5 filmes sobre mulheres lidando com o envelhecimento

5 filmes sobre mulheres lidando com o envelhecimento

É um fato dolorosamente incontestável: nós, mulheres, temos medo de envelhecer. Mas a culpa não é nossa. Aprendemos que bom é ser jovem, que o corpo feminino tem data de validade para trabalhar, relacionar-se, ter filhos e ser feliz. Enquanto isso, o envelhecimento, alvo de desprezo, precisa ser postergado o máximo possível, e azar daquelas que não puderem bancar.

Em O Mito da Beleza, um dos pontos mais discutidos por Naomi Wolf é sobre quão nocivas são as imagens de mulheres cheias de retoques reproduzidas aos montes nos meios de comunicação. Não fazemos mais ideia de como é o rosto de uma mulher com 60 anos, porque, na imprensa, ele é retocado para aparentar 45. Como se pode ter uma mente saudável desse jeito?

Envelhecimento feminino e as violências invisíveis

Paulina Garcia em "Gloria" - 5 filmes sobre mulheres lidando com o envelhecimento
Paulina Garcia no filme Gloria (2013) | Imagem: Papo de Cinema

Num mundo que nos controla pela aparência, é impossível evitar que a velhice se torne uma questão em níveis cada vez mais complexos e atinja qualquer área da vida. Enquanto falar de envelhecimento se torna um tabu cada vez maior, o assunto vai se afastando das mulheres, como se a imortalidade estivesse ao alcance de um bisturi.

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A velhice pesa muito mais em nós do que nos homens, por isso é tão importante refletir sobre como a sociedade nos aprisiona, para que possamos, enfim, nos libertar.

A lista a seguir traz cinco filmes que pensam o envelhecimento feminino através de personagens que se deparam com repressão e desprezo. Mesmo que você não tenha a idade delas, consegue entender como essas violências existem apenas para diminuí-las.

1) Boa Sorte, Leo Grande (2022)

Boa Sorte, Leo Grande (2022) - 5 filmes sobre mulheres lidando com o envelhecimento
Emma Thompson em Boa Sorte, Leo Grande (2022) | Imagem: Monet – Globo

Nancy (Emma Thompson) é uma professora aposentada, cujo marido faleceu há alguns anos. Recém-liberta de um casamento longo e apático, ela sente que sacrificou muitas de suas vontades pelo bem dos dois filhos, mas agora quer, de fato, começar a viver. Para isso, ela contrata Leo Grande (Daryl McCormack), um jovem profissional do sexo, para ajudá-la a, finalmente, sentir prazer.

A partir de um roteiro sensível e bem desenvolvido, Emma Thompson constrói uma personagem que poderia ter ficado apenas na superfície, mas é tão complexa quanto uma pessoa real. Ao mesmo tempo em que tem pressa em recuperar o tempo perdido, Nancy sente-se estúpida por ter procurado Leo. Ao lado dele, ela se envergonha de seu corpo envelhecido, mas embarca numa bonita jornada de autoconhecimento.

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Para nossa surpresa, Boa Sorte, Leo Grande (2022) passa longe de colocar Leo como a figura masculina que detém todo o conhecimento a ser ensinado para a pobre mulher ingênua. Durante os encontros, os personagens discutem temas importantes, e essas conversas produzem um efeito transformador na autoestima de Nancy. O relacionamento com Leo e a descoberta do próprio corpo fazem com que ela se torne a mulher que sempre quis ser.

É um filme divertido e bem-humorado, mas também muito certeiro na forma como aborda a sexualidade de uma mulher reprimida como Nancy. Além disso, a atuação de Emma Thompson é um fenômeno, tanto pela solidez na construção da personagem quanto pela coragem de se entregar fisicamente no papel. É bonito e inspirador acompanhar esse processo de aceitação, que pode muito bem ser parecido com o de tantas outras mulheres por aí.

