[QUADRINHO] “Você é minha mãe?” é uma reflexão sobre maternidade, gênero e relações humanas

[QUADRINHO] “Você é minha mãe?” é uma reflexão sobre maternidade, gênero e relações humanas

Depois da aclamada graphic novel Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, única HQ a ser eleita o livro do ano pela Revista Times; a quadrinista e escritora Alison Bechdel lançou sua segunda autobiografia em quadrinhos intitulada Você é minha mãe?, publicado no Brasil pela editora Quadrinhos na cia.

Para quem tem a ideia preconcebida de que HQ’s são leituras superficiais e de pouca reflexão crítica, é chegada a hora de rever esse conceito. Por meio de uma narrativa rica que mescla linguagem textual e visual, Bechdel apresenta-nos uma obra densa, cortante, mas também bem-humorada e filosófica acerca de seu relacionamento com a mãe.

“Pois nada era simplesmente uma única coisa”

A epígrafe acima citada, de autoria de Virginia Woolf, abre o livro de Bechdel como um prenúncio do que podemos esperar da comovente obra. Filha de atriz e amante da literatura e da música, sua mãe teve um casamento infeliz com um homem bissexual e professor de literatura, que acabou cometendo suicídio (atirou-se em frente a um caminhão). Bechdel desnuda na graphic novel os sentimentos ambivalentes nutridos por sua mãe: uma mulher de humor sisudo, fria e que deixou de beijar a filha antes de dormir quando ela contava sete anos.

Em nossa sociedade é muito presente um modelo de maternidade representado por uma figura maternal devotada e que ama incondicionalmente sua cria. Contudo, é preciso atentar para o fato de que quando se nasce uma criança também se concebe uma mãe, que nem sempre vai seguir o modelo ideal e romantizado de maternidade. No primeiro capítulo da graphic novel, qual seja: A mãe dedicada comum, Bechdel apresenta uma narrativa seriada que lança luz sobre o abismo materno-filial que se ergueu entre ela e sua mãe, além do bloqueio de comunicação que existe entre as duas.

Você é minha mãe

A autora cogita em escrever o livro tocante ao seu pai: Fun Home, contudo, não sabe como contar à mãe sobre esse projeto e reluta por diversas vezes em confessar a ela acerca do fato de estar escrevendo um livro de memórias alusivo ao pai. Bechdel também relata, em algumas passagens da graphic novel, sobre as situações delicadas e tensas que remetiam à reação da mãe quanto aos assuntos que envolviam a homossexualidade de Bechdel.

“Fiquei desse mesmo jeito vinte anos antes, quando estava me preparando para contar que sou lésbica. Foi quase a mesma coisa cinco anos antes quando estava criando coragem para falar sobre minha primeira menstruação. Levei seis meses”.

Ao mesmo tempo em que a autora apresenta um distanciamento físico e uma apatia em relação à mãe, ela não consegue libertar-se dos grilhões que a aprisionam ao pensamento fixo em sua mãe, tendo internalizado um receio em desapontar e de ser reprovada por esta. A obra de Bechdel, na tentativa de conhecer a si mesma compreendendo os sentimentos disfuncionais dispensados à mãe, remete constantemente aos escritos de Virginia Woolf e aos estudos do psicanalista Donald Winnicott, que se dedicou à análise da psique infantil. Sentindo-se preterida em relação aos seus dois irmãos mais novos, quando criança, Bechdel costumeiramente tentava chamar a atenção da mãe, por vezes, brincando de ser uma criança com deficiência física.

Após a morte dos pais, a mãe de Bechdel entrou em depressão e passou a tratá-la cada vez mais com desdém. Em contrapartida, ela mimava muito os filhos mais novos. Um dos momentos mais acalentadores para a autora na infância, era quando escrevia em seu diário para tratar do transtorno obsessivo compulsivo (TOC). A mãe lhe ajudava a transcrever para o papel em branco seus registros.

“Ela me ouvia. Tudo que eu dizia, ela colocava no papel. Aquilo me relaxava, me recompunha. Entre os vinte e quarenta anos, ela nunca me perguntava da vida”.

Sempre inspirando-se na vida e obra de Virginia Woolf em paralelo à conturbada relação familiar de Bechdel, ela remete à escritora britânica, que também escrevera um diário, o qual Woolf denominava um relato da vida e não da alma. Woolf, assim como Bechdel, usou a literatura como válvula de escape para transformar a dor em arte e, por conseguinte, ressignificá-la, encontrando e reinventando um motivo para as suas condoídas existências.

