As Boas Maneiras: uma fábula de terror brasileira

As Boas Maneiras: uma fábula de terror brasileira

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As Boas Maneiras é a nova obra da dupla de diretores Juliana Rojas e Marco Dutra, conhecidos pelo seu apreço ao cinema de gênero, principalmente o terror. A história acompanha Clara (Isabel Zuaa) que vai trabalhar de doméstica na casa de Ana (Marjorie Estiano). Esta última mora sozinha e está nos últimos meses de gravidez. Porém, alguns eventos misteriosos a afetam em dias de lua cheia.

O filme é bastante charmoso, trabalhando cuidadosamente a atmosfera de fábula de terror. Ternura e mistério andam lado a lado, ajudados não só pela narrativa, mas também pela direção de arte ligeiramente cartunesca, com luas enormes e paletas de cor artificiais. A montagem também contribui com algumas passagens cômicas, fazendo cortes que evidenciam contrastes temáticos.

As Boas Maneiras

A grande surpresa é a ótima atuação de Marjorie Estiano, que entrega uma Ana misteriosa, mas cheia de energia e trejeitos peculiares. Ela é um tipo de patricinha do interior, mas que sofre de solidão e tem diversas questões internas com que lidar, e é ótimo ir descobrindo aos poucos o que se passa com ela. O filme é mais proveitoso se a espectadora não souber muito sobre a trama de antemão e for acompanhando o desenrolar da história à medida em que ela vai se revelando.

Apesar do tema de terror, As Boas Maneiras não tem aquele conhecido ritmo hollywoodiano. Ele é um pouco mais arrastado, mas nada que comprometa seu aproveitamento. Uma das melhores coisas é que durante boa parte da história há apenas mulheres em cena. É raro ver isso no cinema e algo reconfortante de encontrar aqui.

As Boas Maneiras

As Boas Maneiras também se preocupa com questões sociais e raciais, por meio do tema da empregada negra e pobre explorada pela madame branca e rica. O que relembra o filme anterior dos dois diretores, Trabalhar Cansa, que trazia as mesmas questões. Fugindo de maniqueísmos, a narrativa de As Boas Maneiras deixa bem claro as forças estruturais que impõem esse sistema social. Ana não é uma pessoa má, mas isso não impede que, de sua posição privilegiada, ela reforce esse sistema. É uma perspectiva importante, e novamente foge do estereótipo hollywoodiano, que geralmente atribui uma culpa individual para problemas estruturais. 

As Boas Maneiras é um bom exemplar de cinema de gênero no Brasil e deve ser visto por todos aqueles que gostarem de uma boa fábula com toques de terror.

Agora, há alguns aspectos do filme que só podem ser discutidos com SPOILERS, então assista nos cinemas e depois volte aqui para ler a análise mais completa abaixo:

Como já citado, um dos pontos fortes de As Boas Maneiras é apostar na presença feminina durante toda sua primeira parte. Praticamente não há homens em cena, até as figurantes são mulheres: a policial, a mendiga. O foco está em Clara e Ana e no desenvolvimento da relação entre as duas. É bastante benéfico também a inclusão de um romance lésbico, representado com ternura e de forma não objetificada.

Infelizmente, porém, essa relação amorosa entra em conflito com a posição social das duas – uma empregada, outra patroa. E o filme mostra que a relação não ficou mais igualitária a partir de então. Ana continua dando ordens, e Clara continua sendo sua empregada, além de agora parceira amorosa. Portanto, há ressalvas a se fazer na celebração de tal relacionamento, quando ele ainda guarda profundas disparidades sociais, que beneficiam apenas o lado da patroa. Clara cuida de Ana, mas Ana não cuida de Clara. Clara mantém uma devoção à figura de Ana até o final do filme, mas pode-se chamar isso de amor quando há um desequilíbrio tão grande de poder?

As Boas Maneiras

Assim como em Trabalhar Cansa, essas questões não são julgadas pelo filme, que deixa tudo em aberto para as espectadoras tirarem suas próprias conclusões. A segunda metade, porém, que é muito inferior à primeira, dissolve um pouco dessa crítica social, permitindo esse questionamento talvez se perder na mente de quem assiste.

