Quase Famosos: Daisy Jones and The Six e os bastidores do rock n’roll

Quase Famosos: Daisy Jones and The Six e os bastidores do rock n’roll

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Taylor Jenkins Reid vem conquistando uma legião de fãs mundo afora, incluindo ninguém mais ninguém menos que Reese Whiterspoon. Com sua perspectiva criativa, personagens palpáveis e cenários inteligentes, a autora cria um universo cativante, no qual todos os seus livros são impossíveis de largar. A autora já possui alguns livros publicados no Brasil, como Em Outra Vida, Talvez?, Os Sete Maridos de Evelyn Hugo, e Daisy Jones and The Six é um de seus mais famosos.

Daisy Jones and The Six conta a história de uma banda fictícia entre os anos 1960 e 1970 que dominava as paradas de sucesso, enchia as plateias por onde passava e conquistava milhares de fãs. Tornam-se a voz de uma geração, e Billy e Daisy, os vocalistas da banda, transformaram-se em inspiração de todo mundo que desejava ser considerado descolado na época. Porém, no dia 12 de julho de 1979, no último show da turnê Aurora, eles se separaram e ninguém nunca soube por quê. Até agora.

Os bastidores do rock n’roll

Daisy Jones and The Six - Taylor Jenkins Reid

Daisy Jones and The Six, portanto, narra a trajetória de uma banda fictícia desde sua ascensão à sua até sua misteriosa ruptura. Porém, o que parece uma premissa já clichê, abordada em outras obras com maestria, é revigorado por uma nova narrativa: a história é contada a partir de um compilado de depoimentos dos personagens, que vão desde membros da banda até amigos, jornalistas e pares românticos que acompanharam a história, que estão sendo entrevistados muitos anos após o término da banda. O que acontece no livro é uma jogada interessantíssima sobre como as pessoas experienciam os momentos de suas vidas de maneiras completamente distintas entre si e esses diferentes pontos de vista envolvem um mix de sentimentos conflitantes. 

Por ser um livro construído totalmente a partir de entrevistas, a autora consegue colocar uma fluidez e uma naturalidade que já nas primeiras trinta páginas a leitora é completamente fisgada, assim como consegue revelar a complexidade e as nuances de cada personagem de maneira primorosa. Portanto, mesmo que a leitora não tenha tenha prestado atenção em quem está narrando sobre um determinado assunto, é possível identificar pela maneira como aquilo está sendo contado ou por como os sentimentos estão sendo demonstrados, entre outros.

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Há, por conta dessa quebra do padrão narrativo, durante todo o livro, informações que se contradizem e são conflitantes entre si; personagens que passaram pelos mesmos momentos, porém possuem memórias completamente distintas entre si; e é possível compreender como a perspectiva particular de cada assunto sofre com o passar do tempo e com a memória de cada personagem.

Daisy Jones and the Six é o retrato perfeito dos bastidores das bandas famosas de rock nos anos 70. A banda, formada pelos irmãos Billy e Graham Dunne, Karen Sirko, Warren Rhodes, os irmãos Peter e Eddie Loving e, claro, Daisy Jones, tem sua trajetória narrada desde o seu embrião, com os irmãos Billy e Graham Dunne, até o seu afastamento com o último show da banda em 1974. Em meio a groupies, muito sexo e muitas drogas, vemos a realidade diária de shows e da produção criativa dos álbuns. Além disso, o retrato é por vezes tão perfeito, que é quase que impossível não se deixar levar pelo pensamento de que é uma banda real e que aquelas pessoas envolvidas narrando suas memórias e sentimentos são reais. 

Todos os desentendimentos, o envolvimento emocional das pessoas dentro da banda, a importância dos produtores e dos empresários na formação criativa, tudo se assemelha a biografias de bandas como os Beatles, Rolling Stones, entre outros. E no fim do livro todas as músicas cantadas, compostas e mencionadas são disponibilizadas. Dessa forma, Taylor Jenkins Reid mostra sua capacidade de não apenas escrever personagens interessantes e reais, mas também de escrever letras de músicas sentimentais e eletrizantes. 

O furacão Daisy Jones

Além de uma narrativa muito bem construída e de personagens, no geral, complexos, palpáveis e que parecem incrivelmente reais, um ponto extremamente positivo em Daisy Jones and The Six são as personagens femininas independentes, fortes e muito singulares. 

