Uma discussão sobre rivalidade feminina no rock dos anos 2000 e responsabilidades nos dias atuais

Uma discussão sobre rivalidade feminina no rock dos anos 2000 e responsabilidades nos dias atuais

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A quarentena vem sendo um período de revisitar memórias e lugares que costumávamos frequentar, músicas que ouvíamos com os amigos aglomerados e coisas que fazíamos quando sair de casa não era o maior dos problemas – para nós, mulheres, sempre foi um desafio, mas agora há um risco a mais.

Numa dessas revisitadas, me deparei com meus ídolos de infância/adolescência e me vi questionar por quê elas nos incentivavam a implicar com outras mulheres. Esse texto é um tanto mais autobiográfico do que os de costume, mas imagino que várias das leitoras irão se identificar com essa história sobre a rivalidade feminina no rock dos anos 2000.

Ser uma “moleca” nos anos 2000

No início dos anos 2000, ser uma garota que não gostava de maquiagem ou bonecas era um estigma. Fomos ensinadas desde pequenas sobre nosso dever de performar feminilidade e a ausência dessa vontade “feminina” (com muitas aspas) podia fazer com que nós odiássemos outras garotas. Seja porque nós odiávamos rosa, bonecas e outros símbolos opressivos impostos, seja porque nós costumávamos acreditar que os meninos eram mais confiáveis e não fariam fofoquinhas a nosso respeito. Bom, isso era o que eu pensava desde meus 6 anos quando o que eu queria mesmo era jogar bola, andar de skate, usar tênis e brincar de braço de ferro.

Nessa fase complicada, rodeada por filmes “de menininha”, girl bands e cantoras sempre muito maquiadas, sendo zoada na escola por ser “moleca”, como diziam, a válvula de escape veio através de artistas que estouraram na época e eram completamente diferentes das que eu era bombardeada: Avril Lavigne e Hayley Williams são alguns exemplos que mais me marcaram.

As cantoras Avril Lavigne e Hayley Williams são os exemplos que mais marcaram o rock dos anos 2000.
Avril Lavigne e Hayley Williams: a rivalidade feminina no rock dos anos 2000. Foto: reprodução
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Hoje em dia, imagino que se eu tivesse descoberto o punk feminista e o riot grrrl naquela época, provavelmente minhas concepções a respeito de outras mulheres seria diferente, mas quem eu descobri fez com que eu me libertasse naquele momento e também sou grata por isso.

Avril e Hayley eram exatamente como eu queria ser: vestiam roupas confortáveis, largas e coloridas, andavam de skate, não usavam maquiagem, tinham cabelos coloridos, eram amigas dos caras e estavam tocando rock em uma banda. É claro que ambas tiveram vários momentos, visual e sonoramente falando, e hoje em dia são bastante diferentes de quando tinham 17 anos.

Avril Lavigne não gosta da sua namorada

Let Go” (2002), álbum de estreia de Avril lançado quando ela tinha apenas 17 anos, emplacou algumas das músicas mais conhecidas da cantora, como Complicated, Sk8ter Boy e I’m with You. As letras podem até não falar competitividade feminina em si, mas os clipes abordam o tema de certo modo. Ela é sempre a única menina no grupo, que quase sempre faz coisas muito mais divertidas do que festa do pijama e maquiar a cara da amiguinha.

A rivalidade feminina no rock dos anos 2000.
Avril Lavigne no início da carreira. (Foto: reprodução)

As música abordam rejeição e falam sobre se recusar a estar numa posição invisibilizada, além de falarem sobre ser você mesma e não mudar por pressão dos outros.  A temática continua em “Under My Skin” (2004), um pouco mais emotivo do que o primeiro, com hits como My Happy Ending e Nobody’s Home, que traduzem bastante o espírito coração partido do disco.

O ponto problemático surge em “The Best Damn Thing” (2007), álbum que traz um dos maiores sucessos da artista: Girlfriend, que já tem quase 521 milhões de visualizações no videoclipe lançado 11 anos atrás. Numa pegada mais pop, o apelo melancólico da garota que costumava ser rejeitada agora se torna algo megalomaníaco e as letras falam sobre não dar a mínima pros outros e se achar melhor do que qualquer um. Na época, Avril revelou que as gravações eram regadas a álcool e que estava bêbada quando compôs Girlfriend.

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A questão abordada em Girlfriend, sobre achar que outra mulher é inferior e humilhá-la, é referente a um termo cunhado por Julia Penelope em 1992 chamado “hostilidade horizontal”. Como diz Denise Thompson:

“Hostilidade Horizontal pode envolver bullying para submeter alguém que não é mais privilegiada em uma hierarquia das relações sociais supremacistas masculinas antes que aquela que acossa. Pode envolver tentativas de destruir a boa reputação de alguém que tem mais acesso aos níveis mais elevados de poder que aquela que está espalhando o escândalo. Pode envolver tornar alguém responsável da opressão de outra pessoa, mesmo que ela também seja oprimida.

