Cinema queer brasileiro: 10 filmes para assistir no mês do orgulho

Cinema queer brasileiro: 10 filmes para assistir no mês do orgulho

Para pensar o cinema queer brasileiro, é preciso retornar ao dia 28 de junho, quando celebramos o Dia do Orgulho LGBTQIAPN+. Essa data marca o dia em 1969 do que ficou conhecido como a Revolta de Stonewall.

Naquele dia, um grupo de policiais invadiu o bar Stonewall Inn, em uma região de Nova York que era referência para a população LGBT, especialmente para pessoas trans, travestis, drag queens e kings. Como resposta à violência policial direcionada à comunidade queer, as pessoas presentes se rebelaram, causando revolta e manifestações que se estenderam por dias.

Hoje, junho representa um número maior de ações de conscientização sobre os direitos da população LGBTQIAPN+ em alguns países. Sendo assim, uma das maneiras de celebrar o mês do Orgulho é tornar mais visíveis histórias, narrativas e a arte queer.

Quando pensamos em contextos como o do Brasil e da América do Sul em geral, esse movimento é ainda mais importante, lembrando que o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo.

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O Cinema Queer

O cinema queer não é algo recente e remete às primeiras décadas da história do cinema. Mas isso depende de como definimos o cinema queer. Assim como a comunidade queer, seu cinema também é plural e foge de paradigmas.

Nos primeiros anos do cinema, ainda no começo do século XX, temáticas e personagens queer estavam presentes de forma quase subliminar, quando diretores como Dorothy Arzner tentavam imprimir a própria identidade em seus filmes.

Contudo, a partir de movimentos artísticos que tiveram início nos anos 1990, o cinema queer tem ganhado cada vez mais espaço para contar suas histórias de maneira livre. Filmes como O Segredo de Brokeback Mountain (2005), Carol (2015), Moonlight (2016) e Me chame pelo seu nome (2017) não apenas encontraram caminhos para serem realizados, como também passaram a ser acessíveis para o grande público.

Paris is Burning (1990) Dir. Jennie Livingston
Paris is Burning (1990) Dir. Jennie Livingston | Imagem: Revista Vogue

Cinema Queer Brasileiro

O caso do cinema queer brasileiro não é muito diferente do citado acima. Com produções como Limite (1930) e Poeira de Estrelas (1948), que escondem tensões queer em suas histórias, o máximo que era permitido pelo contexto da época. Mas é na última década que o cinema de protagonismo queer tem ganhado força no Brasil.

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Sendo assim, vale a pena lembrar de alguns títulos que estão disponíveis em serviços de streaming. Eles são uma ótima oportunidade para conhecer a diversidade de histórias que o cinema brasileiro tem para contar. Além disso, em 19 de junho também é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro, o que torna essa lista ainda mais especial.

Amor Maldito (1984)

Dirigido pela primeira cineasta negra no Brasil, Adélia Sampaio, o filme conta a história de Fernanda, que se torna a principal suspeita pela morte de sua namorada, Sueli.

Sendo assim, o filme foca no julgamento de Fernanda e como todo o processo é informado pelo preconceito e julgamento moral, muito mais do que por provas concretas. Na época, o filme não conseguiu financiamento de órgãos públicos, e para poder ser distribuído, a diretora precisou classificá-lo como pornográfico.

Em 2020, Adélia Sampaio disponibilizou toda a sua filmografia em seu canal no YouTube, onde o filme pode ser assistido.

Madame Satã (2002) Dir. Karim Aïnouz | Cinema queer brasileiro

O primeiro longa-metragem do diretor cearense Karim Aïnouz é uma semi-biografia de João Francisco dos Santos, artista transformista e figura referência da boemia da Lapa, no Rio de Janeiro.

Conhecido como Madame Satã, o filme protagonizado por Lázaro Ramos retrata o contraste entre a violência e a liberdade, representado pela figura de João e sua busca por liberdade.

O filme está disponível na Globoplay

O Cinema Queer Brasileiro a partir de 2010

Tatuagem (2013)

O filme de Hilton Lacerda acompanha o encontro entre Fininha (Jesuíta Barbosa), um jovem militar, e Clécio (Irandhir Santos), o líder de uma trupe de teatro.

Tatuagem mostra os embates entre a repressão da ditadura militar e o conservadorismo, além da exploração da liberdade artística e sexual, em uma espécie de coming of age para o personagem de Jesuíta Barbosa. O relacionamento entre Fininha e Clécio desperta uma série de transformações na vida de ambos.

Tatuagem está disponível na Netflix. 

Hoje eu quero voltar sozinho (2014) Dir. Daniel Ribeiro | Cinema queer brasileiro

Esse é um dos coming of ages mais amados do cinema brasileiro. Escolhido na época para representar o Brasil no Oscar, o filme de Daniel Ribeiro se tornou um clássico instantâneo.