Boa Sorte, Leo Grande está disponível no catálogo do Telecine.

2) Corsage (2022)

Corsage (2022) - 5 filmes sobre mulheres lidando com o envelhecimento
Vicky Krieps no filme Corsage (2022) | Reprodução

Em francês, “corsage” significa corpete, que era usado para moldar a silhueta feminina até pouco mais de um século. Corsage também é o nome do filme escrito e dirigido por Marie Kreutzer, uma ficção histórica sobre um ano na vida da Imperatriz Elizabeth da Áustria. Sissi, como ficou conhecida, ganhou a admiração de todos por sua beleza estonteante, mas, com o passar dos anos, se tornou escrava dela.

Nem tudo que está no filme é verdadeiro, mas a obsessão que ela desenvolveu por manter a aparência e jovialidade é real e muito bem abordada. Logo no início de Corsage, Sissi (Vicky Krieps) acaba de completar 40 anos, mas não está nada feliz. Todos acreditam que seu “auge” já passou, e existe muita pressão para que ela mantenha a mesma imagem de anos atrás.

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Para isso, a governante se alimenta apenas de caldos, pula qualquer sobremesa, mantém os cabelos longuíssimos e usa o corpete cada vez mais apertado. O fato de ser uma figura pública dificulta ainda mais as coisas, mas o drama de Sissi poderia muito bem ser o de qualquer outra mulher, mesmo nos dias de hoje. Ser uma figura poderosa não lhe protegeu de nada.

Corsage (2022) é perspicaz na forma como aborda a pressão que vai dominando cada vez mais a vida da Imperatriz. A atuação de Vicky Krieps é potente e dá à personagem um tom melancólico, mas provocador, uma vez que ela debocha das regras sempre que pode. Impossível não se reconhecer ou se compadecer de um sofrimento tão familiar.

O filme está disponível no catálogo do Telecine.

3) Crepúsculo dos Deuses (1950)

Crepúsculo dos Deuses (1950) - 5 filmes sobre mulheres lidando com o envelhecimento
Gloria Swanson no filme Crepúsculo dos Deuses (1950) | Imagem: MUBI

Norma Desmond é uma personagem tão marcante que já se tornou um ícone da história do cinema. Ainda que o roteirista Jon Gillis (William Holden) seja, tradicionalmente, o protagonista de Crepúsculo dos Deuses, é a figura de Norma que nos vem à cabeça quando lembramos do filme. Isso porque, entre muitas questões, a personagem é vítima do ostracismo que teima em recair sobre mulheres mais velhas em Hollywood.

Sim, o drama de Norma Desmond (Gloria Swanson) não está ligado apenas ao gênero. Ela foi uma grande estrela do cinema mudo, mas, como muitos outros atores e atrizes, não conseguiu se adaptar quando os filmes passaram a ter som. Mas o fato é que ela também representa uma indústria que considerava mulheres como ela velhas demais para estarem nas telonas.

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A própria Gloria Swanson, que tinha 50 anos na época, já era considerada uma atriz “passada”. Hollywood mudou muito, mas, até pouco tempo, era difícil ver mulheres mais velhas em papéis importantes, ainda mais como protagonistas. Uma vez que os estúdios exploravam a imagem de suas atrizes para vender ingressos, não era de se esperar que as coisas fossem por um caminho diferente.

É por isso que, quando acredita ter conseguido um novo trabalho com o diretor Cecil B. DeMille, Norma passa semanas “se preparando”. Chama até sua casa um exército de profissionais com máquinas, cremes e técnicas mirabolantes para rejuvenescê-la o quanto for possível. Um homem se daria ao trabalho? O envelhecimento lhe causaria tanta preocupação?

Crepúsculo dos Deuses está disponível para aluguel no Prime Video e na AppleTV.