O que a segunda metade traz é um elo temático com a primeira em relação à maternidade. Clara, que já é uma espécie de mãe para Ana no começo do filme, se torna mãe novamente ao cuidar do filho que Ana estava gestando. É aí que as coisas se tornam um pouco nebulosas em relação à representação feminina.

Ana é uma mãe rebelde, sexualmente ativa, que não segue “as boas maneiras” da sociedade. Ela é punida por isso não só socialmente, quando sua família a rejeita e abandona, mas também fisicamente ao se tornar meio-lobisomem, o que a faz sonambular por aí e atacar os outros sem ter consciência disso, como se estivesse “infectada” pelo filho que carrega na barriga.

As Boas Maneiras

A punição final é a morte de Ana, quando o bebê nasce a la Alien, rasgando sua barriga. Clara se torna mãe, então, quando tem compaixão pelo menino e não consegue o abandonar no mato. Ela se torna a mãe benevolente, que faz tudo pelo filho, assim como fazia tudo por Ana. Cuidar de Joel, o filho, inclusive lhe dando o nome que Ana queria dar para ele, é uma forma de Clara resgatar a memória dela.

Clara, infelizmente, cuida apenas dos outros no filme, mas não de si mesma. Há até uma cena no começo onde ela tenta ir ao bar flertar com outras mulheres. É finalmente um momento que ela tem só para si. Mas ela não se permite, ela vai embora, mesmo ao receber atenção de outra mulher interessada. Enquanto na primeira metade do filme isso é colocado como reflexão sobre as posições sociais que as duas mulheres ocupam, na segunda metade a função de Clara como mãe não é questionada. É, ao contrário, até exaltada como o ápice da abnegação, algo com que a maternidade segue sendo associada até hoje.

As Boas Maneiras

Esse é um dos motivos pelos quais a segunda metade é tão inferior à primeira. Além de ter um tema mais banal, e atuações menos inspiradas, não desafia papeis sociais como a anterior. O foco sai de Clara e cai em Joel, o lobisomem criança, buscando independência e encontrando rejeição por ser um monstro, narrativa contada trocentas vezes antes, e aqui sem trazer nenhuma novidade. É uma pena que mais uma vez o monstro seja masculino, e mulheres tenham que amá-lo, compreendê-lo, e protegê-lo. É preciso conceder esse olhar benevolente a monstras também.

As Boas Maneiras

E o tropo da gravidez mística também é um problema. Embora não muito comum no Brasil, no sci-fi americano existem inúmeras narrativas onde mulheres são engravidadas por seres do além para dar a luz a monstros, aliens ou criaturas sobrenaturais, sempre com muito terror e dor envolvidos. Como diz Anita Sarkeesian, do Feminist Frequency, um processo natural como gravidez não deve ser usado como forma de tortura, um recurso de roteiro para aumentar a tensão dramática usando o corpo da mulher como convir.

Em As Boas Maneiras, assim como na maioria das narrativas onde esse tropo aparece, a gravidez mística surge como uma punição para a mulher. Aqui, Ana é literalmente morta pelo bebê que decidiu gestar, como se fosse um castigo por tê-lo concebido fora de seu relacionamento oficial com outro homem.

As Boas Maneiras

É possível que os diretores – que também escreveram o roteiro – não tenham considerado isso, e apenas tenham seguido o modo como esse tropo é aplicado em inúmeras outras produções. É preciso sempre refletir, porém, sobre que tipo de representação está sendo composta. Ainda mais em um filme que parece ter consciência da importância de uma maior presença feminina, como evidenciada no começo.

No mais, As Boas Maneiras é um filme competente de dois ótimos cineastas brasileiros. Juliana e Marco tem uma estética peculiar e agradável. Os dois números musicais, apesar de dispersos e destoantes da trama, são um dos pontos altos. As canções são belas e contribuem para o clima de fábula. Talvez o filme ficasse ainda melhor se fosse um musical completo, assim como o filme anterior de Juliana, Sinfonia da Necrópole. É uma alegria que novos diretores brasileiros tão criativos estejam tendo seu trabalho reconhecido.

As Boas Maneiras está disponível no streaming Telecine e Globoplay.


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Autora

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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