Você é Minha Mãe

Bechdel experimentava o dilema de furtar-se a escrever memórias sobre sua família, com receio de que a mãe a criticasse, mas se não expressasse as suas emoções, o fantasma da mãe não iria parar de rondar-lhe os pensamentos. Woolf, por sua vez, ficou órfã da mãe quando tinha apenas 13 anos, tornando-se obcecada por ela até os 44 anos, quando concebeu um livro sobre sua mãe intitulado Ao Farol (Autêntica, 2013). Segundo a narrativa de Bechdel, nada de fato é uma única coisa. Ao contrário do que se possa pensar ao perceber a relação aparente de apatia que a mãe da autora mantém com esta, Bechdel não a odeia.

A mãe de Bechdel foi uma atriz, também muito inclinada para a literatura, que depois de formada trabalhou por dois anos como secretária e casou-se, passando a dedicar-se à maternidade e à casa; bem como, teve um casamento infeliz com um homem pouco afetuoso e bissexual. Apesar da falta de intimidade entre as duas que, por vezes, é muito comum em laços consanguíneos, existe muito da mãe na filha.

Ao longo de anos de terapia na busca por autoconhecer-se, ao escrever a autobiografia sobre sua mãe, Bechdel conclui que a mãe via suas feridas invisíveis porque também eram dela e acabou por dar-lhe algo muito valioso: um escape. Logo, a graphic novel Você é Minha Mãe? é uma obra autobiográfica sobre a relação da autora com a mãe, mas também discorre sobre gênero, homossexualidade e a difícil missão de conviver e de aprender a ser.

A influência das obras de Woolf e Sylvia Plath

Ao longo de Você é Minha Mãe?, a autora faz menção à Woolf, escritora britânica que estreou na literatura em 1915, e se tornou um dos grandes nomes da literatura mundial, sendo símbolo do pioneirismo feminino em um mundo majoritariamente dominado por homens, como é a literatura, ainda mais naquela época. Woolf, em sua obra mais renomada, Um teto todo seu (Tordesilhas, 2014), menciona que uma mulher deve ter uma certa quantia de dinheiro e um teto, se quiser escrever ficção. Dessa forma, a autora denunciou a falta de oportunidades para as mulheres diante da desigualdade de gênero na sua época. Bechdel encontra em sua vida muitas afinidades com a trajetória e obra de Woolf, sendo uma leitora assídua da escritora. Dentre as obras mais conhecidas de Virginia Woolf, constam também Orlando e Mrs. Dalloway.

Já a mãe de Bechdel, também amante da literatura, prefere os escritos de Sylvia Plath. Poeta, romancista e contista norte-americana, Plath tem como principal título de sua bibliografia, a obra A redoma de Vidro. Ambas as autoras possuem em comum, além do talento notório e inquestionável, uma capacidade de tocar na carne por meio da palavra escrita. Tanto Woolf como Plath enfrentaram o sofrimento psíquico e tiveram mortes trágicas, suicidando-se.

Por fim, é mister conhecer a obra de Bechdel por se tratar da sua autobiografia: uma mulher lésbica, que ao compartilhar suas vivências e dores pessoais, nos mostra o lugar social ocupado por pessoas socialmente estigmatizadas, em razão de sua orientação sexual. Além disso, a obra provoca a reflexão de como é sofrível o processo de caminhar de encontro a um roteiro que a sociedade hegemônica impõe como “correto” e “moral”, por não conceber que ser diferente não é ser inferior; bem como se faz urgente a leitura em face da rica experiência estética e informativa que uma narrativa em quadrinhos bem construída pode suscitar. Você é Minha Mãe? nos convida a mergulhar nesse mundo complexo que são as relações familiares e o desenvolvimento dos afetos.        


Você é minha mãeVocê É Minha Mãe?

Alison Bechdel

Quadrinhos na Cia.

304 páginas

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Escrito por:

18 Textos

Jornalista, pós-graduada em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais, estudante de Direito, militante femimista, autora do livro A Árvore dos Frutos Proibidos, desenhista, cinéfila e eterna aprendiz na busca do aprender a ser.
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