4) Gloria (2013)

Paulina García no filme Gloria (2013)
Paulina García no filme Gloria (2013) | Imagem: MUBI

Gloria (Paulina García) é uma mulher divorciada de 58 anos, mãe de dois filhos, que está decidida a desafiar a solteirice e não passar seu tempo sozinha. Durante o dia, ela trabalha e frequenta diversas atividades em grupo. À noite, gosta de dançar em clubes de solteiros, onde conhece homens com quem se relaciona apenas uma vez.

Essa busca de Gloria por preencher seu vazio, provavelmente causado pela ausência dos filhos, de forma rápida e desapegada resulta numa solidão ainda mais profunda e dolorida. Quando conhece Rodolfo (Sergio Hernández), um ex-oficial da Marinha sete anos mais velho, ela se vê apaixonada depois de muitos anos e, finalmente, enxerga a possibilidade de ser feliz como há tempos não era.

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A personagem vivida brilhantemente por Paulina García é, provavelmente, a mulher mais segura desta lista. Ela é independente, conhece seu corpo e respeita seus limites. Conseguimos ver nela uma maturidade que só pode ser adquirida com os anos. O relacionamento com Rodolfo é o que lhe tira de uma rotina solitária. A partir dele, a protagonista consegue resolver questões pendentes e tomar, de fato, as rédeas de sua vida.

A beleza de Gloria está em retratar, sem julgamentos ou sentimentalismo, o cotidiano de uma mulher lidando com questões muito comuns do envelhecimento. A câmera realista de Sebastián Lelio consegue captar perfeitamente as dores e delícias que a personagem enfrenta numa fase em que pensamos já ter tudo resolvido. Mas Gloria está aí para provar que só acaba quando termina.

O filme está disponível no catálogo da Netflix.

5) X – A Marca da Morte (2022)

Mia Goth no filme "X - A Marca da Morte" (2022)
Mia Goth no filme X – A Marca da Morte (2022) | Imagem: Plano Crítico

O primeiro longa da saga de Ti West pode até se concentrar no grupo de jovens que decide gravar um filme adulto numa fazenda do Texas, mas o verdadeiro destaque é a senhorinha que interrompe as gravações. O encontro entre ela e Maxine (Mia Goth) dá início a várias das discussões que X e, futuramente, Pearl (2022) colocam para jogo. O paralelo entre suas histórias deixa evidente como a opressão contra as mulheres pode vir dos mais diversos lugares.

Enquanto Maxine é uma jovem ambiciosa com uma vida inteira para alcançar seus objetivos, vemos o sofrimento e a frustração da velha senhora que teve os sonhos podados desde muito cedo. X mostra como era grande seu desejo de ser artista, de dançar nos palcos e ser admirada pelas pessoas. O contato com Maxine desperta essa paixão adormecida e dá início a um estranho encantamento pela liberdade que nunca teve.

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A melancolia da senhorinha é tocante, própria de alguém que já foi muito reprimida, mas que nunca se conformou. Dessa maneira, o filme consegue transformar sua frustração em revolta e, um pouco depois, em matança. Lançando mão de assuntos tabus, ele não deixa de discutir, também, o desejo sexual na terceira idade, usando-o como uma importante ferramenta narrativa.

O mais interessante em X é sua vontade de trazer relevância, não apenas para a ambição de Maxine, mas também para a frustração da senhora. As duas representam lugares, aparentemente, opostos, mas terminam compartilhando o mesmo sofrimento. Enquanto a jovem vive a liberdade misógina da indústria de filmes adultos, a senhorinha sofre as consequências de ter vivido presa às convenções de sua época e, agora, de sua idade.

O longa está disponível no catálogo do Prime Video.

Colagem em destaque: Isabelle Simões para o Delirium Nerd.

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Jornalista recifense que passa metade do tempo vendo filmes sem continuação e a outra metade lendo romances de pessoas que já morreram. Também reviso textos, pratico yoga e treino minhas habilidades de confeiteira para sustentar meu vício em bolos gostosos.
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