Por que a luta pela representatividade está causando tanto incômodo?

Por que a luta pela representatividade está causando tanto incômodo?

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Quando a Disney anunciou que seu próximo filme da franquia Star Wars teria uma mulher e um negro como protagonistas, a internet veio abaixo. De um lado, ativistas e simpatizantes que gritavam “até que enfim” e prometiam filas enormes para presenciar o feito; de outro, os que diziam que seria um absurdo, ameaçando boicotes.

O mesmo aconteceu quando algumas centenas de pessoas saíram das salas de “Mad Max – Estrada da Fúria”, revoltadas, indignadas por perceberem que o reino era da Imperatriz Furiosa e suas mulheres, e não do homem bom e muito menos das centenas de trogloditas do filme.

Quando os produtores de Ghostbusters apresentaram as novas intérpretes dos caça-fantasmas, a ira e a alegria verteram igualmente de ambos os lados.

Numa das séries de maior bilheteria da Netflix, “Orange is the new Black“, negras, mulheres trans, mulheres com biotipos fora do “padrão hollywoodiano” estão ganhando cada dia mais espectadores.

Na Parada do Orgulho Gay de 2016 a Paulista foi à loucura com o trio elétrico animado pelos atores do seriado  “Sense 8“, cuja temática é abertamente pró LGBT. Aí, a gente pensa: agora muda, agora vai. Ou… ainda não.

Em 2014, Melissa McCarthy foi à Cerimônia do Oscar, evento cuja cobertura midiática se preocupa, em grande parte, em registrar como as mulheres estão vestidas. Mas Melissa contou dois anos depois, que naquela ocasião não encontrou um designer sequer que se dispusesse a vesti-la, exclusivamente porque ela estava “fora do padrão”.

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Dois Oscars atrás eu não consegui encontrar ninguém para me fazer um vestido. Eu pedi para cinco ou seis estilistas –  de alta classe que fazem muitos vestidos para todo mundo  – e TODOS eles disseram não.” – Melissa McCarthy

Ah, mas os tempos mudaram, não é mesmo? Pois neste ano, Leslie Jones, uma das protagonistas do novo filme Ghosbusters, encontrou o mesmo problema: por ser considerada “grande demais”, nenhum profissional da moda quis vesti-la para a premiére do filme.

Mas a coisa é um pouco pior. Não há dois, ou 10, mas há 30 ANOS, Madonna não faz outra coisa senão questionar o mainstream. Mas em 2016, a Rainha do Pop, um dos maiores ícones da música de todos os tempos, aparentemente estava “velha demais” para mostrar seu bumbum – e que bumbum! – num vestido, no famoso Met Gala, em Nova Iorque.

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É tão engraçado não existir nenhum estilista querendo me ajudar com meu vestido para a premiére. Hmmm, isso irá mudar e eu vou me lembrar de tudo” – Leslie Jones

O que todos esses exemplos nos dizem?

Que o caminho para a aceitação da mulher como indivíduo inteiro, como um sujeito capaz de existir com importância e significação, para além do seu biótipo e do seu histórico machista ainda é longo. Ainda existe um “mas” que a acompanha: tudo bem que seja inteligente, MAS não serve para ser protagonista, tudo bem que seja capaz, MAS não serve para ser modelo, tudo bem que seja um ícone cultural, MAS não pode mostrar seu corpo em qualquer tempo.

A revolução feminina está acontecendo em partes e isso não tem a ver com processo, isso tem a ver com poder. Ela está avançando em posições, em locais, em searas que antes eram dominadas por homens e somente por eles. Mas não somente pelos homens que produzem os meios, como também por aqueles que habitam todas as cadeias que sustentam os meios. Todos os homens espectadores, todos os homens gamers, todos os homens leitores, todos os homens que consomem a mulher como ela foi “vendida” até hoje. Não é de se espantar que rejeitem esses avanços. Não é, igualmente, incompreensível que estejam revoltados por que sabem que a mulher está se tornando agente e não mais um objeto, um coadjuvante, um alívio, um enfeite.

Acho inclusive que debaixo dessa aura estática e dogmática de muitos mitos/personagens, sequer existe respeito ou coerência com a estória ou o legado de um autor. Existe muito mais o preconceito e a resistência em admitir que a cultura, que devia ser de todos, nunca o foi realmente. Representatividade importa porque ela é reflexo do que existe e não do que um grupo seleto convencionou como importante pra eles. Vai ter Hermione negra, sim. Porque ninguém, nem o autor, nem a estória disseram que não. E mesmo que o dissessem, outros mitos podem ser criados ou recriados, de acordo com toda uma nova leva de pessoas finalmente vistas, finalmente refletidas.

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Madonna dando um olé com essa maravilhosa resposta aos comentários de que ela estaria muito velha para ser ousada.

p.s  Que venha Gillian Anderson como 007!


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Mulher, feminista, formada em Comunicação, pós em Design e Marketing e sonhando com um Mestrado em Cinema. Pinta, borda, lê e pergunta muito, porque resposta acaba, mas pergunta renasce todo dia. Aprendendo a ser mãe. Gosto de gato, de sol e de vinho frisante.
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