Deserto Particular | CRÍTICA: redenção ao custo do sofrimento LGBTQIA+
Deserto Particular: redenção ao custo do sofrimento LGBTQIA+

Deserto Particular: redenção ao custo do sofrimento LGBTQIA+

Um policial solitário, uma longa viagem de carro e uma história de amor. Esses são alguns elementos novo filme de Aly Muritiba. Em cartaz a partir desta quinta-feira (25/11), Deserto Particular retrata preconceitos presentes no Brasil. O longa foi escolhido para representar o país na corrida por uma vaga no Oscar 2022. 

A história narra a jornada de Daniel (Antonio Saboia), um policial afastado do posto após cometer um erro em uma operação. No momento em que o filme se inicia, Daniel passa seus dias cuidando do pai, que tem Alzheimer, além de procurar um novo emprego. Mas o que de fato lhe traz felicidade é conversar com Sara (Pedro Fasanaro), uma moça que conheceu pela internet. 

Quando Sara não responde mais suas mensagens, Daniel deixa tudo para trás e resolve atravessar o Brasil para encontrá-la, partindo de Curitiba para o interior da Bahia. A viagem se torna mais complexa do que ele imaginava e Daniel descobre que precisa desbravar seu próprio deserto. 

Cena de "Deserto Particular", novo filme de Aly Muritiba
Daniel (Antonio Saboia) em Deserto Particular, novo filme de Aly Muritiba | Foto: divulgação

Deserto Particular é um filme que demonstra a vontade de Aly Muritiba em apresentar assuntos latentes nos últimos anos. O maior arco da história, portanto, está ligado às questões de sexualidade e as diferentes formas de marginalização enfrentadas pela comunidade LGBTQIA+, além de trazer questões sobre masculinidade.

A história caminha por pontos interessantes e importantes para o cenário brasileiro atual. Também se apresenta como uma boa escolha para mostrar que o país é mais do que a face apresentada pelo governo.

Frustração e envelhecimento em Deserto Particular

O primeiro terço de Deserto Particular se dedica a apresentar a relação de Daniel com seu pai e com sua irmã. Os dois dividem os cuidados com o senhor que precisa de companhia constante. 

A construção das cenas, silenciosas e muitas vezes escuras, demonstram a frustração de Daniel com sua vida e sua relação pouco amigável com o mundo. O pai se torna quase um espelho do que pode acontecer no seu futuro. Mas diferente dele, Daniel perdeu a honra dentro da profissão e está longe de possuir o mesmo prestígio que seu pai como militar. 

Portanto, todas essas questões parecem se acumular nos ombros do personagem e Antonio Saboia consegue transmitir bem o peso da vida para Daniel, que se mantém calado e carrancudo pelos cantos.

Daniel (Antonio Saboia) em Deserto Particular
Daniel em Deserto Particular, filme que representa o Brasil na corrida por uma vaga no Oscar 2022 | Foto: divulgação

A masculinidade de Daniel, sendo um homem hétero, também é posta em pauta. Grande parte de sua personalidade parecia estar ligada à sua profissão, contudo esse poder é cortado com o afastamento do trabalho. Com isso, ele vive uma crise não só profissional mas também de identidade. Ele busca encontrar novamente seu lugar como homem no mundo. 

Com poucas perspectivas, Sara se torna ainda mais importante no universo de Daniel. Pois para ele, Sara representa um ponto de escape, o leve e o novo em um momento escasso de felicidades. 

Aviso: a partir daqui o texto possui spoilers

A fuga

No momento em que parece estar completamente anestesiado pela rotina, Daniel decide deixar seu pai e sua irmã em Curitiba na tentativa desesperada de encontrar Sara. Nesse ato, Deserto Particular confronta o protagonista. Antes da viagem, sua irmã conta que está namorando uma mulher, mas Daniel não sabe o que responder e a deixa sozinha na cozinha. Em seguida, o personagem decide então largar tudo e dirigir até a Bahia, sem saber ainda as questões com que iria lidar. 

Filme escolhido para representar o Brasil na corrida por uma vaga no Oscar 2022
Cena de Deserto Particular | Foto: divulgação

Sexualidade e sociedade em Deserto Particular

Quando Daniel chega a Bahia, o longa finalmente apresenta Sara pelos seus próprios olhos. O fato dela ser travesti fez com que ela se afastasse de Daniel, por medo da reação que ele poderia ter. E a partir desse momento, o longa nos apresenta a conturbada vida de Sara/Robson, que precisa esconder sua verdadeira identidade na cidade natal.