No início dos anos 70, Daisy Jones, com seus cabelos acobreados grossos e ondulados que roubavam a cena, queria ser vista como mais do que apenas uma musa para seus namorados músicos e artistas com quem saía. Ela queria ser vista mais do que apenas um objeto sexual, ser uma artista e compositora de sucesso e, principalmente, levada a sério.

No livro, a leitora tem contato com a visão de Daisy desde o seu início de interesse com a música e a composição. Assim, vemos que desde muito nova ela sempre sonhou em ter sua própria autonomia e ser reconhecida por seus próprios esforços e méritos. Com o desejo de ser uma estrela do rock, a personagem começa a se apresentar de forma independente em bares pequenos e esparsos por Los Angeles, em um bairro chamado Sunset Strip.

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Com o passar do tempo, Daisy torna-se conhecida nesse meio e acaba indo morar com Simone, sua amiga e mentora, conquistando um pequeno espaço de liberdade. Entretanto, determinada a se tornar conhecida além do circuito pequeno e independente da Sunset Strip, Jones começa a compor suas próprias músicas, munida apenas de papel e caneta, e sem qualquer formação musical, conseguindo em pouco tempo criar os esboços de mais de cem canções. 

A atriz Riley Keough, neta de Elvis Presley, será a protagonista da adaptação de Daisy Jones and The Six no formato de minissérie. Imagem: reprodução

Suas músicas tinham potencial e já demonstravam o quão grandiosa poderia ser sua carreira, porém algumas coisas a deixavam para trás. Um ponto muito importante que demonstra isso é o fato de que, devido ter adentrado nesse meio ainda muito jovem, Daisy foi bastante influenciada e se envolveu com muitas pessoas que, não apenas se aproveitavam de seu talento, carisma e generosidade, mas também a destruía psicologicamente.

Nesse primeiro período em atividade, percebe-se o quanto os homens podem ser perversos com mulheres mais novas e o quanto tendem a nos objetificar sexualmente. Ao recriar e nos apresentar o cenário do rock’n’roll dos anos setenta, Taylor Jenkins Reid mostra como os papéis e as expectativas de gênero podem moldar nossas carreiras e como as mulheres, principalmente mais jovens, ainda são muito sujeitas a passarem por experiências terríveis para conseguirem o que almejam para suas carreiras devido a homens poderosos.

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Daisy sonhava em ser uma estrela do rock e tocar suas próprias composições para milhares de pessoas e até consegue um contrato com uma gravadora que se interessou por seu trabalho, porém tentavam a todo custo moldá-la aos meios mais pop ou mais comerciais, o que a incomodava bastante. Entretanto, Jones é uma personagem com uma personalidade forte, opiniões muito bem formadas e que não leva desaforo para casa.

Por vezes, ela pode até parecer um pouco irritadiça ou grosseira, porém tem um coração cheio. É alguém que precisa passar por muitas situações onde deve se reafirmar, além de precisar se sustentar em sua identidade para não se perder completamente em vícios e relacionamentos abusivos. Daisy, dessa forma, tenta lidar com essas questões da melhor forma possível.

Além disso, algo muito poderoso é retratado. Jones tem controle total de sua própria sexualidade e da sua forma de se expressar. Por meio dela pode-se ver a discussão de temas importantes ligados à dependência química, relacionamentos tóxicos ou abusivos, independência da mulher, representatividade ou a falta dela, entre outros. 

As personagens femininas fortes de Taylor Jenkins Reid

Porém, logo por estar no título, pensamos que Daisy Jones irá roubar toda a cena e nos hipnotizar durante todo o livro (o que é verdade), entretanto, algumas outras personagens femininas também se destacam bastante: Simone, Karen e Camila. De um modo ou de outro, apesar de alguns conflitos e tensões, elas acabam se apoiando muito e sendo importantes umas para as outras. E algo que chama muita atenção é a amizade ou quase que uma irmandade que existe entre Simone e Daisy, que servem de lar e de família uma para a outra, dando todo apoio e suporte, bem como a amizade de Karen e de Camila.

