Mariana Enriquez | Autoras do Realismo Fantástico
Autoras do Realismo Fantástico: as assombrações cotidianas de Mariana Enriquez

Autoras do Realismo Fantástico: as assombrações cotidianas de Mariana Enriquez

O realismo fantástico é um gênero proveniente da década de 60, quando imediatamente se torna fundamental para a literatura latinoamericana. Autores como o colombiano Gabriel García Márquez, a chilena Isabel Allende e o brasileiro José J. Veiga são grandes nomes dentro desta corrente artística que forja laços entre o naturalismo e o fantástico, criando uma nova realidade, onde o racionalismo é rejeitado. Sem uma definição rigorosa, esse gênero permite a existência de um espaço ilimitado para a composição de histórias únicas e que marcam as leitoras de forma profunda, abordando temas polêmicos e que lidam com traumas. E uma autora contemporânea que apresenta tal gênero em suas obras é Mariana Enriquez.

Mariana Enriquez fotografada por Dafne Gentinetta. | Foto: reprodução

O realismo fantástico nas obras de Mariana Enriquez

A Argentina é a moradia de um dos atuais grandes nomes dessa literatura, Mariana Enriquez. Nascida em Lanús no ano de 1973, a escritora tem seu primeiro romance, Bajar es lo peor (1994), publicado aos 21 anos. Em suas obras, Enriquez se utiliza da temática do terror para retratar uma sociedade argentina moderna, reinterpretando os medos da sociedade moderna de forma única.

Nos livros da autora, também é possível reconhecer diferentes abordagens dos crimes cometidos na ditadura argentina, vivenciada pela autora em sua infância. Com formação na Universidade Nacional de La Plata, Enriquez é responsável por 9 obras, três de não ficção, escrevendo sobre os mais diversos gêneros: contos, crônicas, textos jornalísticos e biográficos, além de seus romances e novelas.

A editora Intrínseca é a casa da obra de Mariana Enriquez no Brasil, com a tradução de três de seus livros para o português – os únicos em nossa língua atualmente. As Coisas que Perdemos no Fogo foi o primeiro, com tradução de José Geraldo Couto em 2016. Nessa coletânea de contos, Enriquez aborda situações cotidianas, explorando as diversas dimensões da vida contemporânea por meio da transformação de ocorrências familiares a leitora em verdadeiros pesadelos macabros. 

As coisas que perdemos no fogo, livro de Mariana Enriquez
As coisas que perdemos no fogo, primeiro livro de Mariana Enriquez lançado no Brasil. | Imagens: reprodução
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As doze narrativas da obra contém protagonistas de diferentes idades e situações sociais, desde crianças assassinas, adolescentes que realizam pactos sobrenaturais, homens em conflito com suas mortes iminentes e mulheres com relacionamentos complicados com seus próprios corpos. Todos vivem no momento da ditadura militar argentina – cenário que perpassa grande parte da obra da autora. 

Ao adentrar as histórias de Enriquez contidas em As Coisas que Perdemos no Fogo, não temos mais os termos fantasia e realidade como dois conceitos separados. Aqui eles se fundem em um só, criando uma nova existência angustiante, sem muito espaço para a felicidade e a tranquilidade que todos desejamos. Interações que compreendemos como simples e que realizamos quase automaticamente se tornam momentos opressivos e de completo desconforto. Tal questão faz com que a leitora deixe sua própria experiência de lado e aceite essas novas vivências como reais.

Este é o Mar - Mariana Enriquez
Edição de Este é o Mar. | Foto: Laís Fernandes/Delirium Nerd

Este é o Mar (tradução de Elisa Meneses, 2019) foi meu primeiro contato com a obra de Mariana, um livro que acabou se tornando um favorito. Se distanciando do universo dos contos, nessa obra Enriquez explora um novo universo: o cotidiano das grandes lendas do rock, assim como os grandes segredos dos bastidores e o poder das redes sociais em potencializar as existências desses indivíduos. 

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A grande questão de “o que faz alguém se consagrar como uma lenda do rock?” é respondida aqui pela autora: são as Luminosas as responsáveis por tal acontecimento. Esses seres atemporais se alimentam do amor dos fãs por essas personalidades, trabalhando incansavelmente para fazer com que pessoas normais se tornem os maiores astros da sociedade. Nomes como Sid Vicious, Amy Winehouse e Jim Morrison são apenas alguns dos citados como os grandes triunfos das Luminosas. Sua ascensão ao estrelato, assim como suas mortes, são os objetivos delas. Pois o trabalho de uma Luminosa só está completo quando a fama está acompanhada de mortes trágicas e devastadoras.

