“O Mito da Beleza” e a prisão que se cria em torno das mulheres

“O Mito da Beleza” e a prisão que se cria em torno das mulheres

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O Mito da Beleza, da norte-americana Naomi Wolf, foi uma importante publicação feminina na batalha contra as imposições de um sociedade machista e patriarcal. Apesar de publicado em 1991, seu conteúdo permanece bastante atual. Além disso, a edição da Editora Rosa dos Tempos, publicada em 2018, apresenta introduções das diversas republicações do livro.

Assim, percebe-se não apenas como a sociedade se modificou a longo dos últimos 27 anos. Ou mesmo como o pensamento de Naomi Wolf pode ter mudado. Percebe-se, além disso, de que forma o mito da beleza, não como livro, mas como uma ferramenta de controle das mulheres, se reatualizou diante das mudanças contextuais.

O Mito da Beleza e a manipulação da imagem

Publicado no início da década de 90, O Mito da Beleza acaba por trazer referências próprias do período. Naomi Wolf, então, destaca como seu livro foi publicado em um onda de antifeminismo verificada já na década de 80. E, por óbvio, como esse antifeminismo impactou no julgamento social das mulheres.

Mas o que é o mito da beleza? O mito da beleza diz respeito a essa “verdade” cultural que cerceia a liberdade feminina. Trata-se, por exemplo, da história que conecta a beleza, dentro de padrões estritos e ocidentais, ao sucesso e à felicidade. E, desse modo, condiciona o modo de viver da mulher – mas também do homem em certo grau e forma -, de forma que ela não consiga se libertar das amarras patriarcais. Portanto, na medida em que as mulheres alcançam maiores poderes em determinados âmbitos, são acorrentadas por certezas invisíveis em outros.

Se já não podem ser igualmente controladas pela maternidade, o que lhes impedia de alcançar o mesmo patamar de poder que os homens, são, então, controladas pela necessidade de preenchimento de requisitos de beleza quase inalcançáveis. E gastam tanto tempo nessa busca, que passam a ignorar a busca pelo sopesamento do poder.

“A reação contemporânea é tão violenta porque a ideologia da beleza é a última remanescente das antigas ideologias do feminino que ainda tem o poder de controlar aquelas mulheres que a segunda onda do feminismo teria tornado relativamente incontroláveis. Ela se fortaleceu para assumir a função de coerção social que os mitos da maternidade, domesticidade, castidade e passividade já não conseguem impor. Ela procura neste instante destruir às ocultas e em termos psicológicos tudo de positivo que o movimento proporcionou às mulheres abertamente e em termos tangíveis” (p. 27)

O trabalho e a conexão da beleza com o sucesso

Antes mesmo das mulheres entrarem no mercado de trabalho formal, em cargos antes ocupados apenas por homens e com legislações em defesa da equidade laborativa, a forma de trabalho capitalista já impactava as suas condições. Por óbvio, não se pode ignorar que, faticamente, as mulheres já exerciam trabalhos de diversas naturezas antes mesmo da legalização. Afinal, não se pode esquecer das empregadas e de outras funções exercidas por mulheres.

E mesmo quando não exerciam trabalho remunerado, a profissão da mulher, com o advento do sistema econômico burguês, passou a ser o do matrimônio. Nesse sentido, a beleza já integrava o sistema econômico como uma moeda de troca. Portanto, quanto mais bela fosse a mulher, maior valor ela teria na função que lhe era atribuída: a de esposa.

No entanto, ao longo do século XX uma mudança marcou a sociedade. As mulheres passaram a integrar cada vez mais o mercado de trabalho formal. E, assim, deixaram de lado a maternidade e o matrimônio como funções primordiais. Consequentemente, o mito da beleza também se modificou.

A beleza já não era, então, um valor simbólico. Passou a ser o próprio valor do trabalho, o dinheiro em si. Tornou-se, ainda, um requisito para a assunção do papel feminino. Como ressalta Naomi Wolf, esse movimento apenas evidenciou que o mito da beleza não é apenas sexual; é também político.

“[…] No momento em que as mulheres escapavam da venda de sua sexualidade num mercado matrimonial ao qual estavam confinadas pela dependência econômica, sua nova busca de independência econômica se defrontou com um sistema de permuta quase idêntico […]” (p. 40)

O tempo e o dinheiro no mito da beleza

Ao mesmo tempo em que as mulheres precisam trabalhar mais para ganhar o equivalente aos homens, precisam também se adequar a requisitos de padrões gerados por esse mito da beleza. Do contrário, são discriminadas no ambiente de trabalho. Assim, precisam trabalhar mais para também compensar o dinheiro despendidos com a indústria da vaidade. E, desse modo, não lhes sobraria tempo para realizar o que os homens teriam liberdade de buscar.

É interessante observar que, em diversos momentos, a lei apoiou a discriminação feminina pela não adequação aos preceitos do mito da beleza. Ou seja, mesmo com o advento de legislações acerca dos direitos das mulheres, existiam formas de contornar o que estava legislado com o que não estava. E isto decorre, em parte, da função do mito da beleza também dentro do âmbito sócio-cultural.

O Mito da Beleza
Na foto: A autora Naomi Wolf (reprodução)
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Aspectos culturais do mito

A cultura é meio pelo qual se estabelece o imaginário não apenas das relações entre homens e mulheres, mas também das relações das mulheres com outras e consigo. Mas qual a representatividade feminina na cultura?

De um lado existe o problema da idealização e da venda de um sonho irreal. As heroínas são sempre apresentadas como mulheres perfeitas. Preenchem padrões de beleza e personalidade que não condizem com a realidade. E o mesmo pode se dizer das revistas femininas e dos padrões estéticos vendidos.

