dessa vez.
É também triste ver que Anna largou boa parte de sua rebeldia. O filme trata o comportamento dela no primeiro filme como se fosse apenas “fase de adolescente”, e mostra que, quando ela foi ficando mais velha, começou a parecer cada vez mais com sua mãe Tess, como se isso fosse o destino inevitável de todo adulto.
Anna largou sua banda Pink Slip para virar agente de estrelas pop da música, onde supostamente é onde mora o dinheiro. Como se isso fosse necessariamente o caminho racional para o qual adultos com verdadeira responsabilidade vão se direcionando.
Isso tudo, aliado à forma totalmente deslocada com que o roteiro trata as personagens adolescentes, confere um tom bastante conservador ao filme. Infelizmente, Uma Sexta Feira Mais Louca Ainda parece mais um filme para ser assistido no streaming mesmo, e logo após ser esquecido por toda a eternidade.





