[DOCUMENTÁRIO] Gaga: Five Foot Two – o amadurecimento de uma mulher em meio a fama (crítica)

[DOCUMENTÁRIO] Gaga: Five Foot Two – o amadurecimento de uma mulher em meio a fama (crítica)

Compartilhe

Gaga: Five Foot Two (2017), dirigido por Chris Moukarbel (Banksy Does New York, Me at the Zoo), busca mostrar o outro lado da vida da cantora Lady Gaga: a sua rotina, seus problemas com a doença que sofre, suas crises, o “lado bom” e o “lado ruim” da fama, tudo isso enquanto lança um novo disco e se prepara para – ao que a própria cantora considera – realizar o maior sonho de sua vida, fazer um show no intervalo do Super Bowl.

É inegável o talento artístico de Gaga, com sua voz e sua expressividade lírica e corporal, afinal, ela sempre usou seu próprio corpo e a moda como uma forma de manifestar sua personalidade, sua identidade. No documentário, a cantora até menciona que para ser levada a sério pela indústria e pelo público, sua estratégia foi fazer justamente o contrário do que se esperava dela.

O ambiente extremamente machista e hostil da indústria fonográfica (e cinematográfica, e fotográfica, e podemos continuar com essa lista pra sempre, mas o texto ficaria longo demais) fez com que ela tomasse essas medidas para que fosse possível chegar ao que ela é hoje, e o que Gaga diz apresentar no seu álbum Joanne: “esta sou eu nua e crua”.

Gaga: Five Foot Two

Esse seu “nua e crua” aparenta ser, da mesma forma como sua estratégia no início da carreira, algo construído. Há um certo tom de dubiedade presente na construção documental de Moukarbel, resultado de um conjunto de fatores que vão do seu estilo até a forma e o conteúdo dos momentos/relatos de Gaga no filme. O diretor utiliza recursos clássicos do cinema documentário, como assumir uma estética [sutil] de “câmera na mão”, que acaba transmitindo ao espectador uma perspectiva mais intimista e observativa.

Mourkarbel adota uma postura passiva, fazendo-se notar apenas três vezes ao longo do filme, quando faz duas perguntas e quando seu reflexo aparece em uma parede de mármore ao gravar uma vista de Nova York.

Soma-se a isso o fato de Gaga estar ciente da presença da câmera e do diretor (ela se dirige constantemente seu olhar a ele) e apresentar detalhes muito particulares e sensíveis da sua vida. Diante disso, podemos questionar: até que ponto essas situações não foram provocadas ou influenciadas exatamente pela presença da câmera?

A mesma forma de conduzir o filme também nos permite presenciar acontecimentos lindos e emocionantes, como quando Gaga vai à casa de sua avó em busca de fotos, escritos e pinturas de sua tia falecida Joanne, e resolve mostrar a ela e seu pai a música que compôs em homenagem a tia. É um momento muito tocante e íntimo para a cantora e sua família, o que acaba suscitando uma sensação de privilégio por “estarmos lá” quando isso aconteceu.

Ao mesmo tempo, ao retratar circunstâncias profissionais, Gaga faz questão de frisar que seu sucesso é fruto de um longo processo de amadurecimento, de evolução. É interessante que as suas divagações no decorrer do filme quase sempre se mesclam entre sua vida profissional e amorosa, como dois pesos de uma balança que nunca esteve equilibrada (e ela não parece muito esperançosa em encontrar esse equilíbrio também).

E é nestes momentos que, na sua fala, na forma como ela expressa suas inseguranças, nos sentimos mais próximos a ela. Reconhecemos em uma estrela inalcançável uma mulher como eu e você, cheia de medos, de dúvidas e que, apesar de ser famosa e bem sucedida, se vê sendo sempre duplamente desafiada por tudo e todos (inclusive por ela mesma), só por ser uma mulher.

Gaga: Five Foot Two (2017) é um bom filme, mas que funciona melhor para um espectador que já possui afinidade com a carreira da cantora, oferecendo um registro íntimo do seu ídolo. Para um público distante, o documentário passa uma impressão de que Gaga não passa de mais uma artista buscando exibicionismos (como quando a mesma vai a um Wallmart comprar seu próprio álbum e posteriormente denuncia que aquilo foi uma estratégia de marketing, “armamos um bordel”, “aquilo parecia um asilo de loucos”).

LEIA TAMBÉM: 
[FESTIVAL DO RIO] Roda Gigante: uma nota de pé de página na obra de Woody Allen (crítica)
[FESTIVAL DO RIO] Mulheres levam os principais prêmios do Festival!
[FESTIVAL DO RIO] Verão 1993: luto e adaptação familiar na infância (crítica)

Ainda que o documentário traga questionamentos pertinentes à respeito da dinâmica profissional no ramo da produção musical, principalmente focando no papel da mulher inserida neste meio, acaba pecando na sua abordagem formal, interferindo diretamente na forma como o público recebe o conteúdo transmitido.

Documentários sobre pessoas famosas sempre acabam levantando questões complicadas. Principalmente quando oferecem um olhar da vida a ser retratada sob um viés voyuerista, aparentando ao espectador uma espécie de privilégio ao assistir as tomadas tão íntimas de uma pessoa que parece ser inacessível. Até que ponto essas narrativas buscam humanizar uma estrela ou apenas servir como uma estratégia promocional?


Compartilhe

Written by:

Publicitária, mestranda em Meios e Processos Audiovisuais na ECA-USP, feminista, apaixonada por arte e vivendo um caso particular de amor com o cinema.
View All Posts
Follow Me :