De outros lado, existe o problema da propagação da rivalidade feminina. As histórias, em regra, opõem as protagonistas a outras mulheres. E, assim, dissemina um eterna batalha entre a beleza extrema, a agradabilidade e, em geral, a disputa por um interesse romântico. Naomi Wolf cita, por exemplo, a dupla de Riverdale, Veronica e Ethel. Mas cita também as novelas de Jane Austen.

Enquanto isso, a produção cultural voltada aos homens segue caminhos diferentes. Fala de homens poderosos, capazes de conseguir feitos inalcançáveis. São os heróis, por vezes, dotados de facetas reais, de particularidades que evidenciam suas imperfeições, mas que estimulam a superação dos pontos de caráter negativo.

Por fim, a autora ressalta que a censura existe mesmo no Ocidente. Muitas vezes, concede-se o foco a culturas orientais em que há cerceamento de liberdade mais explícito. E, assim, impede-se que o foco recaia sobre práticas igualmente limitadoras no Ocidente.  

É o caso, por exemplo, das decisões de publicidade e edição que optam por não revelar um informação ou relevante. Ou mesmo quando não se dá o devido destaque a algo importante. Desse modo, continua-se operando sob os moldes do mito da beleza. E, consequentemente, cerceando a liberdade feminina.

Os ritos da beleza

O advento da era moderna e da era contemporânea concederam a sensação de que a sociedade operava apenas sob uma lógica racional científica aos moldes iluministas. E, desse modo, a religião e sua crença numa verdade absoluta estaria fadada ao declínio. Contudo, o que se evidencia é que houve uma modificação nos aspectos dessa crença impassível de questionamentos. A crença absoluta num Deus criador passou a integrar outros aspectos da vida contemporânea, inclusive nos impactos do mito da beleza.

“O ceticismo da época moderna desaparece quando o assunto é a beleza feminina. Ela ainda é descrita – na verdade mais do que nunca antes – como se não fosse determinada por seres mortais, moldada pela política, pela história e pelo mercado, mas, sim, como se houvesse uma autoridade divina lá em cima que emitisse um mandamento imortal sobre o que faz uma mulher ser agradável de se ver” (p. 131).

Apesar disso, há fatos que podem ser explicados também pela influência da religião na vida política e cultural. Assim, Naomi Wolf apresenta a relação entre questões como a criação e o pecado original no modo com as mulheres são consideradas. E, claro, na estruturação de um mito da beleza.

A culpa e a prisão interna dos corpos femininos

Talvez outra derivação da relação com a religião seja o sentimento de culpa. O mito da beleza se utiliza justamente disso para conseguir aceitação em meio às mulheres. Afinal, se elas se sentem culpadas por seus atos, mais fácil controlá-las.

De um lado, então, impõe-se a culpa pela sexualidade. Livros como Viva a Vagina ou A Origem do Mundo: Uma História Cultural da Vagina Ou A Vulva Vs. O Patriarcado evidenciam que o corpo feminino é pouco explorado e, quando o é, serve apenas aos propósitos de satisfação do prazer masculino. A cultura não ensina as mulheres a explorarem sua sexualidade. Mas isto é diferente para os homens.

Para eles, pelo contrário, a imagem feminina é vendida de forma perfectibilizada. Consequentemente, as próprias mulheres passam a assimilar uma imagem de sexualidade compulsória. Devem ser exatamente como mostrado nas pornografias de caráter heterossexual para que vivenciem o sexo. Wolf, assim, explora essas facetas da sexualidade entrando no polêmico tema da pornografia, além de explorar como o mito da beleza institui uma nova forma de sadomasoquismo.

Já do outro lado, implanta-se a culpa da comida. Os números de jovens que vêm ao óbito em decorrência de problemas de ordem alimentar chocam. Wolf, desse modo, compara as restrições impostas pelo mito da beleza a campos de concentração interna, em que as mulheres se auto colocam. A culpa as leva a criar um sistema de aprisionamento em seus próprios corpos para preenchimento de um padrão estético imposto por outrem.

“A fome faz com que o corpo da mulher a prejudique e faz com que a mulher maltrate seu corpo. Estudos com perpetradores de abuso revelam que a violência, uma vez iniciada, aumenta progressivamente.”

Para além do mito da beleza

Além das formas de violência praticadas por homens contra as mulheres, portanto, o mito da beleza vem reforçar a ideia de que as mulheres não devem apenas aceitar a violência contra seus corpos, mas também serem autoras dos atos. Ou seja, para ser bela, a mulher deve se violentar. Pode ser através de cirurgias diversas, da fome, da não aceitação… Segundo o mito, uma mulher deve se recordar de que dói ser mulher.

O que Naomi Wolf propõe, então, é uma tomada de poder sobre o mito. Se os mitos e padrões existem, é necessário, portanto, reconhecer a sua influência na vida cotidiana. Não obstante, é preciso que as mulheres tomem o poder sobre esse mito e passem a definir, elas próprias, os ideais a serem percorridos, independentemente dos padrões impostos de cima.

É preciso que as mulheres saibam olhar a artificialidade com que opera, hoje, o mito da beleza. E que parem, também, de culpar a si e às outras mulheres. Mulheres podem seguir os perfis que desejarem. E podem ressignificar o que hoje é uma prisão.

O Mito da Beleza, por fim, é um livro rico em dados e informações. Naomi Wolf ilustra seus pontos com números, de modo a evidenciar uma realidade. E apesar de escrito há quase 30 anos, consegue se encaixar perfeitamente ainda nos dias atuais, mesmo com todas as mudanças apontadas nos diversos prefácios. Enfim, é um livro essencial para a compreensão do papel feminino na sociedade e para as lutas feministas.


O mito da belezaO mito da beleza – como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres

Naomi Wolf

Editora Rosa dos Tempos

490 páginas

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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