Deserto Particular mostra os preconceitos vividos pela ótica de Sara. Aqui a dura realidade vivida pela comunidade LGBTQIA+ brasileira está presente na trajetória da personagem, que é obrigada a se encaixar para que consiga ter uma vida minimamente tranquila. Já a relação de amor e ao mesmo tempo de repressão com sua avó, que é bastante religiosa, também é um ponto forte e constante em seu cotidiano. 

Por outro lado, para Sara, Daniel está em uma posição de sonho e renovação. Ele apresenta a possibilidade de viver uma história de amor e o início de um novo caminho. Mas talvez esse seja um dos maiores erros do filme. Sara não deveria ser um ponto de redenção para Daniel, mas sim sua própria agente de libertação.

Sara (Pedro Fasanaro) em Deserto Particular
Sara (Pedro Fasanaro) em Deserto Particular | Foto: divulgação

Tendo “Total Eclipse of The Heart” como música do casal, a narrativa conduz para que se entenda que esse amor é difícil e trágico. E isso de fato se concretiza na história, pois ao descobrir a verdade sobre Sara e rejeitá-la, Daniel reproduz o que se espera de alguém como ele. Sendo homem, branco, policial, não é difícil de imaginar que ele precisaria se deparar com o preconceito para começar a entender o sofrimento de Sara. 

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A partir desse ato, Deserto Particular poderia levar ao caminho da separação dos dois. Entretanto, o longa busca se afastar do ódio presente na sociedade brasileira e conduz Daniel a uma retomada de pensamentos. 

A cena em que o personagem arranca o próprio gesso do braço é uma catarse que leva a muitas mudanças da visão que ele tem do mundo. O filme resolve retratar os preconceitos construindo uma conversa e acreditando na possível transformação de pessoas como ele. 

Contudo, é nesse ponto que o longa cria diferentes interpretações entre o público. Em uma certa perspectiva é possível ver a narrativa como uma história de amor, onde um dos envolvidos muda e aceita as diferenças. Por outro lado, o sofrimento de Sara pode ser visto como apenas uma ferramenta para impulsionar um personagem branco e cis a sua redenção.

Sofrimento LGBTQIA+ no longa de Aly Muritiba

Deserto Particular não esconde o fato de que a vida de Sara é sofrida. A personagem narra que o pai a deixou aos cuidados da avó, para que ela pudesse ser “consertada”. Mas será que narrativas de sofrimento LGBTQIA+ ainda são tão necessárias?

O equilíbrio entre construir personagens realistas e não fetichizar o sofrimento que a comunidade sofre nem sempre é fácil. A presença da homofobia não é nenhuma novidade, entretanto existem outras histórias a serem contadas sobre esses grupos. Será que Sara precisava sofrer e ser humilhada para que existisse uma mudança de pensamento de Daniel? Além disso, é necessário que a comunidade LGBTQIA+ sempre aceite ouvir e dialogar, mesmo com aqueles que deixam claro seu desprezo? 

sofrimento LGBTQIA+ como ferramenta pra redenção de homem branco cis
Sara em Deserto Particular | Foto: divulgação

Apesar de entregar um final de conciliação entre o casal, Deserto Particular ainda retoma uma trajetória de dificuldades para uma personagem LGBTQIA+. O filme mostra que a liberdade de Sara precisa ser ganha com custos. É ela, portanto, que precisa aceitar novamente Daniel e através dela que ele encontra sua redenção.

O filme aborda sim diversos preconceitos ao pautar esse romance em tempos de ataques homofóbicos muito aflorados. Entretanto, é necessário repensar na forma da construção narrativa de grupos marginalizados. O sofrimento não precisa ser sempre a chave dessa construção. A relação com um homem preconceituoso, que só se torna agradável após presenciar uma humilhação, não é algo saudável. É preciso pensar sobre os porquês dessas escolhas.

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Deserto Particular traz um olhar interessante, principalmente ao se considerar os aspectos atuais de governo e possibilidades do cinema nacional. A importância de retratar as vivências LGBTQIA+ é maior do que nunca. Apesar disso, talvez seja preciso pensar em narrativas onde o homem branco e sua redenção não sejam o ponto central. Personagens LGBTQIA+ merecem ter seus caminhos e suas histórias independentes da aprovação ou vontade de personagens heterossexuais. 

Vale a pena assistir e debater o filme, além de torcer por sua possível indicação ao Oscar em uma época em que a cultura brasileira precisa ser valorizada.

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Bacharel em Estudos de Mídia e mestranda em Comunicação, ama falar sobre livros, filmes e música. Acredita que escrever pode ajudar a construir uma revolução na sociedade e quer fazer parte disso.
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