Lady Gaga e a música como refúgio

Lady Gaga e a música como refúgio

O show gratuito de Lady Gaga na praia de Copacabana em maio de 2025 foi indiscutivelmente arrebatador. Mais de 2 milhões de pessoas lotaram as areias cariocas e colocaram o espetáculo no livro dos recordes como o maior show gratuito de uma artista feminina da história. Mas muito além de um apresentação grandiosa, o concerto apelidado carinhosamente de “Gagacabana” foi a reafirmação de Lady Gaga como uma das mais importantes figuras do pop global e de seu laço inabalável com a comunidade LGBTQIAPN+.

Lady Gaga durante show em Copacabana, cantando com uma bandeira do Brasil estendida em uma sacada pertencente ao cenário.
Lady Gaga durante show em Copacabana | Foto: Reprodução

Gaga é chamada de Mother Monster porque já foi Little Monster um dia

Stefani Joanne Angelina Germanotta nasceu em 28 de março de 1986, na cidade de Manhattan, nos Estados Unidos. Desde cedo, Stefani demonstrou forte aptidão e personalidade marcante para a arte. Porém, as mesmas habilidades que a guiaram ao estrelato mundial, a fizeram enfrentar uma infância e adolescência marcadas por depressão e ansiedade.

A criatividade, iniciativa artística e personalidade expressada em sua maneira de agir e vestir foram motivos o suficiente para que a jovem sofresse bullying por anos. Apesar da afirmação de sua mãe de que Stefanie sempre escolheu ser gentil com as pessoas, ela recebera um tratamento tão hostil dos colegas de escola, que entrou em um estado depressivo visível.

Independentemente do amor recebido pela família, a jovem artista cresceu solitária e incompreendida. Passou por batalhas internas e enfrentou seus próprios demônios – e os de outras pessoas também – incontáveis vezes. Aos 19 anos, logo no inicio de sua trajetória na indústria da música, foi estuprada por um produtor musical e engravidou.

Durante boa parte de sua vida, ela se sentiu sozinha, julgada, usada e presa. Como um monstro. E ao invés de negar todas as coisas que a faziam diferente das pessoas ao seu redor, ela as abraçou. Ao assumir  suas peculiaridades, suas dores, seus silêncios e suas explosões, ela finalmente pôde existir por completo, sem precisar se desculpar por ser quem sempre foi.

Não se tratava mais de buscar aprovação, mas de se libertar das amarras que por tanto tempo a fizeram acreditar que precisava se encaixar para ser compreendida. A escolha de reconhecer e se apropriar de sua luz e sua sombra, abriu espaço para uma existência mais honesta e potente.

Ao invés de tentar caber em moldes que não eram seus, ela passou a moldar seu próprio caminho com coragem e sensibilidade, reivindicando sua voz, sua história e seu direito de ser diferente. E como consequência, acabou se tornando farol para tantas outras pessoas que, assim como ela, aprenderam a enxergar beleza nos próprios monstros.

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Lady Gaga durante a adolescência | Foto: Reprodução

Mais do que influenciar seu público, Lady Gaga o acolhe

Em um mundo onde pessoas fora de qualquer padrão socialmente conveniente são julgadas por simplesmente existirem, a representatividade é necessária. Quando alguém sofre em silêncio por conta de uma característica imutável e impossível de escolha prévia, o acolhimento é necessário. Em momentos em que a solidão e a estranheza consigo mesmo se torna uma parte tão grande de uma existência, é preciso que haja alguém corajoso o suficiente para devolver o senso de pertencimento e importância para quem os perdeu no meio do caminho.

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Enquanto muitos expressam seus preconceitos absurdos com a comunidade LGBTQIAPN+ se utilizando de críticas irreais e sem fundamento, Gaga defende e celebra sua existência. Apenas quem assumiu sua não-heterossexualidade, conhece os medos que compõem o agridoce de sair de um armário socialmente construído ao seu redor e abraçar sua versão mais verdadeira e crua. E só quem já passou por essa experiência terrivelmente libertadora sabe o quão importante é ter alguém cantando aos quatro cantos do mundo sobre a beleza de ser quem se é. Sobre a importância de abraçarmos nossa própria verdade. Sobre a legitimidade de uma comunidade inteira.

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Lady Gaga com bandeira LGBTQIAPN+ durante show de Copacabana | Foto: Reprodução

A excentricidade vista pelo público comum como exagero, representa muito mais do que é explanado na mídia convencional. É um grito silencioso pela liberdade de ser quem é e assumir seus monstros como parte essencial da existência. Ao assumir sua própria extravagancia, o indivíduo reivindica o direito de existir fora dos moldes predefinidos do que é considerado aceitável ou normal.

Viver sua própria realidade é um gesto de coragem que desestabiliza estruturas rígidas e revela o potencial criativo que está presente unicamente na diferença. A originalidade particular de pessoas que sabem quem são, quando diminuída à mera definição de vaidade ou desequilíbrio, falha em difundir a potência política e subjetiva do modo de ser em sua mais pura demonstração. A excentricidade, nesse sentido, torna-se uma linguagem própria, onde muitas pessoas encontram um espaço de pertencimento, expressão e cura.

Existir não é servir. Existir é ser. E quando nos tornamos membros da legião dos pequenos monstros de Lady Gaga, somos com orgulho e nos orgulhamos de quem realmente somos.

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Uma jornalista apaixonada por música, literatura e cinema. Seus maiores hobbies incluem criar playlists para personagens fictícios e falar sobre Taylor Swift nas redes sociais.
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