A Odisseia (2026): Christopher Nolan se mantém fiel ao seu cinema

A Odisseia (2026): Christopher Nolan se mantém fiel ao seu cinema

A Odisseia é o primeiro longa do cineasta inglês Christopher Nolan depois dele vencer o Oscar de Melhor filme e melhor diretor por Oppenheimer, em 2024.

O filme que é uma das estreias mais esperadas de 2026 é uma adaptação do poema épico de Homero e conta com um elenco estrelar com Matt Damon no papel do protagonista Odisseu, além de Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Charlize Theron, John Leguizamo, Zendaya e muitos outros. 

A jornada de Odisseu

A Odisseia (2026) conta a história da jornada de Odisseu, rei de Ítaca, de volta para casa após os eventos da guerra de Tróia. Em paralelo também vemos as consequências da ausência de Odisseu para o seu reino e a sua família. 

Nos anos em que o marido esteve longe, a rainha Penélope (Anne Hathaway) se viu encurralada por pretendentes que aparecem com a intenção de casar com ela e tomar o lugar de Odisseu como rei. Seu filho, Telêmaco (Tom Holland), representa uma ameaça a esses homens por ser o herdeiro de Odisseu, e decide então ir em busca de notícias sobre o pai. 

A ausência de Odisseu em Ítaca é resultado de uma série de obstáculos que vão se tornando cada vez mais mortais, à medida que ele e seus homens navegam de volta para casa. Enfrentando monstros, feiticeiras e os próprios deuses como punição pela guerra e um teste que definirá quem eles são de verdade. 

Leia também >> Oppenheimer: de fato, uma bomba de Christopher Nolan

CT 02725 MSGR 1 1152x768 1
A Odisseia (2026) | Imagem: Reprodução

A Odisseia de Nolan

O filme se destaca por seu visual grandioso que remete aos épicos do cinema clássico hollywoodiano, mas com toda a tecnologia do século XXI. Algo que Nolan já vinha experimentando em seus últimos filmes.

Sendo assim, a estética realista não é uma surpresa, já que essa tem sido a tendência atual em produções audiovisuais de fantasia, principalmente aquelas com grandes pretensões na bilheteria. Mas aqui ela serve bem ao propósito de Nolan.

Ao se concentrar nos aspectos mais sombrios do mundo de mágica que adapta, o diretor e sua equipe criam uma atmosfera de urgência para Odisseu. Enquanto passa por aspectos do cinema de horror durante os encontros do protagonista com seres mágicos.

Destacam-se as sequências com o ciclope Polifemo e a feiticeira Circe, por exemplo. O gigante de um olho só é apresentado em uma cena digna de um filme de terror de monstros. Antes mesmo de aparecer totalmente visível ele já sugere o horror por trás da criatura. 

odisseia
Bastidores de A Odisseia | Imagem: Reprodução

Já Circe, é um produto da atuação magnífica de Samantha Morton, que em pouco tempo de tela consegue transmitir todo o poder e a carga emocional que a personagem pede, mesmo para quem não conhece a sua história mais a fundo.

A forma como Circe usa suas habilidades de feiticeira também é um destaque para a forma como a estética realista do filme foi bem aproveitada, levando a momentos de maior imersão e até mesmo causando repulsa. 

O filme apresenta possibilidades criativas dentro do cinema de massas, que se afastam do uso exagerado de CGI e de qualquer uso de IA

Som e fúria

A trilha sonora de Ludwig Göransson é mais um elemento que eleva a produção a um épico dentro da sala de cinema.

A música do já compositor sueco, já três vezes vencedor do Oscar de melhor trilha sonora, em alguns momentos nos transporta para a Grécia mágica que é retratada. Em outros, junto com a edição e mixagem de som faz as poltronas do cinema tremerem. 

Anne Hathaway se destaca no núcleo de Ítaca como Penélope, a personagem que precisa transmitir toda a grandiosidade de Odisseu em um lugar onde poucos se lembram dele. É ela que mantém viva a esperança por seu retorno, enquanto precisa perseverar o próprio futuro. A atriz consegue administrar essas emoções mesmo com poucas cenas. 

Também são destaques as atuações de Zendaya como Athena e Elliot Page como Sinon, que mesmo rapidamente conseguem levar ao público a magnitude daqueles acontecimentos.

Uma Odisseia incompleta

Sem ter lido A Odisseia de Homero é difícil identificar o quanto a história foi diluída para caber na visão de Christopher Nolan. Mas, ainda assim, é possível perceber que faltam pontos essenciais da narrativa, principalmente na construção das personagens. Algo que já é um ponto de crítica sobre os roteiros de Nolan. 

image j0SzJeX
A Odisseia (2026) | Imagem: Reprodução

Tirando Odisseu, a maioria das personagens passa rapidamente pela tela e há pouco interesse sobre as suas motivações. Antinous (Robert Pattinson) e Agamemnon (Ben Safdie), por exemplo, são apresentados como vilões caricatos, a caracterização de Safdie e a atuação de Pattinson também ajudam nesse quesito.

Até mesmo algumas das histórias mais importantes e emocionantes de A Odisseia, como a de Calypso (Charlize Theron) e o desfecho do cachorro de Odisseu, perdem o impacto ou sequer são exploradas. 

Leia mais >> Reescrevendo a narrativa: A necessidade de dar voz às mulheres na mitologia grega

Isso talvez se deva ao foco que o roteiro dá a figura do Odisseu, deixando de lado a construção de mundo que por ser tão complexa seria difícil fazer caber em 3 horas, mas que também é essencial para a história. Se você não estiver familiarizada com esses elementos eles passam despercebidos, o que pode não ser algo negativo.

Por outro lado, acabam fazendo falta para quem os conhece, principalmente no caso das personagens femininas que dependem do êxito das atrizes traduzir muito em pouco tempo. 

O Nolan de sempre

Uma coisa se confirma em A Odisseia (2026), Christopher Nolan é um excelente diretor, mas não um excelente roteirista. Seus filmes deixam a desejar na escrita das personagens, o que em alguns casos dificulta para o público se relacionar com as suas jornadas. Podemos entender suas produções como centralizadas na viagem e não na chegada.

Na sua Odisseia o diretor consegue fazer isso funcionar ao tornar o desfecho um espetáculo visual de grande tensão e catarse emocional. Ainda assim, este consegue ser um dos melhores filmes de Nolan desde Dunkirk (2017).

Aqui, o que falta no começo da jornada é compensado pela disposição natural do ser humano em torcer pelo herói azarão e pela, mais uma vez incrível, trilha sonora de Göransson.

Nolan entrega um Odisseu herói enquanto tira a sua máscara revelando que os heróis dessa história são apenas soldados a serviço da guerra e da destruição e é isso que as canções antigas avisaram e que nos esquecemos. 

Escrito por:

33 Textos

Historiadora e Mestre em Cinema e Audiovisual. Pesquisando estética, identidade e como desafiar os padrões. Nerd desde do berço e apaixonada por arte, cinema e educação.
Veja todos os textos
Follow Me :