Pode envolver demandas invejosas de que outra mulher pare de usar suas próprias habilidades, porque o sucesso de alguém melhor colocado que você mesma ‘faz’ você se sentir inadequada e sem valor. Ou pode envolver tentativas de silenciar criticismo por atacar aquela percebida como fazendo o criticismo.

Em termos gerais, envolve percepções confundidas da fonte da dominação, localizando esta em mulheres que não estão comportando-se opressivamente (na medida de que não estão, claro). E isso é inspirado por ódio, aquela primeira força motivadora que mantém o motor da supremacia masculina rodando.” (p. 2)

Leia o texto completo e outros artigos sobre violência entre feministas aqui.

Mesmo anos depois, não consegui encontrar nenhuma declaração de Avril sobre usar o recurso da rivalidade feminina em suas músicas e vídeos, a cantora ainda inclui o hit em alguns de seus shows.

A partir de “The Best Damn Thing“, a sonoridade das músicas de Avril mudaram bastante, passando por ritmos mais lentos com muitos teclados e menos baterias enérgicas e um apelo mais pop, experimentando recursos eletrônicos. As letras também se tornaram cada vez mais motivacionais.

Avril em sessão de fotos promocionais para o lançamento de “Warriors” (2020). (Foto: reprodução)

Hayley Williams e o negócio da miséria

Aos 15 anos, Hayley assinou um contrato com a Atlantic Records para uma carreira solo, mas chegou a brigar com a gravadora porque queria ter uma banda, e não lançar músicas ou responder à imprensa como “Hayley”. Essa questão burocrática era um problema para o conjunto, principalmente porque a cantora se sentia pressionada de todos os lados e é sempre importante lembrar o quão jovem ela era.

A rivalidade feminina no rock dos anos 2000. Foto: Hayley Williams no início da carreira.
Hayley Williams no início da carreira (Foto: reprodução)

Hayley conta que tinha uma postura que podia ser entendida como arrogante, mas explica que na verdade ela só queria ser respeitada. A cantora fala que por anos não gostou do termo “feminismo”, principalmente porque se sentia desconfortável quando eram chamados para tocar em palcos destinados para artistas mulheres. Sem dúvida, tudo o que nós, mulheres que tocam, não queremos é que nossa presença em festivais seja apenas para preencher números. Não existe algo como “banda de mina”, são apenas bandas como quaisquer outras. Hoje em dia, ela divide suas experiências com outras mulheres que estão no meio musical e diz ser libertador não se sentir sozinha como antes.

Assim como Avril, Hayley também não performava a feminilidade que nos é imposta. Como ela era a única garota na banda e frequentemente estava em espaços majoritariamente ocupados por homens, ela também ficava nesse lugar de poucas amigas mulheres.

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A questão da rivalidade feminina está bastante presente em Misery Business, do disco “Riot!”. A música tem um dos versos mais problemáticos da banda: “Uma vez prostituta, você não é mais nada/desculpe, isso nunca mudará”, em tradução livre. (“Once a whore you’re nothing more, I’m sorry, that’ll never change”). A cantora inclusive se pronunciou no Instagram quando a música foi adicionada na playlist “Women of Rock”, do Spotify:

“Estou tão orgulhosa da carreira do Paramore, não se trata de vergonha. É sobre crescimento e progressão… E, embora seja sempre a favorita dos fãs, não precisamos incluí-la em novas listas de reprodução em 2020.”

Já em 2015 a cantora havia dito que não se identificava mais com a abordagem de rivalidade feminina que consta na música e no clipe, onde a “protagonista” aterroriza todas as outras garotas, e no fim acaba destruída por Hayley que remove sua maquiagem e seus enchimentos. Em 2007, até que não era ruim ver a garota que eu queria ser tirando a noção de beleza imposta de outra mulher chata, mas o ponto é que nenhuma delas deveria estar brigando. Ninguém deixa de ser mulher por usar ou não maquiagem.

A sonoridade da banda também mudou bastante ao longo dos anos e o grupo passou por algumas saídas e entradas de integrantes. Atualmente, Paramore está em um período de hiato e Hayley lançou um álbum solo esse ano, “Petals For Armor“.

Hayley no ensaio fotográfico para promover seu álbum solo. (Foto: reprodução)
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Depois de mais de 10 anos de lançamento dessas músicas. o feminismo e suas pautas se tornaram discussões cada vez mais importantes e populares. As mulheres que fazem rock não agem mais como se precisassem diminuir outras mulheres que performam feminilidade.

As cantoras comentadas aqui amadureceram muito desde a época das composições que fomentavam essa rivalidade feminina. E concordo com Hayley quando ela diz que é sobre crescimento e progressão. É interessante ver como nossas antigas modelos mudaram e abriram suas mentes para questões femininas e feministas.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Autora

Estudante de Psicologia, pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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