A leitora, portanto, é convidada a observar a tarefa da Luminosa Helena que tenta fazer com que James Evans, o vocalista da banda Fallen, se torne a nova lenda do rock. Porém, Helena começa a questionar seu propósito. Após todo o esforço para pertencer dentre as Luminosas, essa entidade começa a desconfiar que seu objetivo não é mais condizente com seus próprios desejos.

Em Este É O Mar, Enriquez explora o que é ser uma – toda a alegria, dedicação e até a dor necessária para acompanhar a vida de pessoas admiradas, que no fim sempre serão indivíduos essencialmente desconhecidos pelos fãs, mesmo com todo o empenho ao contrário. A obsessão não é só abordada pelo conceito de fã, mas também pelo desejo assombrado de Helena, que se transforma diante dos olhos da leitora.  

Nossa Parte de Noite, o novo livro de Mariana Enriquez

O último livro da autora traduzido por Elisa Meneses para o português é Nossa Parte de Noite (Intrínseca, 2021). A narrativa apresenta Juan e Gaspar, com a cena inicial onde pai e filho, respectivamente, tentam atravessar a Argentina a carro. Desde a primeira cena, nota-se que a narrativa esconde algo – uma sensação de que algo mais permeia a relação dos dois. Para além disso, a atmosfera sobrenatural e fantástica está presente continuamente, aspecto que não precisa ser desvendado pela leitora, pois Mariana o difunde nas linhas com sua escrita admirável. 

Nossa Parte de Noite, o novo livro de Mariana Enriquez
Nossa Parte de Noite, o novo livro de Mariana Enriquez lançado pela Editora Intrinseca. | Imagens: reprodução

Com a narrativa definida nos anos 60 e 70 na Argentina, em meio à ditadura militar argentina, Mariana se utiliza do clima de terror, angústia e incertezas do período para explorar o terror e o fantástico. Ela retrata como o trauma de um país inteiro interferiu e modificou a vida cotidiana, mostrando seus efeitos até a atualidade. Os santos pagãos e a mitologia argentina também são uma grande fonte de inspiração. Enriquez apresenta as histórias e os mitos que, para nós, leitoras brasileiras, podem ser desconhecidos. A obra vai além do território da Argentina e aborda igualmente mitos e personalidades reais britânicas, deixando a narrativa ainda mais complexa.

Pai e filho são denominados médiuns, membros de uma sociedade denominada A Ordem, da qual tentam se distanciar no começo da novela. Tal sociedade parece estar decidida a se utilizar das habilidades de ambos para contatar uma entidade de outro mundo, não se importando com as consequências que tal ato pode provocar.

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Nossa Parte de Noite ganhou a 37ª edição do Prêmio Herralde de Novela, concedido a novelas de língua hispânica. Mariana foi a primeira argentina a conquistar tal prêmio. Nossa Parte de Noite é um livro emocionalmente intenso, onde o relacionamento entre pai e filho é explorado até os campos extremos da dor da perda e de pertencimento no mundo. Enriquez retrata os elementos fantásticos enquanto uma exploração da psique humana diante do trauma e do questionamento do sentido da própria existência.

Mariana Enriquez por Mariana Roveda. | Foto: reprodução

Mariana Enriquez é um dos grandes nomes da literatura argentina atual, pois sua prosa nos absorve para os mundos únicos contidos dentro dela na primeira frase. Com uma sabedoria extraordinária de escrever sobre uma variedade de personagens em situações diferentes, sem deixar as histórias cansativas e repetitivas, Enriquez tece novos conceitos de realidade. Ela mostra que o fantástico e o terror são partes fundamentais e não podem ser compreendidas como nada além de reais e necessárias.

Pesadelos são reais e aprender a existir em conjunto com eles é a vivência cotidiana nos cenários de Mariana Enriquez. Suas personagens assombram a leitora tanto quanto são assombradas por seus medos.

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Historiadora e Pesquisadora de Cinema. Fã de horror, filmes, livros, hóquei e de um pug chamado Batata. Sempre pode ser encontrada com café.
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