Alguns anos atrás seria um pouco raro ver a uma relação saudável e com tanto afeto entre mulheres como esse livro retrata. Apesar de historicamente termos uma representação cultural de algumas amizades femininas icônicas, o que tem-se como comum, ou tinha, seria promover a rivalidade entre estas, e não é o que acontece aqui. Mesmo no caso da relação de Camila e Daisy, que tem conflitos tensos e alguns desentendimentos, ainda há muito respeito e admiração mútuos, o que faz do livro um ótimo retrato para o incentivo à desconstrução desses valores de desunião feminina. 

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Além disso, é de dar quentinho no coração o afeto que é criado entre Karen e Daisy. Mesmo que não fossem tão próximas na época da banda, elas sempre mencionam uma a outra com muito carinho, respeito e admiração, além do livro demonstrar a união quando o assunto era combater o machismo enraizado na banda. Portanto, há um retrato claro da época nessa contraposição de homens que hiperssexualizam mulheres e ao mesmo tempo mulheres que se uniam para tentar lidar com esse machismo, o que é o caso delas.

Karen fala sobre como elas sempre precisavam da aprovação dos homens para fazer qualquer coisa, e parecia só ter duas opções: ou se comportava como “um dos caras” — que ela comenta que foi o caminho que resolveu seguir — ou se comportava como uma de menininha fútil, que tentava ganhar todo mundo na base do charme. Eles gostavam disso. Mas, desde o começo, ela fala sobre como Daisy meio que se recusava a fazer as coisas assim. Com ela era meio “pegar ou largar”.

Karen também traz o tema do casamento e da maternidade de maneira muito interessante, em contraste com a relação que Camila tem com isso, o que só reforça como essas instituições devem ser desconstruídas e tratadas como um processo de escolha e não como uma imposição quase natural que o patriarcado nos influencia. Como diria ela: “Talvez, se eu fosse de uma geração mais jovem, achasse o casamento uma ideia mais interessante para mim. Vejo muitos casais mais novos hoje em dia, e é uma relação igualitária, em que ninguém manda em ninguém. Mas essa não era uma configuração viável para mim. Não era uma configuração viável para a época. Ter um marido não combinava com o que eu queria. Eu queria ser uma estrela do rock. E morar sozinha. Numa casa nas montanhas. E foi isso o que fiz.

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Quando se pensa em Camila, ela pode ser é a personagem mais complexa, pois dedica a sua vida, aparentemente, para ser uma dona de casa, cuidadora de suas filhas e que presta total apoio ao seu marido, Billy, que está sempre trabalhando. Quem não tem contato direto com o livro e apenas lê a sinopse pode ter a impressão errada de que esta é uma personagem submissa e voltada aos padrões e expectativas de gênero, o que não é verdade.

Camila tem uma identidade e uma personalidade muito distintas, que realmente se destacam ao longo da obra. Seus sentimentos conflitantes e complexos são uma das melhores partes da história, pois vemos que a sua escolha em se dedicar a sua família é isso: uma escolha, e não uma submissão. E como diria Karen: “As pessoas pensam que Camila passava o tempo todo atrás do Billy, cuidando dele e tudo mais, só que não era bem assim, sabe? Ela era dura na queda. E sabia conseguir o que queria. Quase sempre, aliás. Era bem persuasiva e meio impositiva até, apesar de a gente nunca sentir que ela estava impondo nada. Mas Camila tinha uma personalidade forte, sabia fazer valer sua vontade”.

Daisy Jones and The Six é um livro que vale muito a pena ler se você já conhece o trabalho de Taylor Jenkins Reid, e mais ainda se não conhece, pois sua capacidade criativa está muito bem demonstrada aqui. A tristeza de imaginar que não podemos ver ou ouvir a banda verdadeiramente cantando será resolvida em breve, pois os direitos foram comprados pela produtora da Reese Whiterspoon e a adaptação deve ser uma minissérie de 13 episódios pela Amazon Prime Video – que também será a responsável por distribuir a música original da série de forma exclusiva na Amazon Music. Fiquem de olho!


Daisy Jones and The Six: Uma história de amor e música

Taylor Jenkins Reid

Tradutor: Alexandre Boide

Editora Paralela

244 páginas

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Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Estudante de Direito, nordestina, pode falar sobre Studio Ghibli e feminismo por horas sem parar, amante de cinema e literatura (ainda mais se feito por mulheres), pesquisadora, acumuladora de livros e passa mais tempo criando listas inúteis do que gostaria.
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