Conta a história de Leonardo (Ghilherme Lobo), um menino cego que, enquanto tenta se tornar mais independente e lida com a tensão com a mãe superprotetora, descobre novos elementos sobre sua identidade depois que conhece Gabriel (Fábio Audi), um aluno novo que rapidamente forma uma forte conexão com Leonardo.

Disponível para assistir na Netflix.

  • Praia do Futuro (2014)

Praia do Futuro (2014)

Outra produção realizada por Karim Aïnouz, o filme leva o nome da famosa praia de Fortaleza, onde a história tem início. Donato (Wagner Moura) é um salva-vidas que se apaixona pelo turista alemão, Konrad (Clemens Schick), depois de salvá-lo.

Contudo, Donato tem um irmão mais novo, Ayrton (Jesuíta Barbosa), que ele deixa para trás ao ir para a Alemanha com Konrad. Os anos passam e Ayrton vai procurar o irmão em Berlim para confrontar os ressentimentos que ficaram após a partida de Donato.

O filme está disponível na Globoplay

Narrativas de um novo tempo

As boas maneiras (2017), dir. Juliana Rojas e Marco Dutra | Cinema queer brasileiro

Esse thriller de fantasia, dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, marcou o cinema de horror brasileiro dos últimos anos.

Apresentando camadas de debates que vão desde classe social até sexualidade e intolerância com o diferente, As Boas Maneiras conta a história de Clara (Isabél Zuaa), que tem a vida transformada após ir trabalhar para Ana (Marjorie Estiano), uma mulher rica que rompeu com a família depois de ficar grávida de alguém que não era seu noivo.

A gravidez de Ana não é convencional e, quando ela morre ao dar à luz, Clara precisa decidir o que fazer com o bebê diferente que nasceu de Ana.

O filme está disponível para assistir na Netflix.

Tinta Bruta (2018) | Cinema queer brasileiro

Pedro (Shi Menegat) é um jovem solitário, enfrentando as consequências de atos passados. Sua única companhia é a irmã, que está mudando de cidade e vai deixar Pedro sozinho.

No mundo virtual, ele assume outra identidade e faz performances eróticas coberto de tinta neon. Quando descobre que outra pessoa na mesma cidade está copiando suas apresentações, Pedro decide entrar em contato e quebrar a própria solidão.

O filme de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon venceu o Teddy Award de melhor filme, um importante prêmio para produções queer.

Tinta Bruta está disponível na Globoplay pela assinatura do pacote Telecine

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Histórias de mulheres

Valentina (2020)

Levando no título o nome da protagonista, o último filme de Cássio Pereira dos Santos conta a história de Valentina (Thiessa Woinbackk), uma adolescente trans que, ao mudar de cidade com a mãe, ganha a chance de recomeçar sem que ninguém saiba sobre sua identidade de gênero.

Para ser matriculada na escola com seu nome social, Valentina precisa da autorização de seu pai, com quem não mantém contato. A vulnerabilidade de ser mulher apresenta para Valentina desafios constantes.

O filme está disponível na Netflix

Marte Um (2022)

Dirigido por Gabriel Martins, o filme mais recente da produtora mineira Filmes de Plástico cativou a audiência brasileira. Contando a história de uma família negra de Contagem, em Minas Gerais, o filme aborda os desafios enfrentados por cada membro.

Eunice (Camila Damião) é a filha mais velha que precisa lidar com questões sociais e assumir sua sexualidade para os pais enquanto planeja ir morar com a namorada. O longa retrata de forma bonita as relações de afeto muitas vezes deixadas de lado na representação de histórias negras.

Marte Um está disponível na Globoplay

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Paloma (2022)

Nesse longa de Marcelo Gomes, Paloma (Kika Sena), uma mulher trans do interior do Nordeste brasileiro, decide que quer se casar na igreja.

Sua determinação em realizar esse sonho resulta em momentos de felicidade, mas também reflete a violência e o preconceito presentes na vida diária da população trans no Brasil, especialmente em cidades interioranas.

Mesmo passando por traumas, Paloma não desiste de seus sonhos e de celebrar a própria vida. Com esse filme, Kika Sena se tornou a primeira mulher trans a ser premiada no Festival do Rio.

O filme está disponível na Globoplay

O cinema queer brasileiro é uma ferramenta de reconhecimento

Marte Um (2022), dir. Gabriel Martins | Imagem: Reprodução

Há muitos outros exemplos, como Alice Júnior, Meu Nome é Bagdá, Corpo Elétrico, e diversos curtas-metragens que apresentam uma diversidade ainda maior de produções. Por isso, é preciso buscar ativamente o acesso ao cinema brasileiro, que é plural e diverso como seu povo.

Referências:

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Historiadora e Mestre em Cinema e Audiovisual. Pesquisando estética, identidade e como desafiar os padrões. Nerd desde do berço e apaixonada por arte, cinema e educação.
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